Com seu estilo próprio, uma linguagem direta, criativa e apaixonante, a escritora paulistana Aline Bei lança, pela Companhia das Letras, seu terceiro romance, Uma delicada coleção de ausências. E novamente a temática central da obra é a intrincada relação familiar, sob o atento olhar feminino. As personagens desta vez são a neta Laura, a avó Margarida e a bisavó Filipa, que convivem numa pequena residência da cidade fictícia de Belva e dvidem suas experiências recheadas de mágoas, traumas, solidão e ausências.
Outra característica da autora está presente no novo livro: a forma criativa de construir a narrativa; sua prosa poética envolve o leitor e desta vez, sempre na terceira pessoa — ao contrário das obras anteriores narradas na primeira pessoa — as frases curtas, depois da pontuação, permanecem em letra minúscula. A disposição na página de frases/versos também chama a atenção.
“tal recusa não foi uma decisão, mas algo que lhe aconteceu numa tarde em que brincava de boneca e sentiu o plástico, tudo aquilo era de plástico, olho, joelho, pezinho, soltou a boneca no quintal, deixou que a noite a engolisse. no outro dia, a avó perguntou o que houve, com a boneca de ponta-cabeça nas mãos.
não quero mais
tem certeza, Laura?
tenho.
posso dar para o Camilo vender?
pode.
mas a avó não fez isso.”
Paulistana nascida em 1987, Aline Bei é eclética inclusive em sua formação: fez letras na PUC/SP e artes cênicas no Célia Helena Centro de Artes, além de pós-graduação em escritas performáticas pela PUC/RJ. Sua estreia na literatura foi com o premiado O peso do pássaro morto (Prêmio São Paulo de Literatura/2017 e Prêmio Toca); na sequência lançou Pequena coreografia do adeus/2021, que foi finalista do Prêmio Jabuti/2022. Uma delicada coleção de ausências pode ser considerado aquele que encerra a trilogia sobre o olhar feminino para as relações íntimas e familiares.
A obra é dividida em prólogo — com 17 páginas em que a jovem Margarida era assistente do mágico do circo e aprendeu quiromancia com o palhaço — e três partes (A Névoa, Os animais que não deram certo e O impulso), em que as três mulheres de idades distintas convivem com suas idiossincrasias. A garota que está se despedindo da infância adora a convivência com a avó, já que não conheceu a mãe, que a abandou após o parto.
“— vó! fica aqui pra gente conversar.
— já venho.
…
— conta uma história da minha mãe?
— quer a do cinema?
— sim!
— (puxa o banco para mais perto) sua mãe adorava música. ainda deve ser assim
A relação de Margarida e Laura sofre uma pequena cisão com a chegada de Filipa. Os afazeres domésticos aumentam e elas precisam aprender a nova convivência:
“Margarida varre a cozinha em silêncio, desviando a vassoura das caixas, o que para Laura, a esta hora da manhã, é um gesto novo. o que a menina não sabe é que a avó não faz isso por causa da sujeira — que Margarida encontra e empurra para o fundo da pá —, e sim para buscar uma imagem que possa dar sentido ao peso da presença tão repentina da mãe.”
Com o leitor enredado em sua trama, a autora discorre sobre a vida daquelas mulheres. A menina/moça, com as amigas da escola Lívia e Jordana, continua a descoberta da vida, do amor. Sempre com o apoio de Camilo (o amigo da feira de antiguidades), Margarida passa a ler as mãos das clientes em casa, pois precisa cuidar de Filipa. Já a bisa aos poucos se adapta a sua velha casa (que abandonou com o nascimento de Laura e o sumiço de Glória) e à convivência com Margarida:
“Margarida surge no corredor.
— cheguei, mãe. (para Laura) ficou tudo bem?
a menina faz que sim com a cabeça e Margarida se afasta. e logo as três irão dormir.
De forma sutil, a escritora também discorre sobre as mudanças do tempo no corpo daquelas mulheres. (Laura desce a calcinha. vê aquela mancha no tecido que sempre a faz sofrer de pura existência). Filosofa ainda sobre envelhecimento:
“talvez envelhecer seja lidar imensamente com o próprio corpo, com esse estado de presença brutal, à beira do insuportável, um corpo que, de tanto ser visto, agora precisa ser desvisto se os olhos dos outros não quiserem morrer por antecipação.”
“os velhos, tal qual as crianças, precisam ser verificados o tempo todo, pois a morte é um anjo que os sobrevoa constantemente.”
E o destino das mulheres daquela família parece se confundir, se repetir. O encontro, seguido de desencontro, a presença e a ausência, o abandono, o abuso e os traumas ultrapassam gerações. Na vida, o acerto pelo erro.

Ficha técnica:
Título: Uma delicada coleção de ausências
Autora: Aline Bei
Editora: Companhia das Letras, 284 pgs
Preço: R$69,90

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.
Foto em destaque de Aline Bei: Lorena Dini.
Foto da capa de Uma delicada coleção de ausências: divulgação.
Foto de Maurício Mellone: divulgação.


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