O conceito de mestiçagem cultural desenvolvido por Jesús Martín-Barbero, aliado aos estudos de Néstor García Canclini sobre as hibridações artísticas e socioculturais, desmontou a visão dualista desse campona América Latina. Ambos os autores fundamentaram os estudos culturais latino-americanos, cuja difusão ganhou força na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) nos anos 1990.
Enquanto Martín-Barbero superou a dicotomia entre uma cultura popular vista como “pura” e essencialista e uma cultura de massa de fluxo vertical e alienante, Canclini chamou a atenção para o apagamento das fronteiras contemporâneas entre o erudito (alta cultura), o popular (artesanato e folclore) e o massivo.
Esses conceitos teóricos saltaram das minhas estantes quando observei que o mundo das artes ainda insiste em criar hierarquias ultrapassadas, como separar a produção de um grafiteiro daquela de um artista de galeria. Em contrapartida, os Estudos Culturais mostram que a arte contemporânea se rejuvenesce por meio do uso, da apropriação, da imbricação e da negociação estética entre diversos produtos simbólicos. Um exemplo nítido dessa dinâmica foi a exposição João Câmara 80 Anos: Pinturas Digitais, realizada em 2024 no Museu do Estado de Pernambuco.
Nesta semana, porém, a mestiçagem me atingiu em cheio ao observar as imagens das telas que farão parte da exposição A Cor do Olhar em Pequenos Formatos, a ser inaugurada no dia 19 de agosto, na Livraria da Praça, no bairro de Casa Forte, no Recife (conforme expediente no final do texto).
Diante da ausência de uma curadoria tradicional, a exposição A Cor do Olhar em Pequenos Formatos reuniu telas em dimensões reduzidas — algumas medindo apenas 30 cm x 30 cm — que trazem uma diversidade de temas. Ao abdicar de orientar o percurso dos visitantes pelas paredes da Livraria da Praça, a mostra permite que os observadores façam seus próprios deslocamentos. Assim, cada percepção se fixa no olhar colorido do outro, refletido nas próprias obras. Nesse processo, o público não apenas contempla a arte, mas se mistura a ela, formando o que Michel Serres chamou de “o terceiro instruído”.
Aspecto nem sempre possível, pois o resultado de um quadro colorido exposto, não revela facilmente o enfrentamento do artista diante de uma tela branca a desejar mestiçar-se àqueles azuis de Picasso, àqueles vermelhos de Tereza Costa Rego, aos buquês de flores de Marc Chagall nas telas-sonho de personagens flutuantes ou aos fragmentos coloridos, igualmente flutuantes, de Esteban Vicente com suas pinceladas livres, tão difíceis de serem realizadas… ou a qualquer outra cor que o criador perceba e escolha pelo olhar da alteridade.
A Cor do Olhar em Pequenos Formatos segue a tendência contemporânea entre os artistas de expor quadros de dimensões reduzidas. Para além da redução dos preços — o que permite aos apreciadores adquirirem um objeto de desejo —, esse formato possibilita colecionar pequenas obras em uma única parede colorida. Isso resulta, arrisco dizer, em uma mestiçagem estética muito particular. Aliás, o jornalista, escritor, colunista social e colecionador de arte José de Souza Alencar (o Alex) foi um grande incentivador para que os pintores pernambucanos adotassem essas proporções, conforme me informa sua amiga, a artista plástica Jéssica Martins. Alex reuniu uma coleção inestimável dessas obras em sua residência na Rua Dom Bosco, no Recife.
São 36 telas produzidas por seis pintoras e pintores pernambucanos que compõem a mostra. Jéssica Martins, artista plástica consagrada pelo seu trabalho desenvolvido há mais de quarenta anos, expõe junto aos seus convidados: Adriana Alliz, Vânia Notaro, Maria Tereza, Maurício Figueirôa e eu. Todos frequentaram as oficinas de Jéssica Martins em pintura criativa (a óleo e acrílica, com pincel e espátula), desenho e composição, realizadas no Museu do Estado de Pernambuco.
A parede colorida da Livraria da Praça espera por aqueles que não temem o contato com o outro. Afinal, a verdadeira obra de arte só se completa na mestiçagem do nosso olhar.
Praia de Boa Viagem, Recife, agosto de 2026.

Adriana Alliz pinta a natureza e paisagens bucólicas, marcando suas obras em tela, porcelana e, principalmente, madeira de demolição. Ao trabalhar com janelas, portas e móveis, a artista ressignifica e dá nova vida a essas peças.

Angelo Brás Callou, cuja trajetória inclui a docência universitária na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), expõe pinturas em acrílica sobre tela e participa como convidado estreante da exposição.

A artista plástica recifense Jéssica Martins possui formação diversa em artes, expressando sua obra em pinturas, esculturas e desenhos. Suas criações já foram expostas em Pernambuco, Paris e Berlim, e hoje ela também leciona no Museu do Estado de Pernambuco.

Maurício Figueirôa é um artista versátil que transita entre desenhos a carvão em suportes diversos, pintura em tela e espatulados acrílicos, em constante aprimoramento de suas técnicas.

Dedicada à pintura em tela e porcelana, a artista Maria Tereza já realizou diversas exposições no Recife.

Vânia Notaro trocou a engenharia civil pelas artes visuais e destaca-se pelo domínio de luz e sombra. A pintora pernambucana retrata memórias do Agreste e já expôs suas telas em Nova York.
Expediente:
A Cor do Olhar em Pequenos Formatos
Abertura: 19 de agosto de 2026
Hora: 18h
Local: Livraria da Praça – Praça de Casa Forte, 454, Bairro de Casa Forte, Recife.

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Todas as imagens: divulgação.


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