Para Júlio Cavani

Certamente você já se deparou, como eu, numa situação de conversa com alguém, que, após um bando de argumentos para explicar um gosto ou desgosto divergente do seu, sem querer recorrer à formula “gosto não se discute”, que é uma fórmula muito chula e que pode indicar pouca cultura, apela para: “não sou especialista, apenas {o filme, o livro, o espetáculo, produto cultural} não me tocou!” Ou seja, faz o critério da escolha repousar sobre a sensibilidade individual.

O interlocutor é, geralmente, uma pessoa com alto nível educacional, diplomado numa área não especializada daquela do produto cultural em tela, uma pessoa cosmopolita, viajada que teve uma educação artística, formal ou informal moldada – mesmo quando não sabe – nos parâmetros de fruição artística do século passado, em grande parte na Einfühlung, o conceito teórico alemão do século XIX, baseado na empatia estética. Então o interlocutor diz que não se emocionou, às vezes porque não se identificou “com a temática ou com o universo do autor” ou, mais raramente, com o tipo de narrativa.

A teoria da empatia encontra uma metodologia consequente: uma obsessão pela interpretação. O fato é que a busca de empatia com o universo do autor e sobretudo a angústia da incompreensão deste universo, acarreta o “o que ele/ela quis dizer?” a necessidade de atribuir um sentido, de explicar a obra, tique muito bem observado por Sonntag. Leitores, espectadores, ouvintes, enfim, todos põem-se a querer entender o que o autor quis dizer, a querer captar “a mensagem” (argh!, valha-me Deus) para melhor usufruir do produto cultural. Aquela coisa de entrar na cabeça de Malkovich, lembra? Então a ausência do toque junta-se com o tique obsessivo que persegue uma mensagem. Bem, talvez por não ser dotada de muito grande sensibilidade, essa tal teoria do toque nunca me convenceu. Jamais me emocionei assim, de repente, com nenhum produto artístico inédito. “Me tocar de supetão” só com aqueles produtos mais rasos, quando estou com os nervos à flor da pele e choro com qualquer beijo de novela. Se não, a apreciação e a produção da qualidade, para mim, vêm de uma capacidade cognitiva trabalhada. O meu “toque” é fruto do conhecimento do objeto cultural, através da reflexão e estudo crítico, sejam eles obtidos formal ou informalmente, individual ou coletivamente, reforçados e desenvolvidos no ambiente de convívio. Que o digam os concursos de desafios de repentistas e cantadores.

Na recente premiação do Oscar, fiquei pensando pela enésima vez nesses eternos temas, dos toques e das mensagens. Lembrei-me de que Flávia Suassuna cita, vez por outra, um poema de Drummond, publicado no livro Claro Enigma, que finda com:

Aspiro antes à fiel indiferença

mas pausada bastante para sustentar a vida

e, na sua indiscriminação de crueldade e diamante, capaz de sugerir o fim sem a injustiça dos prêmios.

Posto que a premiação do Oscar se insere na lógica do grande público – ou seja o de tocar o máximo de pessoas e ser de intepretação evidente – não acho que os prêmios tenham sido injustos. Três filmes seguem particularmente tais critérios: Uma batalha após a outra, Hamnet e Valor Sentimental. Eles buscam a audiência máxima e são feitos deliberadamente para emocionar, o que, no entender de Milan Kundera, categorizaria exatamente o kitsch. Nos três, por linhas tortas, após mais ou menos choro e muita emoção, os maus são castigados e os bons recompensados, chegando-se a um final do filme que não deixa nenhuma dúvida na cabeça do espectador. Tudo é bem claro, explícito e justo.

O nojento personagem interpretado por Sean Penn, após as batalhas enfrentadas, volta à organização que o contratara e é punido, a sofredora mulher de Shakespeare, apazígua-se da perda do filho (dor inconsolável) “morfinada” pela peça que, com sofrimento e vida franciscana, o pai do falecido realiza em Londres. Já no filme Valor Sentimental, o pai presente como imagem, mas ausente como pai real (thanks ChatGPT!) ao final reconcilia-se com filhas e neto. Gostei de todos, mas acho que espicharam as batalhas e que, no caso do norueguês, incomodou-me a ambiguidade do narrador principal. Afinal quem que dá o fio condutor: a casa ou a filha atriz?

Enfim, destoando do mar de lágrimas e emoções incontroláveis, o elegante filme de Kléber Mendonça é elíptico, lacônico no evocar memórias violentas. Mas, apesar da narrativa muito clara, para meu espanto, deixou espectadores em dúvida sobre alguns fatos ocorridos. “A gente nem entende o que aconteceu com Wagner Moura” ouvi numa das inúmeras salas de espera da semana. Cochilou, véio? Falou com o namorido? Engasgou-se com a pipoca?

E nem entro no mérito da crítica dos invejosos do sucesso do Agente Secreto, sejam sudestinos ou não, celebrando a ausência do troféu. Só lamento a morte de Habermas, porque só ele, coitado, acreditava na Teoria da Ação Comunicativa e na possibilidade de um diálogo racional. Com invejosos e mesquinhos, todo diálogo é impossível.

Vae victis? Não se deixem abater!! Faço meu o recado de Tania Maria para Wagner Moura. E vamos ao próximo filme!!

Sonia Marques

Ela é arquiteta e urbanista pela UFPE e fez mestrado e doutorado em sociologia (UFPE; EHESS-Paris). Ensinou em diversas universidades brasileiras e gringas.  

Também escreve. Publicou os livros de poesia: Onde todo tempo é breve pela CEPE, em 2017; Transparesser, em coautoria com Juliana Alves, pela UFPB, em 2018; Fugas pela editora Trevo, 2020; Viagens pela editora Trevo, 2020; O mais curto corte, em 2025, pela https://oxalaeditora.com e o que acaba de sair do prelo: O círculo do Derby https://kotter.com.br/loja/literatura/o-circulo-do-derby/?srsltid=AfmBOoowvd8BVneLKuayThFY8ysONn8GnKVLOEnIqIR6bjld4MS7q16U

E eu nem citei os contos e outras coisas mais…

Nascida e criada entre o bairro das Graças e Olinda, Sonia Marques vive hoje entre Sète, no mediterrâneo francês e o buliçoso bairro da Boa Vista, no Recife. Mas deixou o coração, para sempre, numa ladeira de Olinda (segundo a própria).

Foto em destaque da atriz Tânia Maria: reprodução / PAPELPOP.

Foto de Sonia Marques: divulgação.

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Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

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