Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
(Conceição Evaristo)
As práticas agroecológicas na produção de alimentos imitam a própria natureza. Elas recorrem a um sistema sustentável de uso da terra e das águas continentais e interiores, na produção agropecuária e aquícola, com conservação do solo e do meio ambiente, sem o uso de agrotóxicos. Os benefícios econômicos e ecológicos daí decorrentes são consideráveis.
Em vez de monoculturas de cana, pasto, soja, trigo, café, laranja ou milho, a produção de base agroecológica promove a diversificação de alimentos, incluindo frutas, hortaliças, grãos e outras possibilidades de produção de alimentos saudáveis. Isso não só garante a segurança alimentar, mas também reconstrói e conserva a flora e a fauna nativas. Essa abordagem valoriza o conhecimento tradicional e ancestral de agricultores, camponeses, pescadores, indígenas e quilombolas, acumulado ao longo de gerações, permitindo o fortalecimento da pluralidade e diversidade dessas culturas.

A agroecologia, como campo científico, ganhou forma mais definida nos anos 1970, em resposta aos resultados nefastos provocados pela Revolução Verde. Essa abordagem se caracterizou pelo uso intensivo e muitas vezes indiscriminado de agrotóxicos e pela modernização tecnológica no campo, com o objetivo de aumentar a produção e a produtividade de alimentos, mas impactando negativamente os territórios rurais e pesqueiros tradicionais. O resultado desse modelo, aliado à expansão industrial, acarretou invasão cultural, migração campo-cidade, desarticulação das culturas locais, monocultura, agronegócio, degradação do solo e poluição aquática, percebidas em diversas partes do mundo.
A 36ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, que fica em cartaz até 11 de janeiro de 2026, dialoga com os princípios da agroecologia, mesmo sem mencionar explicitamente o termo, ao denunciar a degradação ambiental e provocar reflexão por meio da criação artística, sobre a existência de caminhos possíveis para conservar a natureza, a diversidade cultural e a vida no planeta.
Percorro o sinuoso Pavilhão Ciccillo Matarazzo, projetado por Oscar Niemeyer, sem qualquer leitura antecipada da grande exposição, como faço habitualmente. Ao mesmo tempo, desobedeço à trajetória proposta pelos curadores, pois gosto de construir meu próprio caminho a partir das obras que me atraem a cada olhar lateral. Só depois, leio e refaço o caminho sugerido. Sou inspirado pela proposta de Linda Bo Bardi nos quadros expostos em cavaletes de vidro frontais no acervo do MASP, que valoriza a liberdade de navegação sem cartas náuticas pré-estabelecidas para o visitante.
São várias as obras que me chamaram a atenção na 36ª Bienal, que traz como título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, baseado no poema Da Calma e do Silêncio, de Conceição Evaristo. A maior parte dos artistas participantes é do Sul Global (78 deles são da África, América-Latina e Caribe) e propõem uma reflexão sobre “humanidade, natureza e escuta”. Talvez esta edição seja a mais interessante das que visitei nas minhas andanças por São Paulo ao longo das décadas.
Logo à entrada, vê-se a instalaçãode uma mata-jardim (Sol da Consciência. Deus sopra através de mim – o amor me quebra), da artista conceitual e poeta nigeriana-americana Precious Okoyomon, que sugere o meio ambiente como fio condutor do que vamos observar na Bienal.
O viandante defronta-se à direita com um audiovisual (Delta-delta: tribunal do povo, de Tobechukwu Onwukeme e Imani Jacqueline Brown), que expõe labaredas sobre a superfície das águas em alto-mar, devido, provavelmente, ao rompimento de algum duto de petróleo. Ao lado, vemos um conjunto de pinturas em telas sobrecarregadas em azul ultramar, espécie de contínuo marinho. Mais adiante, ao fundo, um painel de grandes dimensões, da artista visual nigeriana Otobong Nkang. Pareceu-me um tapete urdido em alto-relevo. No primeiro plano, vê-se uma rede de emalhar semidestruída, ao lado de detritos (peças desmembradas de um alusivo corpo humano), visualizados numa maré vazante.

Subo a rampa de Oscar Niemeyer e avisto outra tapeçaria-painel de Otobong Nkang , em dimensões similares. Desta vez, visualiza-se um fundo do mar repleto de animais, principalmente corais, e diversos tipos de algas coloridas. Um paraíso marinho aparentemente preservado, ainda isento de dejetos de plástico vindos da terra? Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, estima-se a entrada anual de cerca de 11 milhões de toneladas de plástico nos oceanos.

Nesse mesmo piso, nos deparamos com uma espécie de tenda multicolorida, ampla, formada exclusivamente de resíduos de plástico, como tampas de garrafas de diferentes cores e tamanhos, teclas de computador unidas por fios, resultando num bordado espetacular que só é perceptível quando nos aproximamos do seu “tecido”. Um tapete retangular longo, construído exclusivamente com as cerdas de escovas de dentes, surpreende o visitante à entrada da “habitação residual”. Não há como não refletir sobre o excesso de plástico em nossas vidas. Ou melhor, como seria o mundo sem eles. Um paraíso marinho na Terra, pensei.

