Sob o sol escaldante, como se estivesse em Afogados da Ingazeira (PE), uma das cidades mais quentes que conheci, saio da Universidade Nova de Lisboa em direção à Fundação Calouste Gulbenkian. Basta atravessar a Avenida de Berna e, praticamente, já estamos nesse complexo de arte e cultura de Portugal.

Era o caminho que percorria quando estudava na Nova nos anos idos, e ia assistir aos concertos de orquestra gratuitos no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Mas, desta vez, foi diferente.

Revi o acervo (apenas parte dele está aberta ao público atualmente, em virtude das reformas previstas até 2026); explorei os jardins e a própria vida do idealizador da Fundação: Calouste Gulbenkian.

Sabia pouco sobre esse magnata admirador e colecionador de objetos de arte. (Observem que lancei livro e participei de mesas-redondas em seminários na Sala Calouste Gulbenkian, na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife). O desconhecimento não é propriamente um pecado mortal, acreditem; há outros bem piores cometidos pela falta de conhecimento.

Os Gulbenkian vêm de uma família tradicional armênia de abastados comerciantes, com raízes históricas profundas ligadas a grandes propriedades feudais no Império Otomano (1299-1922). Assim nos informa o livro Calouste Sarkis Gulbenkian – O Homem e sua Obra, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 2010).

Sigo com o livro. Calouste Gulbenkian nasceu em 1869, em Uscudar, distrito de Istambul, na Turquia. Seu pai era proprietário de empresas de exploração de petróleo e representante internacional da companhia Alexandre Mantacheff no Império Otomano, empreendimento voltado ao petróleo para iluminação e aquecimento. (p. 18).

Vivendo entre o Médio Oriente e o Ocidente, Gulbenkian foi colecionando obras de arte à medida que avançava seus negócios no mundo petrolífero e político; foi nomeado conselheiro econômico e financeiro pelo Império Otomano, nas embaixadas otomanas de Londres e Paris (p. 27).

No auge da II Guerra Mundial, Calouste Gulbenkian chega a Portugal (1942), no contexto da ditadura salazarista (1933-1974). Tinha 73 anos. Com o fim da grande guerra, a família Gulbenkian decide permanecer em Lisboa, fazendo do Hotel Aviz, não mais existente, sua residência, até falecer aos 86 anos. Aqui deixou a maior parte de sua fortuna e de seu acervo de obras de arte.

São mais de seis mil itens que compõem a coleção da Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se de um conjunto multifacetado de obras que vão desde peças do Antigo Egito, de 3000 a.C., passando por objetos de arte islâmica, chinesa e japonesa, ourivesaria francesa, utensílios de decoração e joias em estilo Art Nouveau, formando um grupo amplo e belo, sobretudo de René Lalique, de quem foi amigo. Inclui tapetes, móveis, uma Bíblia Armênia de 1623, esculturas de renomados artistas, como Rodin, candelabros, louças, moedas e muitos outros itens que levam o visitante a percorrer uma vasta produção humana mundial nas artes, até aquela que mais aprecio: a pintura. Destaca-se Van Dyck, Rembrandt, Rubens, Turner, Manet, Degas, Renoir, Monet, entre outros mestres, reafirmando a Fundação Calouste Gulbenkian como um lugar obrigatório a ser visitado em Lisboa, além daqueles tradicionais onde há fados, bacalhau na brasa e vinhos tintos do Douro, claro!

Mas são os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, criados pelos arquitetos urbanistas António Viana e Gonçalo Ribeiro Telles, que ampliam, por assim dizer, o já vasto acolhimento das pessoas pela instituição: o Museu, o Centro de Arte Moderna (não deixe de observar a remodelação da edificação pelo arquiteto Kengo Kuma), o grande auditório, a orquestra sinfônica, a Biblioteca de Arte, o anfiteatro e as inúmeras ações educativas e culturais, entre outras, ao redor do mundo.

Sob o calor inclemente, vou alcançando os diversos planos dos jardins (dois terços deles são construídos sobre lajes), repletos de árvores de grandes dimensões (sobretudo de carvalhos e eucaliptos) em meio aos arbustos, tão próximos ao visitante que parece estar-se no meio de uma densa floresta. Temos a sensação de que vamos nos perder em seus caminhos secundários e sinuosos.

Eucalipto de quase 200 anos – Jardim Gulbenkian, Lisboa, Portugal. (Foto, Callou, 2025)

O aroma de mato e madeira, o piso de terra e folhas, ora de cimento em degraus largos, nos leva a pequenas praças ensombradas, qual uma sala íntima de estar; lâminas d’água em círculo formam uma espécie de mesa ampla de centro. Um pato-real entra nessa mesa líquida. Quem me dera ser um pato!

A beleza aqui não é a do jardim cartesiano, à la Versalhes, Queluz e Museu do Ipiranga, em São Paulo. A intenção dos arquitetos, leio em O Jardim (FCG, 2006), foi a de criar um ecossistema artificial, no qual todas as edificações do complexo da Fundação interagissem entre si. O Jardim Gulbenkian é um dos principais exemplos da arquitetura moderna de Portugal.

Saio dos jardins, alcanço a Avenida de Berna e penso cá com meus botões abertos: o que deixarão para a humanidade figuras como Donald Trump e Benjamin Netanyahu, quando olhamos para a trajetória de Calouste Sarkis Gulbenkian e seu legado cultural duradouro através da Fundação Calouste Gulbenkian.

Lisboa, 19 de junho de 2025.

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foi tirada por ele, a foto em destaque: René Lalique, Placa de gargantilha de arvoredo – França, 1898-1899.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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