Ninguém começa a um namoro pensando que ele pode acabar um dia, isso é fato. Mas, é sempre bom guardar na cabeça essa possibilidade.
A cena é comum. Alguém começa a namorar com todas as fichas na esperança, ignorando sinais de alerta, diferenças gritantes ou até mesmo o simples fato de que relacionamentos podem acabar. Tempos depois, o fim chega — e a mesma pessoa reage com surpresa, amargura, paralisia. Como se o término fosse uma falha inaceitável do universo, e não um desfecho estatisticamente previsível de qualquer vínculo humano.
O que está por trás desse padrão? Seguem algumas hipóteses:
A ilusão do risco zero
Pelo que eu saiba, não existe fórmula mágica ou certificado de garantia que uma relação possa ser eterna. Qualquer relacionamento tem a duração necessária de acordo com a química, a disponibilidade e a maturidade entre as pessoas envolvidas.
Ninguém entra num relacionamento esperando que dê errado. Mas, a verdade inconveniente é esta: amar é correr um risco calculado — ou, muitas vezes, nem tão calculado assim.
Quando você for começar um novo relacionamento amoroso lembre-se de ser responsável por você, e que existe também uma responsabilidade compartilhada na relação, bem estilo meio a meio.
Como diria o compositor e cantor Cazuza em seus versos: “Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida…”, na canção “Todo amor que houver nessa vida”. Assim como você, a outra pessoa têm uma história, com suas marcas, seus acúmulos e experiências, e, juntos ou juntas, estão dispostos a começar algo novo.
O problema não é correr riscos. É agir como se eles não existissem. Muitas pessoas confundem entrega emocional com cegueira deliberada. Ao ignorar a possibilidade real de decepção, traição, desgaste ou simples incompatibilidade futura, elas apenas desabam. Quando o inevitável — uma crise, um término — bate à porta, a frustração vem em dobro. Porque não havia plano B emocional. Não havia um “e se der errado?” sequer cogitado.
A cultura do final feliz obrigatório
Infelizmente, ainda vivemos em narrativas que vendem o amor como destino, não como construção. Filmes, músicas, redes sociais — todos empurram a ideia de que um relacionamento bem-sucedido é aquele que dura para sempre. Seguindo essa lógica, qualquer fim é, por definição, um fracasso.
Essa mentalidade gera um efeito perverso: as pessoas não aprendem a terminar bem. Elas só sabem começar ou sofrer. A frustração pós-término não vem apenas da perda do outro, mas da sensação de que o próprio roteiro de vida foi violado.
Baixa tolerância à frustração: um sintoma moderno
A frustração é uma das emoções mais mal-educadas em nossa sociedade. Fomos acostumados a soluções rápidas, likes, delivery emocional. Um relacionamento, no entanto, exige o oposto: paciência, ambivalência, suporte ao incômodo, disponibilidade…
Quando a pessoa não desenvolveu essa musculatura emocional, qualquer desfecho fora do esperado vira catástrofe. É aí que surgem o stalking, a depressão prolongada, a incapacidade de seguir em frente ou a repetição do mesmo padrão com outro parceiro ou parceira, semanas depois.
Entrar num relacionamento de olhos abertos significa:
Saber que pode dar errado. Afinal, vocês estão se conhecendo.
Manter uma vida própria (amigos, hobbies, propósito) além do casal.
Ter clareza sobre seus limites e gatilhos emocionais.
Aceitar que a dor do fim, se vier, será administrável — não o fim do mundo.
Estar atento e atenta a comportamentos abusivos, mesmo que sejam sutis.
Sem isso, a pessoa terceiriza sua estabilidade emocional para o outro. E quando o outro sai, ela desaba.
Frustração não é fraqueza, é aviso
Sentir frustração ao fim de um relacionamento é normal. O que não é normal é não saber o que fazer com ela.
A diferença entre amadurecer ou repetir erros está justamente aí: na capacidade de transformar a frustração em aprendizado, não em vitimismo ou negação. Quem aprende a conviver com o risco — e com a possibilidade real da falha — entra nos relacionamentos com mais leveza, mais presença e, paradoxalmente, mais chance de dar certo.
Correr risco não é o problema. Apostar cegamente, sim. E, no amor como na vida, ninguém é obrigado a jogar sem rede de proteção.

Imagem em destaque: gerada por IA.
Foto de Ronaldo Patrício: divulgação.


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