“O homem é um produto do meio.” A frase dita por Durkheim reflete a ideia de que o ambiente em que uma pessoa vive, incluindo fatores sociais, culturais, econômicos e físicos, exerce uma influência significativa em sua formação e desenvolvimento. Afirmativa que não deixa espaço para a subjetividade, tampouco reconhece a alteridade.
Por outro lado, a Psicanálise freudiana criou a ideia de que “o sujeito é alienado de si”, desenvolvida por Jacques Lacan, em “O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise” (1964) – aqui, ele faz uma apreciação profunda sobre a formação do Eu e a relação da pessoa com seu próprio desejo e identidade. Espero conseguir explicar de uma maneira mais direta.
A alienação no sentido psicanalítico não se trata da defendida por Karl Marx, sobre a exploração econômica, mas de uma divisão estrutural do sujeito. Para Freud e Lacan, nunca temos acesso pleno a nós mesmos porque parte do que somos está no inconsciente. Nosso “Eu” (Ego) é uma construção frágil, moldada por identificações externas (família, sociedade, linguagem) e por desejos que não controlamos.
Para exemplificar, Freud faz a analogia com um iceberg, cuja consciência é representada pelo seu topo e o inconsciente é tudo o que está submerso, ou seja, a maior e mais profunda parte.
Algumas das principais causas de nossa alienação têm origem no inconsciente. Nossos desejos, traumas e impulsos não são totalmente conscientes. Agimos movidos por forças que não entendemos (ex.: repetimos padrões sem saber o porquê).
Nos constituímos a partir do olhar e do discurso dos outros (pais, sociedade). Desde a infância, internalizamos ideias alheias sobre quem “devemos” ser. A exemplo daquela pessoa adulta que vive para agradar os pais; mesmo sem querer, está alienada ao desejo do outro.
Lacan ainda radicaliza quando afirma que o desejo é o desejo do outro, pois, para ele, não sabemos o que queremos de verdade; só imitamos ou reagimos ao que os outros desejam.
Nesse sentido, existem consequências práticas, a exemplo do sofrimento psíquico, pois muitos vivem em conflito porque tentam se encaixar em identidades que não são suas.
Essa ideia de autonomia é falsa, pois acreditamos que nossas escolhas são livres, mas muitas são repetições de scripts alheios. É o caso do filho ou filha que segue a carreira do pai ou da mãe que, no processo de análise, pode descobrir que isso era um desejo dos pais, não seu.
“O sujeito é alienado de si” significa que nunca somos totalmente donos de nós, mesmo porque nosso desejo e identidade são moldados por forças externas (inconsciente, sociedade, linguagem) que não controlamos.
Durante o processo psicanalítico é possível que a pessoa descubra quais os desejos que são verdadeiramente seus e quais os que lhe são impostos. No momento em que ela passa a assumir a falta e aceita que nunca será totalmente “completa”, que não existe um Eu Essencial a ser descoberto; quando ela acolhe a sua incompletude, só aí ela consegue dar espaço a sua natureza intrínseca.
A Psicanálise não promete uma cura no sentido de eliminar a alienação (isso seria impossível), contudo ajuda o sujeito a reconhecer sua divisão: percebendo que não é uno, mas atravessado pelo inconsciente e pelo Outro. Isso contribui para que ele assuma sua falta; aceitar que não há um “Eu” pleno ou uma identidade fechada é um passo fundamental para que haja compreensão e integração psíquica.

Foto do autor: divulgação.
Imagem em destaque gerada através de IA.


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