Sou estudante universitário de Ciências Agrárias nos anos 1970, e tinha uma professora que dizia que a Ecologia era ensinada na universidade por meio do livro Fundamentos de Ecologia, de Eugene Odum. No entanto, pontuava, “esqueciam” de propor a leitura do último capítulo dessa obra clássica: Por uma Ecologia Humana Aplicada.

Foram várias gerações de universitários, imagino eu, que estudaram o meio ambiente de maneira tão fragmentada e aprofundada que se afastaram da percepção da relação homem-natureza. Em última instância, da ecologia humana.

Odum defende que os seres humanos são componentes dos ecossistemas, ou seja, as interações das comunidades humanas afetam e são afetadas pela dinâmica ecológica mais ampla. A palavra de ordem de Odum, por assim dizer, é que a abordagem holística da natureza possibilita, em última instância, solucionar problemas ambientais de maneira mais eficaz. O contrário disso mascara a percepção de outros fatores ambientais implicados. Embora a obra tenha sido publicada em 1953, a julgar pelas articulações internacionais contemporâneas sobre as mudanças climáticas no planeta, Odum parece estar ainda bastante atual. A arte confirma isso.

A 36ª Bienal de Arte de São Paulo, em cartaz, por exemplo, amplia e realça, pela produção artística, a importância das culturas ancestrais, suas diferenças e complementaridades, no meio ambiente atual, como apresentado neste blog em A agroecologia está aqui: 36ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Agora, é o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) que aborda a questão ambiental, numa pegada da ecologia humana, de maneira delicada e contundente, que só a arte, com seu espelho cristalino, é capaz de refletir nossas deformidades, mas sem perder a ternura, jamais.

Desço ao subsolo do MASP e vivencio meu primeiro encontro com as obras de Frans Krajcberg (1921-2017), na exposição Frans Krajcberg: reencontrar a árvore. Jamais ouvira falar do artista, apesar do seu pioneirismo na integração entre arte e meio ambiente. Sinto-me afortunado ao descobrir meus limites de conhecimento e não me culpabilizo por isso, porque sinto a vida pulsar de curiosidade nesses estados de não saber.

As esculturas de Krajcberg — ponto alto da exposição — são produzidas a partir de troncos e de toda sorte de vestígios de árvores e palmeiras tombadas ou calcinadas pela própria natureza e/ou em decorrência da ação humana, pois, como nos ensina Odum, tudo está inter-relacionado no meio ambiente. A maioria das obras, muitas delas de grandes dimensões, reflete as preocupações do artista em articular sua arte escultórica com a militância política em defesa da natureza.

A Flor de Mangue (1970), escultura de Frans Krajcberg, feita de madeira residual de árvores de mangue. Tem aproximadamente 5 metros de altura. Foto: divulgação.

O que mais me impressionou na exposição do polonês-brasileiro-baiano é que as esculturas apresentadas nos levam a perceber a grandiosidade da natureza e sua importância em nossas vidas, pela eloquência estética de sua obra. 

A matéria-prima das esculturas vem das árvores, sabemos disso, mas são seus vestígios que compõem as esculturas. Krajcberg agrega diferentes pedaços de árvores, de diferentes biomas, revelando nervuras e formas distintas, do que fora, um dia, uma árvore viva, agora transformada em árvores-arte.

É como se as árvores tivessem há muito desaparecido do nosso campo de visão cotidiano, o que em boa medida é verdadeiro, e só agora, na ausência de sua beleza ou pela sua beleza agora acionada na memória, no rarefeito oxigênio em que vivemos, conseguíssemos dar a dimensão exata da nossa condição precária no planeta. Ao mesmo tempo, nos interpela com o belo escultural, o que podemos fazer para salvar e preservar a natureza, enquanto ainda há tempo. Não por acaso, a exposição visa reencontrar a árvore como base de seu trabalho artístico, abrangendo cinco décadas de sua produção.

Escultura de Frans Krajcberg, sem título. Caules de palmeiras calcinados da região de Juruena, Mato Grosso, e pigmentos naturais, década de 1980. (Foto: Callou, 2025).

Foi ali, admirando as árvores-arte de Krajcberg, no subsolo do MASP, que acionei na memória não apenas os ensinamentos de ecologia humana de Odum, mas também, com certo incômodo, a derrubada de um jambeiro na UFRPE — inofensivo e belo —, por um inescrupuloso diretor de departamento. O argumento foi o de que a árvore “sujava” os carros no período da floração. Sinto falta, até hoje, desse ser vivo, como uma espécie de poesia em mim.

A partir daí, é de se imaginar o que deve acontecer nas subjetividades indígenas e dos povos do mar, por exemplo, quando se destroem florestas, aterram-se mangues e se poluem as águas em áreas de atividade pesqueira. Félix Guattari, em As Três Ecologias (1989), já chamava a atenção para essa outra dimensão, digamos, da ecologia humana — ouso dizer — ao considerar o impacto da degradação ambiental na subjetividade dos indivíduos.

Se “temos a arte para não morrer da verdade”, como dizem os bordões das redes sociais sobre Nietzsche, Frans Krajcberg é um bálsamo em meio à devastação da natureza.

Bairro de Campos Elíseos, São Paulo, outubro de 2025. 

Expediente:

Frans Krajcberg: reencontrar a árvore

Curadoria: Adriano Pedrosa e Laura Cosendey.

16.5 — 19.10.2025

2° subsolo, Edifício Lina Bo Bardi

MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP.

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque de escultura de Frans Krajcberg, sem título, em madeira policromada: Angelo Brás Fernandes Callou.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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