Curioso, procuro e não encontro o nome do “arquiteto” da tenda. Apelo para um instrutor que me leva a uma das colunas circulares da edificação afastada dali e tenho que me abaixar a uma altura de uma criança de 10 anos. Com dificuldade, leio o nome do autor, mas não a sua nacionalidade.
Aliás, tive a impressão de que em quase todas as obras expostas nesta edição da Bienal, o peregrino não tem acesso facilmente à nacionalidade dos artistas. Os curadores decidiram, leio depois no catálogo da exposição e na coletânea de textos, por escolher e apresentar as obras-artistas inspirados nas aves migratórias, explorando conexões e interligações, independentemente das fronteiras nacionais. (Catálogo 36ª Bienal, 2025; Coletânea, 36ª Bienal, 2025).
As aves migratórias que pousam em regiões diversas, ouso pensar a partir dos curadores, são como uma espécie de cidadão do mundo. Dependem da diversidade climática para sobreviver. A arte, nesse sentido, também não pode ter fronteiras. Com fronteiras, não sobreviverá, pois carece da diversidade para existir. Igualmente, a diversidade do cultivo de alimentos saudáveis e ambientalmente sustentáveis, bem como a preservação dos conhecimentos tradicionais de quem os produz, não sobreviverão na monocultura e no agronegócio, que são contrários à própria natureza, diversa e autossustentável.
Sob esse ponto de vista, a elaboração conceitual da 36ª Bienal surge na urgência atual de se refletir diante de um mundo cada vez mais avesso às diferenças locais, regionais e transfronteiriças. A cultura, segundo o antropólogo indiano Arjun Appadurai, citado por Boaventura de Sousa Santos, “é o campo das diferenças, dos contrastes e das comparações”. Em última instância, afirma Boaventura, “a cultura é, em sua definição mais simples, a luta contra a uniformidade” (p. 422). Nesse sentido, a agroecologia e as artes plásticas, embora em campos distintos da luta cultural, se alimentam do diverso, da pluralidade dos conhecimentos, das aproximações e refrações do seu fazer no mundo.
Percebe-se no conjunto das obras expostas na 36ª Bienal uma certa unidade na diversidade, sobretudo nos tecidos bordados de miçangas, nos estandartes e nos tapetes feitos com diferentes resíduos (fitas magnéticas de VHS, papel de jornal), de rara beleza estética, apresentados em profusão em cores vibrantes da paleta primária ou monocromática.
Paradoxalmente, sabemos, sem explicar o porquê, que as obras são oriundas de países diferentes por algo sutil que apresentam, intuído por nosso estoque estético local-regional-nacional, apesar das aproximações entre elas ou das conexões e interligações de que falam os curadores. O mesmo acontece nas obras de pintura sobre tela, nos objetos de trabalho das culturas tradicionais expostos, nos ferros para orixás e nos ex-votos, entre muitas outras obras presentes na exposição, que se refletem, aqui e acolá, em diferentes suportes. As culturas populares, das quais fala Néstor García Canclini em As Culturas Populares no Capitalismo, estão por todos os lados. Ali se percebe a presença dessas culturas, não no sentido folclórico, subalterno, como diz Canclini, mas no terreno da resistência, nas negociações e apropriações dos bens culturais, nas dinâmicas marcadas pela globalização e pelo consumo.
Ao fim e ao cabo, o que parece estar posto na 36ª Bienal de Arte de São Paulo é que a criação artística talvez seja o elo mais capaz de nos unir nas diferenças para refletir e nos comunicar diante das ameaças ambientais contemporâneas no planeta. Que sigam os viandantes, sempre.
Bairro de Campos Elíseos, São Paulo, setembro de 2025.
Referências:
Canclini, Néstor García. As culturas populares no capitalismo. São Paulo: Editora Brasilense.
Catálogo da 36ª Bienal de São Paulo. Nem todos viandantes anda estradas; da humanidade como prática. Fundação Bienal de São Paulo; curadoria Bonacenture Soh Bejeng Ndikung. São Paulo, 339p.
Coletânea de textos da 36ª Bienal de São Paulo. Nem todos viandantes anda estradas; da humanidade como prática. Fundação Bienal de São Paulo; curadoria Bonacenture Soh Bejeng Ndikung. São Paulo, 221p.
Santos, Boaventura de Sousa. Os processos de globalização.
Expediente:
36ª Bienal de São Paulo
Curador Geral: Bonaventure Soh Bejeng Ndikung.
Até 11 de janeiro de 2026.
Entrada Gratuita.
Pavilhão Ciccillo Matarazzo
Av. Pedro Álvares Cabral, s.n.
Parque do Ibirapuera, Portão 3
São Paulo (SP).

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Imagem em destaque do cartaz da 36ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo: divulgação.
Foto do autor: divulgação.


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