Aprendi gestão com ênfase em planejamento, organização, direção e controle, porque era isso o que se ensinava nas faculdades de administração na década de 1990. Vivi bem com esses pilares durante vinte anos, até que a conta não fechou mais. E aqui, não falo da conta da grana.

Do alto da cadeira solitária de comando e controle, asfixiado pelo ambiente tóxico, padronizado e cinza, dos escritórios, a conta da vida deixou de fechar para mim e, consequentemente, para todo mundo que estava perto.

Minha questão é que, apesar do modelo “Gestão Tradicional” ter funcionado muito bem, durante muito tempo, ele precisou ser questionado, provocado e transformado em um modelo mais flexível, descentralizado, onde o pensamento coletivo e a colaboração ganham destaque central.  E é isso o que pede este novo tempo.

Sobre Acordar

O meu despertar foi acionado de duas formas: primeiramente, fui apresentado a modelos diferentes de gestão que me fizeram as perguntas certas e, com isso, me enxerguei no meio de uma roda do rato, a correr em looping infinito por “mais performance”, envolvido pelo sistema, pela necessidade de crescimento, pelos “tem que”… Segundo: no turbilhão da pressão por resultados, meu corpo pediu “um tempo”.

Mas, como dar esse cavalo de pau no CNPJ? No CPF? Na vida todinha?

Isso pode, e deve, ser feito aos poucos.

A ferramenta é o autoconhecimento. Olhar para dentro. Descobrir, compreender as nossas habilidades naturais e os desejos da alma. Apesar de parecer um tanto “esotérico”, não vivi nada mais prático em 25 anos de carreira do que o “despertar”. Adoro esta frase de uma psicoterapeuta que conheço: “Quanto mais desperto, melhor.”

E com a atenção trabalhada, aguçada, pude olhar para dentro dos sistemas de gestão que havia operado até 2018, dois anos antes de estourar a pandemia da covid-19. Entendi que o caminho para uma gestão mais moderna era trazer equilíbrio para o sistema em si. Em outras palavras, tornar o sistema (auto) sustentável.

Um Sistema Autossustentável

Sistema autossustentável (eu aposto nisto) é aquele que funciona sem depender de alguém responsável por dizer e lembrar, o tempo todo, o que se deve fazer. É quando os líderes têm autonomia real, ou seja, têm liberdade para tomar decisões – o que não os exime da responsabilidade sobre as decisões tomadas.

É um modelo que estimula com que as pessoas se comportem como adultos que são: adultos lidando com adultos. Sem microgestão, sem paternalismo. Cada qual entende o seu papel e as suas entregas, com a consciência de que faz parte de algo maior. Quando todo mundo assume essa postura, o sistema se retroalimenta: as decisões fluem, os conflitos se resolvem com diálogo e maturidade, e a organização cresce com consistência.

Não é ausência de liderança, é uma liderança que cria contextos, não controles. Que ensina o time a pensar, não a obedecer. Isso, para mim, é o verdadeiro sinal de sustentabilidade num sistema organizacional.

Esse tornou-se o meu novo oásis.

E isso já tem nome e sobrenome: ESG (sigla em inglês que significa Environmental, Social and Governance, ou seja, Ambiental, Social e Governança).

Resumidamente, é um conjunto de práticas que as empresas adotam para atuar de maneira mais responsável com o meio ambiente, de modo mais justo com as pessoas e mais ética e transparência na gestão. Não é só sobre lucro, é sobre como a empresa se mantém no mercado e o impacto que ela gera no mundo.

Independentemente da lógica natural da sua organização, já existe um “norte” e enveredar por esse caminho me parece uma ótima opção.

Ingressar no caminho da sustentabilidade não significa apenas implementar novos processos ou adotar ferramentas modernas. É internalizar um novo modelo de gestão. Isso implica rever processos, repensar indicadores de sucesso e envolver todas as pessoas da organização.

Mas, Por Onde Começar?

Comece analisando a cultura do seu negócio. Sendo que a cultura de uma organização não é imposta de cima para baixo e, sim, ela emerge das interações e dos comportamentos cotidianos da empresa.

Ao aceitar isso, propor pequenas intervenções estratégicas bem direcionadas, pode gerar mudanças de grande impacto.

Algumas práticas que podem nortear este desafio:

Alinhamento de Expectativas

Lá no início da minha jornada, a percepção de que ninguém estava jogando o mesmo jogo que eu, originou muitas frustrações. Aprendi que alinhar expectativas é como definir as regras antes da partida começar: evita conflitos e aumenta as chances de vitória coletiva.

Governança

Governança não é burocracia, é clareza de papéis, transparência e responsabilidade. Ela é fundamental para a consistência dos resultados: nada de depender de heróis e, sim, de processos sólidos e decisões compartilhadas.

Colaboração

Gestão não é sobre dar ordens – é sobre construir juntos. Quando parei de carregar tudo nas costas e comecei a confiar no time, a vida rodou mais leve. Colaboração verdadeira transforma esforço em potência.

Pensamento Coletivo

O pensamento coletivo exige escuta ativa, troca de visões e humildade para reconhecer que ninguém sabe tudo. A força do coletivo é maior do que qualquer individualidade, mesmo a mais brilhante.

Espaço de Segurança Psicológica

Quando deixei o modelo comando-e-controle, percebi que as melhores ideias vinham justamente de quem, antes, tinha medo de falar. Criar um ambiente onde as pessoas sintam-se livres para errar, questionar e contribuir foi o ponto de virada da nossa cultura.

Tudo é Sobre Gente

Costumo dizer que tudo é sobre gente, porque de fato é, e não sou eu quem diz; é a vida que afirma e reafirma cotidianamente. Então, não é difícil imaginar que os talentos do futuro estarão nas empresas ESG. A gestão tradicional teve seu momento, mas precisa evoluir.

Charles Tokarski é formado em Administração pela FAE Business School, em Curitiba, com dois MBAs pela Fundação Getúlio Vargas (FGV): um em Gestão Empresarial e outro em Gestão Financeira e Controladoria. Conselheiro formado pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

CEO do Grupo Roval, rede de farmácias de manipulação com 35 anos de atuação no mercado. Fundador da Roval Franchising, que conta com mais de 90 operações no Nordeste, e co-fundador da Opera-Education.

Autor do livro Gestão em Jogo: Histórias de uma Farmácia de Manipulação, onde compartilha insights e experiências sobre gestão, de forma prática.

Foto dele em destaque: divulgação.

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Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

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