A noite passada, assisti à peça-monólogo “Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio” (direção de Luiz Antônio Rocha), apresentada no teatro Luiz Mendonça, no Recife. É um texto de estreia da filósofa e professora Lúcia Helena Galvão na dramaturgia.

Assídua nas redes sociais para abordagens filosóficas, Lúcia Helena Galvão é considerada um expoente da Organização Internacional Nova Acrópole no Brasil, instituição sobre a qual nunca havia ouvido falar até ontem. Vale notar que o nome da organização parece, a meu ver, excessivamente pretensioso.

Convidado por dois ex-alunos que encontrei na ante-sala da plateia a conhecer a proposta da Nova Acrópole, que tinha um birô de informações instalado ali, eu resisti. Tive a sensação de que o voluntariado da proposta filosófica, brevemente anunciada por eles, soou para mim como aquelas propagandas nas redes sociais, cuja legenda altamente persuasiva nos convida a assistir por minutos, sem resposta concreta sobre o anunciado, geralmente produtos diversos de consumo, que ao final nos remete a outro vídeo, para enfim chegar ao clímax. Sempre resisto a esse prazer adiado. Mediante pagamento, claro.

Encontrei, no Google Acadêmico, uma monografia de Maria Luiza Siqueira Martins, realizada para o Curso de Design da Escola de Artes e Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, que aborda a Nova Acrópole. Nela, Martins afirma:

“… em 1957, Jorge Ángel Livraga funda, na Argentina, a Nova Acrópole, uma Organização Internacional Filosófica que hoje está presente em mais de 50 países há mais 63 anos, e tem por objetivo desenvolver em cada ser humano aquilo que tem de melhor, por meio da Filosofia, da Cultura e do Voluntariado. Portanto, a organização busca, de maneira enfática, que haja uma sólida formação humana, salientando a importância da convivência com os demais e a vivência de valores atemporais (virtudes) no dia a dia.” (p.22).

Ocupo meu lugar na primeira fila da plateia. Os pagantes passam a assistir a um breve vídeo da professora Lúcia Galvão, que anuncia o espetáculo dentro da “filosofia” da Nova Acrópole. Em seguida, uma espécie de representante da Nova Acrópole vem ao palco e fico sabendo que há duas filiais em Recife.

Finalmente, Helena Blavatsky entra em cena. A atriz Beth Zalcman, no papel da emblemática filósofa russa, esforça-se para dar vida a um texto superficial e sem a força dramática e a densidade que a personagem exige. 

Logo nos primeiros momentos do monólogo, ela adota uma entonação de voz em frases e palavras partidas, em sutis descompassos entre fala e gesto, como se anunciasse algo tenebroso ou profético, numa versão forçada das bruxas de Macbeth na tragédia de William Shakespeare.

A impressão que fica ao final do monólogo é de que a Helena Blavatsky de Lúcia Galvão se limita a informações gerais e a curiosidades sobre essa grande mulher, tão comuns  às personalidades da Wikipédia. 

Em síntese, a Helena Blavatsky que circula o Brasil me deixou a impressão de que ela representa apenas uma mera engrenagem no marketing da Nova Acrópole brasileira. 

Como faz falta, nos dias de hoje, o teatro de Antunes Filho!

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque da atriz Beth Zalcman como Helena Blavatsky: Daniel Castro, colhida da Revista Vislun.

Imagem do cartaz: divulgação.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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