Glauber Rocha dizia que a função da arte é violentar. O sangramento é estético, interpelador e político.
Para o cineasta, a arte vai além de mero produto de consumo ou da simples contemplação daquilo que se oferece como “belo” — quase sempre embalado para um olhar viciado na estética burguesa e padronizada. Glauber rompe e peita esse padrão na sétima arte, o que se reflete em sua cinematografia, em particular em Terra em Transe (1967).
Entro na Pinacoteca de São Paulo e percorro as exposições em cartaz para, em seguida, como sempre faço, ir ao encontro das minhas obras preferidas do acervo permanente desta instituição voltada à preservação, ao estudo e à exposição de obras de arte, especialmente das artes visuais.
Num desses espaços me deparo com a concepção glauberiana de arte: Knockout, do camaronês Pascale Marthine Tayou. Sigo imediatamente em direção às obras. Nunca leio o texto dos curadores na entrada das exposições; deixo para o final da visita. Gosto de desenvolver minhas próprias percepções, treinadas pouco a pouco, sem formação específica, ao longo da vida, ao apreciar e me defrontar com o objeto artístico pela Oropa, França e Bahia — para usar a expressão do poeta pernambucano Ascenso Ferreira.
Na primeira sala em que entro estão dependurados em todas as paredes, do teto ao chão, pedaços quadrados de granito pintados de um só lado com cores diversas. O artista a chamou de Colorful Stones (2015-2026).
Aos poucos percebemos que, entre as pedras, há informações escritas a carvão sobre a quantidade de mortes em diferentes guerras ao redor do mundo. É como se aquelas pedras caíssem agora sobre nossas cabeças, nossos corpos, nossa sensibilidade. Somos violentados naquilo que há de mais humano em nós: a consciência da importância da vida diante de tantas mortes. É um chamamento do artista a uma reflexão política sobre o desvario humano nas guerras e conflitos armados, cujas vítimas são os povos e nações mais vulneráveis. A esta sala Pascale chamou Conferência de Avignon, hipotética assembleia de cadeiras vazias.
Leio nas paredes: anos 1970, Guerra Civil Angolana, 500.000 – 800.000 mortos; anos 1980, Conflito do Sri Lanka, 100.000 – 280.000 mortos; anos 2000, Guerra do Iraque, 250.000 – 500.000 mortos; 1970, Guerra Civil em Moçambique, 500.000 – 1.000.000 de mortos; 1945-1950, Guerra Civil Chinesa, 1.000.000 de mortos; 1950, Guerra da Indochina — França vs. Viet Minh —, 1.000.000 de mortos; 2023, Guerra Israel-Hamas, 40.000 – 100.000 mortos …

Saio nocauteado da sala e me lembro dos mais de 2.000.000 de mortos da pandemia-genocídio da Covid-19 no Brasil, segundo dados atualizados pela médica e pesquisadora Margareth Dalcolmo. Quem assistir ao documentário Anatomia do Caos (2026), de Dandara Ferreira, em cartaz, terá dimensão desse genocídio no Brasil.
Atraído por uma grande árvore de galhos secos e balões coloridos, entro em outra sala: Rio de Janeiro 1992 — alusão à Eco-92. São, ao todo, seis espaços da exposição destinados a abrigar conferências importantes sobre a paz e o meio ambiente, incluindo algumas que foram um verdadeiro engodo, como a Conferência de Berlim (1884-1885), que legitimou o imperialismo europeu na África.
Os balões coloridos de Plastic Tree (2014-2015) são sacos plásticos de lixo coloridos, preenchidos de ar, que nos mobilizam pela beleza plástica da instalação e, ao mesmo tempo, nos interpelam sobre o papel de cada um de nós na defesa e na proteção da natureza. Vem à mente, de maneira incômoda, o lixo deixado nas areias da praia de Boa Viagem, no Recife, no final de uma tarde de domingo.
Saio da exposição de Pascale Marthine Tayou menos alienado do que entrei e com a certeza de que Glauber Rocha deixou um legado incomensurável para a arte brasileira. Ainda escuto nos corredores artísticos de Pernambuco que só pode ser considerado artista — e, por conseguinte, sua arte como obra de arte — quem realizar ao menos uma exposição individual. Não é dessa violência que fala Glauber Rocha, e muito menos do Knockout de Pascale Marthine Tayou, sob curadoria de Jochen Volz e Ana Paula Lopes, na Pinacoteca de São Paulo.
Bairro de Campos Elísios, São Paulo, julho 2026.
Expediente
Exposição: Pascale Marthine Tayou: Knockout!
Curadores: Jochen Volz e Ana Paula Lopes.
Horário: quarta a segunda-feira, das 10h às 18h.
Às quintas-feiras, das 18h às 20h, e aos sábados, a entrada é gratuita para todos.
Endereço: Pinacoteca SP. Praça da Luz, 2, Bom Retiro. Metrô Luz. São Paulo (SP).

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Foto em destaque de Plastic Tree (2014-2015), na exposição Pascale Marthine Tayou: Knockout!: Angelo Brás Fernandes Callou
Foto de Colorful Stones: Angelo Brás Fernandes Callou
Foto do autor : autorretrato.


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