Pois é, a Rua da Guia é do povo, como o céu é do avião, do condor, do bem-te-vi, do nem-te-vi, enfim, é de todxs juntxs e misturadxs.
Dito isso, anota:
nesta sexta-feira, 14 de agosto de 2026, das 14h às 18h, no Restaurante Nossa Senhora da Guia, a escritora-nômade-digital-pernambucana apresentará, em primeira mão, Um gole de leite Cambraia (julho de 2026, pela Filosofia Editora – R$45,00).
‘Nunca penso em despedidas, mas certifico-me que nossas expectativas sejam sempre sobre o próximo encontro, aqui, ali, ou, quem sabe, no destino que virá’, diz a recifense, nesta pausa de itinerâncias.
Até quando?, penso eu.

Prefácio
Entre leite, silêncio e travessia
Há livros que se deixam ler. Outros, mais raros, nos leem por dentro. Este é um desses casos. Não se trata apenas de literatura: trata-se de um organismo vivo, pulsante, que fermenta lembranças e cultiva silêncios. Um texto que não se contenta em contar uma história – ele a encarna. Leva o leitor pela mão, ou pelas canelas magras de Afonso, até o centro de um Brasil ainda emudecido, onde o leite derramado não é só alimento: é linguagem, é luto, é gesto de permanência.
Um gole de leite cambraia é a narrativa de uma fuga, mas também de uma origem. Um corpo magro, longo, atravessa geografias e tempos, tentando escapar da brutalidade do pai, da ausência da mãe, das marcas no dorso, do fado herdado. Clandestino de si mesmo, Afonso é um personagem que atravessa a linha da ficção para se tornar símbolo: de resistência, de reinvenção, de um país inteiro erguido sobre o não-dito. É a saga de quem precisa partir para não ser soterrado pela herança. E que, ao partir, funda um novo território de linguagem.
O texto que o leitor tem em mãos desafia classificações. Oscila com maestria entre a oralidade do sertão e a precisão de uma escrita elaborada. Mescla o lírico com o grotesco, o humor com a dor, o erotismo com a fome, o cotidiano com o mito. A vaca Cambraia, o lenço amarelo, o cajado entalhado, o pato debaixo do braço: cada imagem tem espessura simbólica. São elementos de uma mitologia doméstica, ancestral, que nos lembram que a memória se constrói com restos – de comida, de roupa, de afeto. Restos que viram relíquia.
Há um gesto de escavação aqui: escavação da terra, da origem, da língua. A escrita é feita com enxada e com bordado. Cada frase parece lavrada à unha, como quem trabalha o couro ou a madeira. E essa materialidade da linguagem é parte do encanto: o leitor sente o cheiro do farelo, o gosto do leite doce, a aspereza da cambraia. Há sangue nos dedos. Há verdade.
Mas não se trata de mera reconstituição do passado. O livro fala também de hoje – de nós. Fala das genealogias apagadas, dos sobrenomes truncados, dos afetos sonegados. Fala das mulheres que bordam em silêncio, dos homens que desaprendem a ternura, dos filhos que rumam sem mapa. E fala, sobretudo, da força da linguagem como instrumento de restauração. Narrar, aqui, não é lembrar: é existir. É reivindicar espaço.
Felipe Torres
Sobre Geórgia Alves
Jornalista a maior parte da vida: por 25 anos foi repórter e apresentadora de programas de rádio e TV.
Filhos crescidos, ela volta a estudar: conclui o mestrado em Teoria Literária pela Universidade Federal de Pernambuco e algumas pós-graduações em Linguagem Cinematográfica, Roteiro e Produção Fílmica pela Fundação Joaquim Nabuco.
A primeira dissertação na obra de Clarice Lispector foi durante a Especialização em Literatura Brasileira, quando ganhou prêmio com o ensaio Sobre o Amor em Clarice.
Tem 8 livros publicados: Reflexo dos Górgias, Filosofia da Sede, A caixa-preta, A qualquer hora da noite enquanto piso em Pedras Ternas, A cidade invisível, Um grito azul, Um gole de leite Cambraia e a Cidade invisível 2 (esse último, aguardando data de apresentação ao público).
Hoje, coleciona convites das editoras de língua portuguesa entre Angola, Brasil e Portugal.
Navega pelo audiovisual e aulas de arte e inglês.
Seus curta-metragens na Internet: O Triunfo, 2007,10 min. Grace, 3 min, 2009 e Apartamento (ainda restrito).
Canal no YouTube e Instagram: @georgia.alves1@gmail.com
O Restaurante Nossa Senhora da Guia, fica na Rua da Guia, 111, Bairro do Recife, Recife.
Foto de Geórgia Alves em destaque: divulgação.
Imagem da capa do livro: divulgação.


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