Como havia prometido, o premiado escritor baiano Itamar Vieira Junior finaliza a trilogia da terra com o emocionante romance Coração sem medo, lançado no final de 2025 pela editora Todavia.

Depois de Salvar o fogo e Torto arado, traduzido para mais de 30 idiomas e com mais de um milhão de cópias vendidas, este novo romance ambientado em Salvador/BA nos dias atuais retrata o drama de Rita Preta, uma mãe de três filhos adolescentes que vê seu mundo se transfigurar com o desaparecimento de Cid, o primogênito. Na busca para descobrir pistas sobre o sumiço do rapaz, Rita, “por um lado, tenta se manter íntegra no presente, mas por outro lado procura a chave para um recomeço”, como indicam os editores na orelha do livro, por intermédio da reconstituição da própria história de vida.

Nascido em Salvador em 1979, Itamar Rangel Vieira Junior na adolescência morou em Pernambuco e Maranhão, mas fez toda a carreira acadêmica em Geografia na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Vencedor de prêmios literários no Brasil e no exterior, como Jabuti, LeYa, Oceanos e Montluc, Itamar foi o único brasileiro a chegar à final do International Booker Prize. Além de romancista (Torto arado/2019 e Salvar o fogo/2023), é autor de contos, alguns deles reunidos em Doramar ou a Odisseia/2021.

Em 336 páginas, o romance Coração sem medo é dividido em cinco capítulos — CorrentezaCarmelitaTerra-sudárioMazé e Os cadernos de Cainho — em que o autor narra em terceira pessoa a saga de Rita Preta. Já nas primeiras linhas o leitor é tragado ao enredo e ao drama daquela mulher que trabalha como caixa de um supermercado em Salvador; num dia de tempestade, ela, ao esperar seu ônibus, lembra-se do ocorrido na infância, na fazenda quando morava com a avó Carmelita e os irmãos gêmeos. Os três brincando no rio são surpreendidos pela correnteza, que leva seus irmãos. Com uma sutileza narrativa, o autor transporta o leitor para a infância da personagem e, com a mesma fluidez e poesia, volta ao presente: “Seus olhos vagam em direção à água que continua a correr para desembocar num bueiro. O fluxo se torna então o rio da infância; um véu claro banhado que atravessava o céu de um dia nublado.”

O cotidiano de Rita e os três filhos (Cid, Cainho e Juca), que vivem numa favela na capital baiana, é  transformado de maneira brutal com o sumiço do primogênito. Em desespero, Rita passa a procurar o rapaz por todos os lugares, vai atrás de toda e qualquer pista para desvendar o mistério. De hospitais, necrotérios a locais afastados na periferia em que há indícios de “desova” de corpos. Com tudo isto, ela chama a atenção da imprensa e, o que é pior, a milícia, os poderosos da favela e a própria polícia desejam calá-la. Aquela mãe desesperada recebe ajuda de entidades e ONGs, que a aconselham deixar a cidade.

É neste momento que o autor lança mão de um recurso criativo: imersa em suas memórias, Rita busca refúgio no passado. Vai visitar a fazenda onde morou com a avó e buscar suas origens com o intuito de se fortalecer e descobrir um rumo novo para a vida. Assim o leitor, ao lado de Rita Preta, revisita os personagens que viviam em Água Negra, palco do romance Torto arado, e reconstitui a árvore genealógica dela.

Rita Preta caminha…. Seus pés eram os pés de sua mãe, Mazé, de sua avó Carmelita, de sua bisavó, a velha Donana. Eram os pés das mulheres e dos homens sem nome que antecederam sua existência. Seus pés eram primordiais e com eles se moveu, se perdeu e se encontrou, e reencontrou os caminhos por onde andou e por onde ainda precisaria caminhar.”

Revoltada com tudo e com todos — Quem clama é a mãe. Quem ruge é a fera. —, Rita só se acalma em seus sonhos, quando reencontra o filho amado. A desilusão aumenta ao acordar e dar de cara com a realidade!
Em entrevista para divulgar o lançamento do livro, o autor fala sobre seus livros ao canal do You Tube da Livraria Leitura:

“As três histórias da trilogia da terra, embora se passem em tempos próximos ao que vivemos, são histórias que trazem a origem do colonialismo, responsável pela escravidão que moldou nossa sociedade, seja pela exploração do trabalho, seja pela própria escravidão que ainda permanece entre nós. Os três romances têm personagens que são pessoas de classes desfavorecidas. São estas pessoas que constroem este país. Meus personagens celebram estes anônimos da história”, atesta Itamar Vieira Junior.

Na mesma entrevista, ele afirma que a história de Rita Preta é a história de muitas mães brasileiras. “É a história de uma jornada muito dura, mas também de grande esperança, porque tenta imaginar porque estamos aqui, o que carregamos dos que vieram antes e para onde iremos com tudo isto que trouxemos até aqui”, filosofa o escritor baiano.

Já estourei o limite desta resenha, graças ao meu encantamento com a obra. No entanto quero salientar o ideário de Carlos Luís (sempre Cainho para Rita), alter ego do autor: “As histórias me interessam. Como não há maneira de conhecer muitas delas, as de nossos avós ou as dos que ficaram pelo caminho, imaginar e escrever é um jeito de conhecê-las também. Pelo menos vivem na minha imaginação. Diminui a saudade.

O desfecho do livro é surpreendente e, acima de tudo, de muita emoção. Nas últimas linhas, Rita Preta, diante do oceano, arremata:

Viver pode ser maravilhoso.”

Ficha técnica:

Título: Coração sem medo

Autor: Itamar Vieira Junior

Editora: Todavia, 336 pgs

Preço: R$89,90

O autor da resenha

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Itamar Vieira Junior: divulgação.

Imagem da capa do livro: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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