Não há como não se impactar com a dramaturgia de Nelson Rodrigues (1912-1980). Tenho três livros dos quatro volumes das obras completas do autor para o teatro, lidos no alvoroço da juventude, que me marcaram para nunca mais ser o mesmo.

A realidade social e psíquica do ser humano apresentada por Nelson a quem lê ou assiste às suas peças ou as adaptações para o cinema, requer da audiência, ou do leitor, um rito de passagem que vai da ingenuidade à sagacidade, sem escalas no Romantismo. Ninguém sai ileso do teatro de Nelson Rodrigues. 

A dramaturgia rodriguiana revela tudo o que se pretende encobrir pelo verniz social ou pelos semblantes das harmonizações faciais explícitas e inacreditavelmente deformantes ao olhar do outro: lá estão os desejos inconfessáveis, as obsessões, as paixões, o adultério, a hipocrisia, a busca neurótica pela ascensão social, o incesto, a calúnia, a mentira, o mau-caratismo, a violência, os crimes, as mortes, o amor e o ódio…

Não me recordo de como cheguei ao dramaturgo pernambucano. Possivelmente foi a partir do impactante filme O Casamento (1976), dirigido por Arnaldo Jabor, adaptação homônima do romance, único de Nelson Rodrigues, censurado pela ditadura militar em 1966. A censura às obras de Nelson em momentos antidemocráticos é quase um pleonasmo, e ele, um enfant terrible, por arrancar máscaras alheias e desafiar o Eu freudiano sob uma luz estourada na nudez do palco. 

É essa genialidade de Nelson Rodrigues de transgredir às avessas o que está posto socialmente, isto é, revelar, sem idealizações – e aqui utilizo sua própria expressão: “a vida como ela é” -, que faz sua obra extrapolar a sociedade carioca, sobre a qual se debruçou, para cartografias mais amplas e atemporais. Não é à toa que as peças de Nelson Rodrigues são costumeiramente encenadas, como O Beijo no Asfalto (1960), em cartaz, simultaneamente, em dois palcos paulistanos: QG791 e Ruth Escobar, ambos no Bixiga.

Cena da peça O Beijo no Asfalto no centro cultural QG791. Foto: divulgação.

Se Nana Caymmi é nossa Billie Holliday, com sua voz de abismo, como se expressou mais ou menos assim Georges Gachot, numa entrevista sobre seu delicado documentário Nana Caymmi em Rio Sonata (2010), ouso dizer que Nelson Rodrigues é nosso Shakespeare.

Com meu bordão em dia – onde Nelson Rodrigues for levado ao palco, estarei na plateia -, chego ao espaço cultural QG791, do qual nunca ouvirá falar (791 é o número da rua Major Diogo, onde se localiza o espaço), com duas horas de antecedência. Sem ingresso e sem saber se, de fato, o espetáculo iria acontecer, dadas as informações precárias nas redes sociais, toco a campainha da porta que dá para a calçada. Inicialmente, tive a sensação de que se tratava de uma “casa suspeita”, não fossem os cartazes de espetáculos fixados na parede. 

Atende uma jovem. Pergunto se haveria espetáculo e se posso comprar o ingresso. Ela chama o diretor da peça, Diego Chimenes, um jovem gentil e simpático, que me informa que são vinte e poucos lugares apenas na plateia, já lotada, mas que iria me acomodar. Era o último dia da temporada. Mas fui informado que a peça volta em novembro próximo. Por frações de segundos, me perguntei o que eu estava fazendo naquele lugar inusitado, em que o próprio diretor da peça vende os ingressos e uma atriz abre a porta – vejo-a depois no palco -, para um espectador fora do horário.

Disse ao jovem diretor que não conhecia a versão de O Beijo no Asfalto no palco, apenas as três adaptações realizadas para o cinema, e que iria também assistir à mesma peça em cartaz no Teatro Ruth Escobar. Pensei, Nelson Rodrigues em dose dupla, sem metanol, arrematei para mim mesmo. 

