O escritor gaúcho José Falero é mais um que com sua obra literária dá voz àqueles geralmente invisibilizados na sociedade, ou seja, empregadas domésticas, porteiros de edifícios, idosos, além de trabalhadores e moradores de favelas e quebradas deste país continente Brasil. Em Vera, seu mais novo romance lançado pela editora Todavia, é o que acontece: a trama se passa nos anos 1990 e gira em torno do cotidiano de uma empregada doméstica, moradora da periferia de Porto Alegre, que trabalha num edifício de classe média alta. Vera luta para sobreviver e cuidar de Vanderson, seu filho de 4 anos.

Assim como Geovani Martins, autor de O sol na cabeça/2018 e Via Ápia/2023 que retratam o mundo dos garotos dos morros cariocas, e Lilia Guerra, que escreveu Perifobia/2018 e O céu para os bastardos/2023 ambientados na Zona Leste da capital paulista, José Falero mostra neste novo livro o dia a dia das vilas da Lomba do Pinheiro, periferia da capital gaúcha.

Nascido em 1987, em Porto Alegre, José Carlos da Silva Junior ou José Falero — adotou o sobrenome para homenagear a mãe, Rita Helena Falero — tem uma biografia semelhante a de seus personagens: foi servente de obras, porteiro, auxiliar de cozinha, supridor de supermercado (profissional responsável por estocar as gôndolas), além de músico de rap. Abandonou o ensino médio e formou-se posteriormente pela EJA (Educação de Jovens e Adultos). É autodidata. Leu o primeiro livro aos 20 anos, tornou-se um leitor voraz e é um escritor eclético: lançou o livro de contos Vila Sapo em 2019, depois o primeiro romance Os supridores em 2020 e o de crônicas, Mas em que mundo tu vive, em 2021. Em todos o foco central é o mundo das quebradas, como em Vera.

Em 304 páginas, o romance é dividido em 74 capítulos curtos e o leitor logo percebe a diferença entre as falas do narrador e as dos personagens: com pleno domínio da norma culta, o narrador conta o cotidiano de Vera, de sua mãe Helena e irmãs e dos demais moradores das vilas da Lomba de Pinheiro. Já os personagens, por meio dos diálogos, têm o falar solto, livre de regras gramaticais, e recheado de gírias.

Fátima, Rose, Jurema e Vera estavam sentadas na pequena  escadaria de concreto inserida no barranco. Elas trocavam cochichos.
— Mas, gente, se a TV não ficou muito boa daquele lado, por que tu não coloca ela de outro lado, então? — quis saber Rose.
— Porque do outro lado vai ocupar o banquinho, e às vez eu uso ele — respondeu Vera.
— Bom o meu lema é: agora que tá lá, deixe que lateje — brincou Fátima.

Outra marca do romance é a constatação da brutal diferença social existente no Brasil. De forma criativa, o autor mostra o abismo social em que vivemos por meio da descrição da alimentação que Vera prepara aos patrões e a que o seu filho tem acesso no barraco:

Lúcia  se pôs a picar um tomate para comerem, ela e Vanderson, com o arroz queimado que havia sobrado do dia anterior. Vera, a exemplo da irmã, também picava um tomate. Os dois frutos, em si, não eram as únicas coisas entre as quais não cabia qualquer tipo de comparação: um ia sendo picado no fundo de um beco; o outro, no nono andar de um prédio; um seria servido com arroz velho; o outro, com risoto de camarão feito na hora.”

O machismo, a violência doméstica contra mulheres e a existência e ação de
homens tóxicos são temas tratados no decorrer de toda a obra, tanto nas situações vividas por Vera como pelas amigas e irmãs dela. Na descrição do cotidiano das personagens, Falero introduz estes temas tão doídos para as mulheres. Vera sofre assédio do patrão, recebe galanteios inconvenientes do porteiro (que agride a esposa em casa), mas ao perceber a tristeza de uma amiga, ela se solidariza de imediato:

“— Fátima, minha querida, eu vim aqui pra saber por que que tu tava quase chorando no Dez Para as Sete naquele dia.
— Tu quer saber mesmo? Tinha um cretino se esfregando em mim naquele ônibus. Foi isso. O homem tava com o pau pra fora, esfregando em mim.
Após ouvir tudo, Vera soltou um longo suspiro. Sem saber o que falar, tudo o que fez foi olhar para Fátima, encontrando-a com os braços novamente cruzados, os olhos mais revoltados do que nunca, parecendo reviver a terrível cena narrada.

Por meio da narração do cotidiano de Vera e dos demais personagens que José Falero traça o perfil de uma comunidade carente, não só de Porto Alegre mas como de todas as favelas espalhadas por este país. Na orelha do livro, os editores sintetizam a literatura de escritor gaúcho:

“Desde sua estreia, o engenho literário de José Falero vem a reboque de um olhar sempre inconformado com a violência inerente das relações sociais no Brasil. Em suas páginas, contudo, essa indignação nunca vem destituída de humor, energia narrativa e muitas peripécias na vida dos personagens. Falero é um romancista por excelência.”

Ficha técnica:

Título: Vera

Autor: José Falero

Editora: Todavia, 304 pgs

Preço: R$72,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de José Falero: colhida no site da revista Trip, Diego Apoli / divulgação.

Foto da capa de Vera: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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