Na exposição do acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo deparei-me com duas estantes, dispostas em diagonal, com livros da coleção Basic Art, da editora alemã Taschen. Selo criado em 1980 por Benedikt Taschen, com distribuição de livros especializados em diversos campos das artes visuais ao redor do mundo.
Diante das estantes, o visitante se interroga: venda de livros entre Van Goghs, Botticellis, Renoirs, Cézannes, Goyas, Portinaris, Di Cavalcantis…? Nunca tinha visto nada igual em meio ao acervo do MASP, nem em outros museus que visitei na minha vida.
Retiro das prateleiras alguns exemplares, cujas capas estampam rostos de artistas mulheres. É quando percebo que suas páginas estão totalmente em branco. Do ponto de vista gráfico, as capas são literalmente idênticas às da Basic Art, muito conhecidas dos apreciadores da arte visual.
Na verdade, as estantes dispostas no meio do acervo do MASP com livros em branco tratava-se da instalação About: The Blank Pages (Sobre: As Páginas Brancas), das artistas plásticas dinamarquesa e sueca Ditte Ejlerskov e EvaMarie Lindahl, respectivamente.
Efêmera e temporária, essa obra de arte reivindica ampliar de maneira mais efetiva a participação das artistas visuais nas edições da Taschen. Assim informa a carta endereçada à editora alemã, Petra Lamers-Schütze, assinada pelas autoras da instalação. Vale a pena reproduzir o trecho inicial do documento, disponível aos visitantes em inglês e português:
“Em março de 2010, tivemos uma conversa por telefone sobre a seleção desigual feita pela Taschen para sua coleção Basic Art. Você perguntou se éramos capazes de mencionar artistas mulheres que achávamos que estivessem faltando. Mencionamos algumas que vocês não reconheceram como candidatas em potencial para a versão da história da arte estabelecida pela Taschen. Nós lhe entregamos aqui a compilação completa que fizemos das cerca de 100 artistas mulheres que estão faltando e que consideramos que se qualificam para a coleção Basic Art, junto com os 92 homens e 5 mulheres já publicados.”
A invisibilidade das mulheres nas publicações voltadas às artes plásticas é um fato concreto. Em geral, não nos damos conta dessa ausência, mas é percebida pelas artistas, mesmo em países considerados desenvolvidos, nos quais as conquistas sociais das mulheres já alcançaram índices diferenciados. A instalação Sobre: As Páginas Brancas no meio do MASP não nos deixa mentir.
Foi a primeira vez que me dei conta da exclusão das mulheres artistas no mercado editorial e, provavelmente, penso eu, no circuito comercial artístico, nas exposições em galerias e nos acervos de museus ao redor do mundo. De minha parte, nunca observei uma obra de arte (e foram tantas a essa altura da vida) procurando saber se foi realizada por homens ou por mulheres. Embora tivesse conhecimento de casos como o da escultora francesa Camille Claudel, magistralmente abordado no filme Camille Claudel (1988), dirigido por Bruno Nuytten, cuja arte foi ofuscada em vida pelo machismo do escultor Auguste Rodin, de quem foi assistente e com o qual manteve um relacionamento amoroso conturbado. Grande Camille, pequeno Rodin.
Ataques também sofreu a artista plástica brasileira Anita Malfatti quando realizou, em 1917, sua segunda exposição individual em São Paulo, recém-chegada de seus estudos nos Estados Unidos. O escritor Monteiro Lobato desancou a pintura de Malfatti no jornal O Estado de S. Paulo. Anita tinha apenas 28 anos. Dizem que ela nunca mais se recuperou desse soco no estômago. Grande Anita, pequeno Lobato.
São essas mesmas páginas brancas que nos atingiram em cheio com a exposição Elas Pintam o 7, na Galeria Janete Costa, no Recife, em 2024. Com curadoria da artista plástica Ana Veloso, 50 artistas visuais expuseram suas telas numa noite memorável da arte pernambucana, realizada por mulheres. Folhas em branco também foram percebidas pela professora e pesquisadora da UFPE, Madalena Zaccara, ao organizar, em 2017, o catálogo De Sinhá Prendada a Artista Visual: os caminhos da mulher artista em Pernambuco. Nessa publicação encontramos 87 trabalhos de artistas mulheres e sua trajetória na história da arte em Pernambuco.
Diante disso, fico a me perguntar se deveríamos primeiro saber do gênero, enquanto construção social e não apenas biológica, de quem realizou a obra de arte, ou decodificar o signo artístico independentemente de quem o produziu, pelo menos na primeira abordagem do objeto. Tendo a pensar que, em primeiro lugar, deveríamos decodificar os mistérios que o objeto artístico encerra, tal como se refere Jean-Paul Sartre à sétima arte — o cinema —, no sentido de que o produto artístico “se impõe ao sujeito como símbolo (aberto e não fechado)…”. Cabe ao espectador-observador a alegria, diz o escritor francês, de refletir sobre o símbolo. Portanto, “o quem”, penso eu, estaria por trás da obra de arte e não, necessariamente, na assinatura. Entretanto, quando refletimos sobre as condições concretas distintas entre homens e mulheres na formação-produção artística, no mercado da arte, na condição da mulher na sociedade patriarcal e na violência generalizada contra elas, a questão levantada vira-se pelo avesso.
Com essa questão em mente, entrei na Galeria Raiz – Coletivo de Arte, no bairro do Recife Antigo, para apreciar a exposição Basta de Violência Contra as Mulheres. Tomei como orientação da visita a primeira frase do texto de apresentação da mostra: “Não é apenas um título. É um limite. Ecoa nas ruas, nos corpos, nas estatísticas e, sobretudo, nas ausências.”
Dois gestos me chamaram a atenção na minha passagem pelo Basta de Violência Contra as Mulheres: o quadro O Peso do Silêncio, de Elielce Soares, e a participação de 14 homens ao lado de 17 mulheres com obras na exposição.

