Dizem que o teatro e a Psicanálise se desenvolvem num lugar escuro, profundo, esquecido e repleto de objetos, como em um porão. Lá estão, metaforicamente, toda a sorte de sentimentos da condição humana: abandono, amor, alegria, ódio, raiva, medo, mágoa, ressentimentos, angústia, frustração, gratidão. Muitos deles são deslembrados ou recalcados, seja por contingência ou impossibilidades subjetivas-sociais.
A palavra falada é a viga mestra, por assim dizer, desses dois campos distintos da criação humana, desde o teatro grego antigo, passando pelo The Globe Theatre shakespeariano, na Londres do final do século XVI e início do século XVII, até a rua Berggasse, 19, em Viena, onde Freud criou a Psicanálise. O legado dessas ações pela palavra se espraia até hoje entre as quatro paredes presenciais (ou em múltiplos ambientes online) no consultório psicanalítico, entre analista e analisando; e no palco, entre atores e plateia.
Descobri, ainda muito jovem, por mera intuição e curiosidade, que a arte teatral, enquanto expressão artística, é uma fonte inesgotável de conhecimento sobre nós mesmos e a sociedade circundante.
O teatro é uma espécie de grande espelho simbólico fixado no palco, seja qual for a conformação assumida por esse palco (italiano, arena, elisabetano), no qual a plateia invariavelmente se vê espelhada. Ao mesmo tempo, cada um, de per si, se enxerga distintamente nas cenas, ou estas acionam, pela emoção que a palavra causa e/ou pela plasticidade dos corpos dos atores em ação, os sentimentos mais puros ou mais nefastos do nosso porão subjetivo.
Como esquecer cenas vistas há tanto tempo, em meados dos anos 1970, em que atores baianos em Macbeth circularam pela plateia do Teatro de Santa Isabel, no Recife, em túnicas brancas manchadas de sangue, cabelos desgrenhados, a oferecer vinho em canecas de barro, passadas de boca em boca, fixando o olhar nos nossos olhos até a exaustão. Até o insuportável. Sentíamos cúmplices ao beber aquele vinho-sangue, pelo assassinato do Rei Duncan da Escócia, enquanto dormia, pelas mãos de Macbeth, peça emblemática de Shakespeare sobre a ânsia neurótica pelo poder até a morte, e suas consequências psíquicas.
Essa me parece ser a força maior do teatro. Ele marca nossa história; nos transforma em seres melhores ao colocar nossos sentimentos mais mesquinhos e inconfessáveis a nu sob a luz do refletor, no palco da vida, que é o teatro. É nossa história dramática, subjetiva e social, na carne viva dos atores, isto é, nós mesmos ali representados, pelo avesso, sem máscaras, sem maquiagem, sem harmonização facial. Como afirma Shakespeare no monólogo Como Gostais, “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres são apenas atores.” Nesse sentido, o teatro é um templo da ordem do político.
Não é à toa que, em momentos autoritários da sociedade, esse templo é vilipendiado e censurado, ao ponto de espancar atores e silenciar sua palavra, como ocorreu na ditadura militar recente. Roda Viva, de Chico Buarque, foi um dos exemplos mais conhecidos desse período sombrio, cujos fantasmas ainda nos ameaçam hoje.
Minhas idas ao teatro nunca mais cessaram desde o Macbeth soteropolitano.
Envolvido numa pós-graduação em São Paulo, no final dos anos 1980, soube aproveitar o que a cidade oferecia de melhor e inovador em matéria de cultura. Entre outras fontes de conhecimento, escolhi seguir por anos a fio o teatro de três diretores admiráveis: Gabriel Villela, Antunes Filho e Gerald Thomas.
Como esquecer a montagem de Romeu e Julieta (Shakespeare), do mineiro Gabriel Villela, em 1991, encenada nas ruas de São Paulo? Numa pegada circense, os atores foram montados em pernas de pau para contar, com graça e leveza, essa história clássica de amor entre dois jovens, pautada numa versão rica em referências à cultura popular mineira, com um figurino inesquecível da pernambucana Luciana Buarque. Imorredoura.
De Antunes Filho, entre tantas peças que tive o privilégio de assistir, Antígona (Sófocles) foi a mais impactante, pelo genial trabalho dos atores. Aliás, a formação de atores desenvolvida décadas a fio por Antunes Filho no Sesc Anchieta de São Paulo é reconhecida como um dos seus maiores legados. São sementes espalhadas pelo cinema, pela TV, pelos palcos, pelas ruas.
Num pequeno palco estreito, como uma passarela, os atores de Antígona se locomovem a menos de dois metros das arquibancadas laterais, que acomodam uma restrita audiência. Nesse exíguo espaço, próximos, portanto, à tragédia, sentíamos subjugados à tirania de Creonte e solidários à filha de Édipo, Antígona, impossibilitada de enterrar seu irmão devido às leis do Estado; ao mesmo tempo, éramos juízes a decidir entre a lei estatal e as leis divinas, que determinam que os mortos tenham sepultamento digno. Nunca mais verei Antígona pelas mãos de Antunes Filho.
Mas é o teatro de Gerald Thomas o mais avassalador dos três diretores. Como artista multifacetado, Thomas inova, polemiza, transgride regras teatrais de começo, meio e fim, mistura referências diversas, como filosofia, música, literatura e artes plásticas. Utiliza cenografia irreverente, a exemplo de uma grande tela-filtro, similar ao tecido de tule, separando a plateia do palco, ou pelo uso intenso de gelo seco como efeito plástico que revela e esconde os atores nas cenas.
Tudo é processo, invenção, experimentação, citação, fragmentação, arte. Dramaturgia não-dramaturgia, como o próprio Thomas caracteriza, entre outros vetores, seu trabalho teatral. A palavra falada perde a força, pelo menos naquele momento da Cia. de Ópera Seca do diretor. Jamais esquecerei o impacto da ópera Mattogrosso (1989) sobre o flagelo da seca; talvez o trabalho mais emblemático de Gerald Thomas, a partir da música de Philip Glass.
Fui tomando gosto. Seguiram-se Impérios das Meias Verdades (1994), com Fernanda Torres no elenco; The Flash and Crash Days (1991), com Fernanda Torres novamente e Fernanda Montenegro; Nowhere Man (1996) e UnGlauber (1994).
De todas elas, guardo fragmentos importantes em mim para a vida toda. A beleza plástica na cena em que o ator Edi Botelho “flutua” sobre a asa de um avião, em UnGlauber, é apenas um grão de areia na grandiosidade do teatro de Gerald Thomas.
Recife vai receber, de 17 a 19 de outubro, no Teatro Luiz Mendonça, a peça Traidor, com Nanini, obra escrita e dirigida por Gerald Thomas.
Praia do Pina, Recife, setembro de 2025.
Referências
Shakespeare, William. Como gostais. L&PM Pocket (727), vol. 727. Editorial Publibooks Livros e Papeis Ltda., 2009.
Thomas, Gerald. UnGlauber. https://www.instagram.com/reel/DBi1tNmO_He/?igsh=ZDg5ZnAwcTlueDFv
Expediente:
Compra de ingressos: https://teatroluizmendonca.byinti.com

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Foto em destaque do cartaz de Traidor: divulgação.
Foto do autor: divulgação.


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