Vencedor do Prêmio Jabuti/2021 com o romance O avesso da pele, o escritor carioca Jeferson Tenório, que construiu sua carreira no Rio Grande do Sul, está de volta. Lançado pela Companhia das Letras, o livro De onde eles vêm relata a saga de Joaquim — um jovem negro retinto, órfão, desempregado e que cuida da avó doente —, que nunca deixou de amar os livros e entra para a universidade pelo sistema de cotas. No entanto, sua luta contra a discriminação continua:
“Entrei pelo sistema de contas raciais na universidade com vinte e quatro anos e tudo o que posso dizer é que quase fui vencido pela burocracia.
…Na sala que ficava a comissão que analisava os candidatos cotistas, eram três professores brancos. Entreguei o formulário, não me fizeram nenhuma pergunta. Minha cor retinta não deixava dúvidas de que eu era um inquestionável e exemplar espécime de rapaz negro.”
Doutor em Teoria Literária pela PUC-RS, Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro, construiu sua carreira no Rio Grande do Sul e hoje vive entre São Paulo e Porto Alegre. Depois de vencer vários concursos literários, estreou na literatura com O beijo na parede/2013, eleito livro do ano pela Associação Gaúcha de Escritores. É autor ainda de Estela sem Deus/2018 e do premiado O avesso da pele que, mesmo aclamado pela crítica e púbico, passou por episódios de censura. Porém, o romance já vendeu mais de 200 mil cópias e foi editado em diversos países, como Portugal, Itália, Inglaterra, França, China Estados Unidos e México.
Retomando a temática de denúncia contra o racismo e a exclusão, Tenório em De onde eles vêm retrata o início do sistema de cotas raciais nas universidades brasileiras por meio da história de Joaquim, que entra para o curso de Letras, numa faculdade gaúcha no início dos anos 2000. Com 208 páginas, a obra é dividida em quatro capítulos: Levantando cavalos, De onde eles vêm, que dá nome ao livro, Sinnerman e A vida é boa.
Sempre na primeira pessoa — a voz dos outros personagens aparece destacada, em itálico —, a trama traz um retrato fiel e muito realista da dura e hostil realidade daquele jovem, que perdera a mãe, estava desempregado e dividia os cuidados da avó com sua tia Julieta e o amigo Lauro. O escritor moçambicano Mia Couto, na contracapa do livro, é taxativo ao explicar a condição dos personagens de Tenório:
“Numa prosa enxuta e despojada, o autor entrecruza vidas de gente marcada pela pobreza, pelo preconceito e pela exclusão. Seus personagens são tão reais que parecem escapar de todo exercício ficcional. Mas é exatamente essa a arte invulgar do autor: nas frestas do muro ele encontra o fulgor de uma luz. É nessa fugaz e improvável revelação que estas pessoas tão cotidianas descobrem a resposta à pergunta do título deste livro”, afirma Mia Couto.
Um destes personagens realistas e que chama a atenção do público é Lauro: dois anos mais novo que Joaquim, ele também é cotista (estuda direito) e numa confissão ao amigo fala de sua homossexualidade e de suas dificuldades:
“E, mesmo quando saímos do armário, a gente ainda precisa sair da cama. Tem que sair do quarto. Tem que sair de casa. Tem que ir para rua. Tem que entrar na casa dos pais, dos amigos, tem que entrar na empresa onde trabalha. Você lembra do dia em que contei para minha mãe que eu era gay, e ela se jogou no chão… e dizia que preferia ter um filho morto a ter um filho viado? Minha mãe disse que não ia mais pagar minha faculdade, porque tinha vergonha de mim.”
Além da dificuldade financeira (sem emprego, Joaquim vive com o que sobra da aposentadoria da avó), o personagem vive em crise amorosa. Depois de terminar com Jéssica, sua primeira namorada, também cotista, ele se envolve com Elisa, uma garota branca e que frequenta locais bem distantes da realidade de Joaquim. Mesmo vivendo forte atração, eles sempre discutem por ciúme e invariavelmente pelo abismo social entre eles, até o dia em que, após uma briga, Elisa diz para ele nunca mais aparecer na frente dela.
Por ironia, o último capítulo, A vida é boa, mostra o personagem numa situação lastimável. Com a morte da avó, ele passa a beber em demasia e a frequentar puteiros; consegue se empregar numa empresa de telemarketing, que fez com que trancasse a matrícula da faculdade.
“Tinha a impressão de estar regredindo… Um dia cheguei bêbado ao Angela’s (o puteiro), os seguranças me levaram para fora, inventei de ser valente e levei uma cabeçada de um e um chute de outro. Desisti de ir para casa, estava cansado de vagar sem rumo. Pensei como era fácil passar para uma situação de rua. Pela primeira vez senti raiva da literatura e dos livros.”
Fio de esperança
Mesmo estando inserido numa realidade tão hostil, Joaquim — será o alter ego do autor? — vislumbra alternativas de vida, por meio da religiosidade. Ele aceita o conselho de Lauro e volta ao terreiro de Mãe Teresa, onde se sente em casa. A mãe de santo jogando as cartas disse que Xangô é o dono de sua cabeça:
“Ele diz que seu caminho é muito bonito e que você não está só. As letras que carrega dentro de você estão pedindo passagem pra existir. Mas, pra isto acontecer, você precisa voltar a ter gosto pela vida.”
Como profissional e amante da palavra, fiquei emocionado com o desfecho surpreendente proposto por Jeferson Tenório. Ao delinear um personagem que passa por tantas dificuldades (econômicas, sociais e psíquicas), o autor com sutileza traça um perfil animador e lúcido para Joaquim. O que certamente contagia o leitor:
“Um dia encontrei um retrato da minha avó quando jovem. Demorei meu olhar sobre aquela imagem, e pensei que a velhice de minha avó me dava vontade de viver. Despertava em mim o desejo de permanecer vivo e alcançar a sua idade.”

Ficha técnica:
Título: De onde eles vêm
Autor: Jeferson Tenório
Editora: Companhia das Letras, 208 pgs
Preço: R$ 74,90

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.
Foto em destaque de Jeferson Tenório: Andressa Pufal / Jornal do Comércio.
Foto da capa de De onde eles vêm: divulgação.
Foto de Maurício Mellone: divulgação.
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