Confesso que saí totalmente tomado de emoção do espetáculo, qual um professor vendo seus alunos indo por si mesmos, fazendo melhor do que seus mestres, a certa altura profissional. Um elenco de tão jovens atores entusiasmados, dando banho de interpretação, numa tragédia complexa e exigente como O Beijo no Asfalto, é digno de aplausos de pé. Não há desnível de interpretação entre eles, aspecto que, em geral, compromete qualquer espetáculo, qual uma laranja deteriorada num suco da fruta. Ao vê-los vivenciando a tragédia no exíguo palco, pensei: o Brasil tem jeito. E o teatro é a força maior, acumulada há 2500 anos.

O grupo Os Melífluos, do qual esses atores fazem parte, no espaço cultural QG791, estuda Nelson Rodrigues desde 2018. O Beijo no Asfalto é a primeira apresentação como resultado desses estudos. O teatro é um ofício exigente em subjetividade, técnica e cultura. E levar Nelson Rodrigues ao palco já anuncia que por trás das cortinas havia muito estudo e dedicação. 

Pelas mãos dos próprios atores, somos levados literalmente ao porão da casa, onde se realiza O Beijo no Asfalto. O espaço é um pequeno retângulo, onde se acomodam cadeiras em fila única, nas laterais maiores, no mesmo plano palco-plateia. Nas laterais menores e num tablado central reduzido, as cenas ocorrem alternativamente. Estamos a um metro de distância dos atores, às vezes menos, como se não fôssemos plateia. Na verdade, uma espécie de plateia-transeunte que presencia o atropelamento de um homem por uma lotação na Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, ponto de partida da tragédia.

Já abordei O Beijo no Asfalto neste blog, nas três versões cinematográficas brasileiras, em Tinha que ser Nelson Rodrigues. Sintetizo alguns trechos da trama a seguir.

O Beijo no Asfalto no Teatro Ruth Escobar. Imagem: divulgação.

Arandir, um jovem bancário que transitava no momento do atropelamento, sai em socorro da vítima, abaixa-se e, repentinamente, beija a boca do desconhecido, que falece no local. A cena é observada pelos transeuntes, por um jornalista fotográfico, que registra o ato, e pelo sogro que, “coincidentemente”, estava próximo ao beijo no asfalto. Por mais que Arandir se esforce em explicar à polícia, à imprensa, aos colegas de trabalho e à própria mulher que o beijo fora um pedido da vítima – um beijo de misericórdia –, as dúvidas permanecem e o preconceito vai assumindo proporções vis. A imprensa, mancomunada com a polícia, ávida por vender jornal e resolver crises internas da empresa, cria uma série de infames fake news (para usar a expressão de agora) que destroem a carreira profissional e a vida privada do jovem Arandir. Polícia e imprensa, para forjar verdades, violentam a mulher de Arandir e a do atropelado, sem nenhum rasgo de escrúpulo. Um misto de instinto de sobrevivência, de medo e de total ausência de direito envolve essas duas mulheres indefesas.

O Beijo no Asfalto é o Brasil dissecado em vísceras com metanol, mas atual do que nunca, na diligência policial corrupta, na violência contra as mulheres, no cinismo, no preconceito, no jornalismo escroto, nas mentiras, na calúnia. Tudo à mostra a olho nu, sem concessões, sem rapapés, no retângulo do QG791. 

Que Dionísio, o deus grego da alegria, das festas, do vinho e do teatro, proteja os jovens atores de O Beijo no Asfalto.

Bairro Campos Elíseos, São Paulo, outubro de 2025.

Expediente

O Beijo no Asfalto, direção de Diego Chimenes. Nova temporada em novembro vindouro. Centro cultural QG791. Rua Major Diogo, 791 – Bela Vista, São Paulo.

O Beijo no Asfalto, direção de Kkeber Di Lázzare, até 26 de outubro. Teatro Ruth Escobar [Sala Gil Vicente] – Rua dos Ingleses, 209 – Bela Vista, São Paulo. 90 minutos | 14 anos | R$ 40,00 a R$ 80,00 (venda pelo site Sympla).

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque do cartaz de O Beijo no Asfalto, no QG791: divulgação.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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