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Você já parou para pensar que todos nós carregamos uma pequena ‘marca’ desde o início da vida? 

Quando nascemos, somos completamente dependentes de alguém para nos alimentar, nos aquecer e nos acalmar. Nesse começo, não temos controle sobre nada. Precisamos do outro para sobreviver e isso nos deixa com uma sensação profunda de que algo sempre falta, de que nunca somos totalmente completos sozinhos. Essa falta é a semente da nossa estrutura psíquica. Ela é a nossa ferida original.

Do ponto de vista psicanalítico, é correto afirmar que carregamos uma ferida narcísica primária. Ela nasce do que Freud chamou de desamparo fundamental (Hilflosigkeit).

Para Donald Winnicott, essa ferida ocorre quando houve uma falha ambiental precoce, um momento em que o cuidado falhou e o bebê se viu diante de uma angústia insuportável. A partir daí, construímos “falsos selfs” (máscaras) para tentar controlar o ambiente e evitar que essa dor se repita.

Quando adultos, entramos em relações que, de alguma forma, encenam esse drama antigo, na esperança inconsciente de, desta vez, “consertar” a história e obter o amor que nos faltou.

Quando somos ignorados por alguém que gostamos, ou quando um relacionamento termina, aquela velha sensação de desamparo volta com tudo. E o mais curioso é que a nossa mente não separa bem o passado do presente.

A dor de agora não é apenas a dor de um fora ou de um silêncio; ela ‘liga’ diretamente na dor de quando éramos crianças e precisávamos desesperadamente do olhar do outro para existir. Por isso, a reação parece tão intensa e desproporcional – porque, na verdade, estamos revivendo um fantasma antigo.

Regressão ao ponto de dor: o cérebro emocional (especialmente o sistema límbico) não distingue perfeitamente o tempo cronológico. A dor do presente ressoa na mesma frequência da dor do passado. Você não está apenas sentindo a frustração do agora; você pode vivenciar a sensação de desamparo da infância. É como se fosse um curto-circuito entre o presente e o passado.

Mas aqui vem o alívio: a Psicanálise não diz que estamos condenados a repetir esse ciclo para sempre. Ela diz que essa é a nossa reação automática, quase um reflexo. O verdadeiro trabalho do autoconhecimento é justamente criar uma pausa entre o que acontece com a gente e a nossa reação.

Caso você esteja vivenciando um momento parecido como este, estou aqui para lhe apoiar. Durante o seu processo de análise, você vai aprender a sentir a dor do agora e, em vez de se afogar nela. Reconhecer que dói, sim, mas essa sensação de desmoronamento pode lhe lembrar de algo muito mais velho. Contudo, você não é mais aquela criança indefesa. Hoje, sendo uma pessoa adulta, pode suportar isso, parar e escolher como responder.

Sim, todos temos essa ferida e ela será cutucada em relacionamentos difíceis. Mas, o grande presente da vida é perceber esse movimento e, aos poucos, não confundir mais a rejeição de hoje com as marcas do ontem.

O autor é psicanalista, com mestrado em Psicanálise, tarólogo e terapeuta.

Imagem em destaque: gerada por IA.

Foto de Ronaldo Patrício: divulgação.

Ronaldo SilvaAuthor posts

Ronaldo Silva

Psicanalista, tarólogo e terapeuta energético. É graduado em Jornalismo e Relações Públicas pela UNICAP.

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