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Considerada uma das mais relevantes escritoras da literatura brasileira contemporânea, a mineira Carla Madeira lançou em agosto último, pela editora Record, seu quarto romance, Quando.

Com uma construção narrativa ousada, a escritora prende a atenção do leitor do início ao fim, ao narrar a saga de Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, que, após um acontecimento trágico, denuncia o filho para a polícia. Este fato provoca um rompimento profundo na família, principalmente entre mãe e filho, que só irão se reencontrar vinte anos depois da tragédia.

O grande trunfo da obra é que, mesmo sabendo que algo grave foi cometido por Tito, o leitor é conduzido pela autora, que dá indícios do fato durante a narrativa, e só depois de 200 páginas tudo é revelado. A escolha do título do livro é crucial para o enredo: Quando e como tudo ocorreu? Quando será revelada a tragédia? Haverá uma reconciliação familiar? Quando? O perdão virá? Quando?

Nascida em 1964, em Belo Horizonte/MG, Carla Madeira é formada em jornalismo e publicidade pela UFMG, onde também lecionou, e durante anos atuou em comunicação como sócia da agência Lápis Raro. Com pleno domínio na criação de histórias, Carla estreou na literatura com Tudo é rio/2014, que se tornou um sucesso estrondoso. Lançou quatro anos depois A natureza da mordida e em 2021 publicou Véspera. Sua obra é marcada por um estilo próprio, com uma linguagem requintada, voltada à investigação da alma humana e com personagens profundos. Quando, portanto, é seu quarto romance.

A obra de 280 páginas é constituída de 23 capítulos, cada um deles com títulos diferentes e diversas partes. O primeiro capítulo é denominado Engrama e a autora explica: traço permanente deixado no tecido nervoso por um estímulo marcante. Diz respeito não apenas a um acontecimento memorável, mas a uma experiência capaz de alterar para sempre a matéria sentiente.
O termo serve como título para outros capítulos e é empregado de maneira precisa: experiências narradas alteram profundamente os sentimentos dos personagens.

A trama se passa na capital mineira entre 1986 e 2006. Entretanto a narrativa não é construída de forma cronológica, há idas e vindas no tempo e o leitor é obrigado a unir os pontos. Além desta descontinuidade, outra característica que a escritora utiliza nesta obra é a criação de uma linguagem polifônica: a voz do narrador é mesclada às vozes de outros personagens, sem que uma predomine sobre as outras (os pensamentos dos personagens se misturam com o do narrador).

“A coisa se complicou mesmo quando ele perdeu o emprego e amargou um sentimento de injustiça, passou a ficar em casa à toa, foi aí que Viridiana viu crescer nela uma irritação silenciosa, Afonso começou a me ocupar de propósito, não por necessidade…, pobre Afonso.”

“Não me deixava trabalhar sossegada e tudo de bom que acontecia a Viridiana parecia ter a intenção de humilhá-lo, E eu? hein, Viridiana? E eu? O que você pretende com isso? perguntava-se Afonso, crucificado com as horas boas que sua mulher era capaz de viver sem ele.”

Além da polifonia, os diálogos aparecem de maneira não convencional, sem os tradicionais travessões que indicam o início de cada fala, além de não haver separação entre narrador e personagens:

“Pai,
disse Valquíria, a voz firme e clara interrompendo a conversa e chamando todos os olhares para si, Ele já falou que vai tirar o carro, pai, Não se meta, Valquíria, Vamos pra casa, pai, Cala a boca, Valquíria. Ah, meu Deus, meu coração estremece só de pensar nessa cena… essa menina… que coragem a dela… e o rosto de Viridiana arde com essa lembrança.
”

Já enredado na trama, o leitor, porém, desconhece o mote central da narrativa, o que fez com que a mãe denunciasse o filho à polícia. Durante o desenrolar dos fatos, a autora, com maestria, dá alguns indícios — Eu ouvi o que Tito disse. Claro que tem uma relação entre o que Tito disse naquele dia e o que ele fez depois. No entanto, o verdadeiro mistério é revelado após mais de 200 páginas.

Se a escritora cria suspense, não será aqui que haverá spoiler. Mais do que tratar de temas delicados e polêmicos como maternidade, culpa, violência, relação entre irmãos e homofobia, Carla Madeira ressalta a importância do afeto, do perdão e do amor nas relações humanas, principalmente entre os mais íntimos, para que os traumas sejam superados. Isto fica evidente na cena poética do encontro entre Valquíria e Maria:

“Serão levadas e reviradas, às vezes com delicadeza, às vezes com gula, os corpos palmilhados e em arrepios deslizarão lisos um no outro e, dissolvidos na umidade morna e doce das salivas, conhecerão a aguda agonia do insaciável.”

 E o reencontro após 20 anos entre mãe e filho é descrito de forma pungente, avassaladora:

“Viridiana não o reconheceria se cruzasse com ele na rua. A imagem que tem no coração coincide com o que vê, é ele”.

“Viridiana observa a mão de Tito dentro das suas com devoção, como se todo esse tempo esperasse por aquela pele, aquela carne, aquele pedaço essencial de si mesma.”

“Viridiana fecha os olhos e se entrega à sensação do amor que volta.”

Já no desfecho da obra, a autora realça a difícil relação entre Valquíria e Tito e, revivendo dores, ambos vislumbram o perdão:

“Na sala agora estão Tito, Valquíria e o tempo que os separou. Tito tem os olhos molhados e Valquíria percebe. Os dois vão até a cozinha. Fique à vontade… não pretendo cozinhar para um cozinheiro, diz Valquíria sendo Valquíria. Estão formais um com o outro como se tivessem acabado de se conhecer.”

E neste clima de encantamento, o leitor ainda é surpreendido com a autora abrindo seu coração para a personagem central da obra, numa confissão comovente: “E é tão esplêndido, querida Viridiana, como as coisas insuperáveis lhe parecem menos insuportáveis neste instante em que você vive a pausa de mil compassos.”

Ficha técnica:

Título: Quando

Autor: Carla Madeira

Editora: Record, 224 pgs

Preço : R$64,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Carla Madeira: Marcia Charnizon.

Imagem da capa: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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