Foto: Angelo Brás Fernandes Callou.
Não há como passar incólume — mulheres e homens — diante de O Peso do Silêncio. Chama a atenção, inicialmente, o vestido branco e longo da mulher retratada de costas, quase em queda, num movimento de pinceladas que acompanha o fundo do quadro, em tons escuros. É como se tivéssemos congelado uma cena no ato fotográfico de um corpo em movimento. Só aos poucos percebemos os detalhes: os cabelos desgrenhados da mulher sem rosto e que o aparente decote em V do vestido é, na verdade, o vestido rasgado pelos indícios da violência sofrida. Só em seguida pude notar um homem forte, igualmente de costas, em tons mais escuros em relação à tela como um todo, com a mão direita cerrada com força. A perspectiva adotada propositalmente pela artista revela a desproporção do tamanho do homem em relação à mulher, demarcando a desigualdade de forças e, consequentemente, a covardia do mais forte. A violência na obra aparece enquanto signo indicial e sem rostos, portanto sem crime. É quando o peso do silêncio se instala.
A participação de artistas homens na exposição foi uma surpresa. Uma iniciativa louvável do Coletivo Raiz que me fez lembrar a filósofa Djamila Ribeiro em Lugar de Fala e em Pequeno Manual Antirracista, no sentido de que cabe também aos homens desconstruir privilégios e ajudar a combater o machismo e a violência contra as mulheres na sociedade. Mas o protagonismo é exclusivamente das mulheres.
Viva o Dia Internacional do Trabalho!
Expediente:
A exposição Basta de Violência Contra as Mulheres fica em cartaz até junho de 2026, de quarta a domingo, das 14h às 17h
Local: Galeria Raiz – Rua da Moeda, 71. Bairro do Recife, Recife.

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Foto do autor: divulgação.
Em destaque, foto do quadro de Diana Tenório, sem título, em acrilica sobre tela, 50cm x 60cm, 2026: Angelo Brás Fernandes Callou.


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