Só muito recentemente tive a dimensão exata da obra do escultor, gravurista, cenógrafo, pintor, curador e museólogo baiano de Santo Amaro da Purificação, Emanoel Araujo (1940-2022).

Sempre o percebi como um aguerrido agitador cultural polêmico à frente da Pinacoteca do Estado de São Paulo e defensor incondicional da causa negra e das cotas raciais, pois acompanhava o seu trabalho pela imprensa paulista nos anos 1990, quando morava por aqui.

Ao idealizar e criar, em São Paulo, a partir de seu próprio acervo, o Museu Afro Brasil, em 2004, hoje Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, em homenagem ao artista, Emanoel Araujo realizou curadorias de exposições importantes, como “Africa Africans” (2015), talvez a mais emblemática que eu tenha visto, pois se tratou da maior mostra realizada no Brasil com artistas plásticos africanos contemporâneos que viviam na África ou em comunidades diaspóricas. Dessa experiência, destaco a obra-instalação “The British Library”, de Yinka Shonibare, que ficou na minha memória para sempre. Os 6 mil livros encapados com tecidos coloridos, do tipo batique, meticulosamente ordenados como em uma biblioteca clássica e burguesa, insinuam, pelo padrão quebrado com as capas coloridas africanas, que a existência da Inglaterra está intimamente ligada a uma exploração colonialista no continente africano.

Mas são as esculturas de Emanoel Araújo que mais me impactaram ao descobri-las, por acaso, na rede mundial de computadores. Foi em nome delas que visitei a exposição “Emanoel Araujo – Embates Construtivos”, com curadoria de Fábio Magalhães, no 24º andar do Farol Santander, como hoje é conhecido o antigo Edifício Altino Arantes, tombado para preservar seu estilo Art Déco, semelhante ao do Empire State Building. A mostra fica em cartaz até 22 de fevereiro de 2026.

“Embates Construtivos” traz 70 obras de Emanoel Araújo – esculturas, pinturas, xilogravuras -, para celebrar esse artista multifacetado, cuja criação, ouso dizer, transita entre nossas raízes ancestrais e históricas e o moderno, e o contemporâneo, esteticamente falando.

A sensação que se tem ao se observar o conjunto do acervo exposto é a capacidade de Emanoel Araujo não apenas de mover-se entre campos estéticos distintos – o contemporâneo e o ancestral -, mas também de dialogar com essas distinções e, sobretudo, uni-las em uma obra de arte. Uma espécie de hibridez cultural na criação do objeto artístico, à luz do que diz Néstor García Canclini, no já clássico livro “Culturas Híbridas”.

As pinturas, as gravuras e as esculturas expostas em formatos geométricos – característica principal da obra de Emanoel Araujo, ele próprio um dos expoentes do construtivismo na arte brasileira -, trazem, por assim dizer, essa dualidade-una que nos impacta pela beleza e estilo particularíssimo. São as composições de cores, tal como comentadas acima na exposição “Africa Africans”, e de elementos diversos das religiões e da cultura africana ou afro-brasileira, que nutriram e edificaram em madeira, ferro, resina e papel a arte desse grande artista brasileiro.

Com as cores vibrantes de Emanoel Araujo ainda presentes na visão, subo até o terraço panorâmico no 26º andar do Farol Santander e, enquanto o vento frio bate forte na minha cara, vem à memória a frase de Gilles Deleuze, lida recentemente, de que a arte resiste à morte. Essa concepção está no texto “O que é um ato de criação?” Diz ele, textualmente: “O ato de resistência tem duas facetas. Ele é humano e é também o ato da arte. Apenas o ato de resistência resiste à morte, quer sob a forma de uma obra de arte, quer sob a forma de uma luta dos homens.” Tenho hoje a certeza de que Emanoel Araujo lutou nessas duas trincheiras como ninguém!

Bairro de Campos Elíseos, São Paulo, dezembro de 2025.

Expediente:

Emanoel Araujo – Embates Construtivos.

Farol Santander São Paulo, 24º andar, Rua João Brícola, 24 – Centro.

A exposição segue até 22 de fevereiro de 2026, de terça a domingo, das 9h às 20h.

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque do corredor da exposição Emanoel Araujo – Embates Construtivos: divulgação.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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