Depois que fiquei velhinho, venho aprendendo coisas – simples – que, hoje, me parecem valer muito mais do que meus títulos acadêmicos. Isso tem me exigido superação, claro, pois assim é o ato de estudar e de envelhecer. Paulo Freire dizia que nos superamos até mesmo olhando as nuvens passarem.

Acordo cedo. De rosto mal lavado e em jejum, desço com meu cachorro pela escada do edifício onde moro (tem sido assim desde a época da pandemia) e alcanço a calçada da praia. Olho o mar, que, a essas primeiras horas da manhã, parece um grande tecido de paetê prata, tão ao gosto e à alegria de Maria Alcina. Dou a cara ao sol e digo para mim mesmo: isso é que é viver. Diante dos automóveis em alta velocidade em direção ao trabalho, não consigo compreender por que há pessoas que têm receio de se aposentar.

Na volta, arranco alguns galhos com flores de jasmim-mimoso, arbusto que plantei e cultivei no jardim do condomínio. Com o pequeno buquê numa das mãos, que exala vida como uma maresia, subo as escadas num contentamento similar ao do meu cachorro, quando escava e se revira na areia da praia. Ele revive a sua animalidade ancestral, e eu, a minha humanidade esquecida nas coisas simples.

Outro dia, ajudando a preparar a mostra Ocupação Edgard Homem 60+, no Hotel Central, peguei-me rindo de uma situação tão banal, mas rica, digamos, em felicidade subjetiva, enquanto lampejo, como diria o pai da Psicanálise. Explico. 

Atravessei minha adolescência na Boa Vista. Conheço todas as vielas, ruas e avenidas do bairro. Não há como contar as vezes em que passei diante do histórico Hotel Central, de 1928, ainda hoje esbanjando estilo arquitetônico no centro do Recife.

Há uma década ou mais, entrei pela primeira vez no saguão que recebeu Getúlio Vargas, Orson Welles e Carmen Miranda. Fui mal recebido. Na verdade, queria conhecer o edifício por dentro, nada mais. Eles perceberam minha intenção e me desviaram. Diferente de Nova York antes da era Trump e do 11 de Setembro! Uma vez, entrei, “como periquito por su casa”, como dizia minha avó galega, no luxuoso hotel The Plaza, ao lado do Central Park, para fazer xixi nos mármores da toalete, sem que ninguém me barrasse. Uma inesquecível experiência de cidadania, ainda que superficial. Impossível de vivê-la em Paris, por exemplo.

Foi a atual empresária do Hotel Central, Rosa Maria, que gentilmente satisfez o meu antigo desejo, levando-me pelos corredores até o belo e amplo terraço do oitavo andar. Naquele momento, lembrei-me do livro Demian, de Hermann Hesse, lido na juventude, cujo catalisador principal da obra é a força do desejo.

Pois bem, passados quase sessenta anos desde que passei pela primeira vez diante do Hotel Central, me vejo, há alguns dias, no mezanino do restaurante, voltado para a Avenida Manoel Borba, em cima de uma escada, pregando pregos na parede, para fixar os quadros da mostra. Atividade que não deveria realizar nessa altura etária (apesar de certa desenvoltura adquirida por subir e descer escadas no meu condomínio). 

Dessa altura circense, estou visível, de corpo inteiro, aos transeuntes e passageiros dos automóveis. Quando pensei: se algum ex-aluno ou colega da universidade passar e me vir aqui, o que dirão? Talvez, de boca entreaberta, digam ou pensem: olha o professor fazendo uma ôia (como se diz no contexto popular, isto é, um bico, ou, “modernamente”, um freela). Inventei uma manchete terrível: “Professor aposentado da UFRPE faz bico no Hotel Central para sobreviver e cai da escada”.

Rio de mim mesmo, com alegria e felicidade, pela situação inusitada que jamais imaginei viver ali um dia. Assim, entre umas e outras rugas percebidas, as mais recentes próximas ao meu dedo mindinho do pé (até aí, Brutus, parafraseei), vou aprendendo que o bom da vida está no que é simples. No simplesmente simples, como num pequeno buquê de jasmim.

Praia do Pina, Recife, 10 de dezembro de 2025. 

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Imagem em destaque: o Hotel Central pintado por Angelo Brás Fernandes Callou em oleo sobre tela (20cm x 15cm, 2024).

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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