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Reconhecido pela crítica e pelo público, Sismógrafo, livro de estreia do escritor mineiro Leonardo Piana, foi lançado em 2022, recebeu o prêmio Cidade de Belo Horizonte e foi finalista em três outros prêmios — Jabuti, São Paulo de Literatura e Mix Literário. No entanto, com uma tiragem pequena, a obra logo se esgotou, mas a Autêntica Contemporânea acaba de lançar esta segunda edição.

Com uma linguagem repleta de mistérios e lacunas, a trama conta a história de amor entre dois adolescentes, Eduardo e Tomás, ambientada na pequena cidade mineira de Andradas, em meados da década de 1990. Sempre na primeira pessoa, o autor incita o leitor a descobrir o que se passou na vida daquele jovem que se apaixonou pelo amigo de escola e anos depois volta para a cidade para tentar reconstruir seus laços afetivos.

Nascido em Andradas/MG em 1992, Leonardo Piana Jordão Ribeiro é formado em Comunicações pela USP (Universidade de São Paulo); hoje mora em sua cidade natal e é servidor público. Poeta e romancista, Leonardo em 2025 lançou duas obras, ambas premiadas: o romance Tarde no planeta (Prêmio Cidade de Belo Horizonte) e o livro de poemas Escalar cansa, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, categoria poesia. Sismógrafo, sua obra de estreia, também foi premiada com o Cidade de Belo Horizonte, além de ter sido finalista nos prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e Mix Literário e seus direitos foram vendidos para adaptação cinematográfica.

A definição literal de sismógrafo — instrumento que mede a intensidade das oscilações produzidas pelos tremores de terra — é utilizada pelo autor no título de seu livro como uma metáfora. Sismógrafo, para Piana, mede cataclismos íntimos do personagem. Logo nas primeiras páginas o leitor fica diante de um jovem que recolhe fotos de sua adolescência e se despede do apartamento em São Paulo para voltar à sua cidade natal. É para lá, em Andradas, que Eduardo volta na tentativa de contar a sua história — de amor e de dor —, e de recontar para si mesmo o que viveu em meados dos anos 1990 ao lado de Tomás e de sua fiel escudeira, Clara.

Constituído de um pequeno prólogo e de três partes, cada uma delas com capítulos curtos, o livro é narrado sempre na primeira pessoa. A trama é um verdadeiro labirinto, com idas e vindas no tempo, o que obriga o leitor a ir montando o quebra cabeça sobre o destino de Eduardo. E nesta construção, o leitor também precisa ficar atento, pois nada é dito de forma direta: na maioria das vezes tudo se passa no mundo interior do personagem, tanto do jovem Edu, como na criança que ele foi. O jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto define com precisão a obra:

“A história de um amor cujo desenlace obscuro fica impresso na película fotográfica da memória não apenas do narrador, mas também do leitor, como uma ausência que põe a narrativa em marcha ao ritmo de um road movie afetivo, um vazio que anima esse enredo de retorno às origens de traumas e desejos.”

Uma característica da narrativa de Piana é a construção de diálogos de forma não convencional:

A mãe parece surpresa ao me ver chegar, está tudo bem, filhote? Está, só quis trazer alguma coisa pra você comer. Imagina, ela diz, como quem realmente não imaginasse, você é o melhor filho do mundo. E eu repito imaginana tentativa de inverter o pouco que seja da relação restante entre nós dois.”

O amor entre Eduardo e Tomás é construído de maneira natural, por mais que a trama se passe numa cidadezinha do interior do país, nos anos 1990. A primeira relação sexual deles é descrita poeticamente:

A mão feito uma correnteza contra meu rosto quando o braço foi enlaçado ao meu peito, a dureza dele contra minhas costas era um oceano inteiro como eu nunca tinha visto, que eu nunca tinha sentido sobre mim, violento e sem jeito, era à dor de um oceano interminável a que eu cedia, à saliva, sem ar, era eu que em silêncio me afogava, entregue ao mar, era eu quem não sabia nadar.”

Entretanto, o personagem também relembra cenas de preconceito, homofobia e bullying, que o marcaram profundamente No desfecho do livro, ao deixar Andradas, Eduardo vê um menino muito jovem que também sofre agressões de outros garotos. Ele tenta ajudá-lo, mas como uma forma de reparação, promete:

Quero poder dizer algo a ele, quero um dia poder escrever algo para todos esses meninos sobre estar aqui, registrar a imagem imperfeita disto, eles saberão: eu também sinto.”

Ficha técnica:

Título: Sismógrafo

Autor: Leonardo Piana

Editora: Autêntica Contemporânea, 224 pgs

Preço: R$64,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Leonardo Piana: divulgação.

Imagem da capa: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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