A premiada escritora e jornalista carioca Eliana Alves Cruz retoma com o romance Meridiana, lançado pela Companhia das Letras, seu olhar sobre o universo da população negra no Brasil. A obra retrata a ascensão social de uma família negra, moradora de uma favela na periferia, que se muda para o centro da cidade.

O núcleo familiar é composto dos pais Ernesto e Aurora, Zuleica, amiga do casal, e dos três filhos, os gêmeos Augusto e César, e a caçula Meridiana. Cada capítulo é conduzido por um membro da família e assim o leitor tem a chance de conhecer a visão de cada um sobre o caminhar deles pela vida. Na contracapa do livro, a jornalista e escritora paulista Bianca Santana é assertiva ao definir a obra:

“Três gerações de um Brasil negro e desigual que, apesar da dor e do trauma, mostra que tem, sim, caminho. Um baita romance escrito em seis vozes. Um caleidoscópio imperdível”, afirma Bianca Santana.

Formada em comunicação social pela Faculdade da Cidade/RJ e com pós-graduação em comunicação empresarial pela Universidade Cândido Mendes, Eliana Alves Cruz, nascida no Rio de Janeiro em 1966, iniciou sua carreira como jornalista. Lançou seu primeiro romance em 2016 Água de Barrela; dois anos depois lançou o livro de ficção histórica O Crime do Cais do Valongo, sobre o sofrido legado da escravidão no Brasil. Em 2022 a escritora venceu o Prêmio Jabuti, com o livro de contos A Vestida, e lançou o romance Solitária. Eliana também integrou a equipe de roteiristas da séria Anderson Spider Silva, indicada à maior premiação de TV do mundo, International Emmy Awards.
 
Com 184 páginas, o romance é dividido em prólogo, seis capítulos e epílogo. O interessante da obra é que cada capítulo é escrito na primeira pessoa, sempre por um membro daquele círculo familiar. Desta forma o leitor percebe as nuances e as diferentes visões de mundo de cada um deles sobre o caminhar desta família pela vida. Por exemplo, Meridiana, que dá nome à obra, no prólogo é uma garota pré-adolescente e no último capítulo em que ela é a porta voz, já é uma mulher de meia idade, que reflete sobre o destino de sua família.

“Pai, é mais fácil ir ou voltar?”

Com esta pergunta aparentemente simples feita pela menina ao pai, para tentar entender a mudança da família para o centro da cidade, a autora desenvolve a linha de raciocínio de toda a obra. Para a filha, Ernesto responde que é mais fácil voltar quando você precisa muito do que ficou para trás. No final da trama, Meridiana, já uma mulher de 50+, analisa filosoficamente a mesma questão e amplia o conceito: diz que é mais fácil voltar quando você precisa do ficou pra trás para prosseguir.

A ascensão social — da favela para a vida de classe média no centro da cidade — foi um projeto construído pelo casal Ernesto e Aurora. Ele como funcionário do Banco do Brasil e ela como modista de uma loja de confecção conseguiram se mudar para o condomínio Bougainville: cada um com a sua visão e o modo de encarar os desafios deste projeto. Ernesto logo conseguiu se tornar síndico do condomínio, inclusive para equilibrar as despesas domésticas resultantes da mudança. Com o passar dos anos, ele revê seus conceitos e resolve voltar a morar na antiga casa da família, na favela Matadouro, para o desagrado de Aurora, que se negou a deixar o apartamento.

O contraponto ao casal é apresentado pela autora por meio da experiência de vida de Zuleica, melhor amiga de Aurora, que manteve um romance com Tonho, muito próximo de Ernesto. Sempre com uma visão progressista, Zuleica manteve sua vida na favela e criou uma fundação/ONG voltada à comunidade.  César e Meridiana recorrem à tia em momentos de crise; ela é uma espécie de esteio da família.

As divergências entre os gêmeos também ficam cada vez mais evidentes com o passar dos anos. César nunca compreendeu o apego de Augusto ao modo de vida dos Leon Lima, família de Claudionor, seu melhor amigo: brancos e de classe social elevada. Augusto, por sua vez, nunca aceitou a homossexualidade de César, que assim que pôde, transferiu-se para a Europa, afastando-se da família.

Justificando o sentido do próprio nome, Meridiana faz sempre a conexão entre os polos: procura um meio de aproximação entre os pais. Com Augusto e a esposa Priscila, Meridiana pontua os conflitos e situações racistas que eles vivem, principalmente quando envolvem a sobrinha Nandi; sobre um desagradável fato racista vivido pela sobrinha, ela é certeira:

Eu continuava atrás deste avanço civilizatório. Só não imaginava que os parâmetros sobre o que é progresso mudassem tanto. As microagressões constantes vão se acumulando e produzindo um chorume impossível de suportar”.

A forma como Eliana Alves Cruz constrói o romance — as várias visões, as diferentes vozes — aproxima o leitor da história, enredando-o. A autora, por meio da saga de uma família negra brasileira, traça um perfil da sociedade contemporânea do país. Na contracapa do livro, o ator, diretor e escritor Lázaro Ramos é contundente ao se referir ao livro:

“Identificação e compreensão imediata. Os dilemas da ascensão social são retratados em detalhes tão particulares e íntimos que pareceram uma memória viva de minha casa. Questões comumente enfrentadas por uma pessoa preta ao adentrar novos círculos sociais surgem de um modo tão fiel que até arrepia. É o tipo de livro que dá vontade de economizar páginas, pra ficar lendo mais tempo”, conclui Lázaro Ramos.


Ficha técnica:

Título: Meridiana

Autor: Eliana Alves Cruz

Editora: Companhia das Letras, 184 pgs

Preço: R$69,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Eliana Alves Cruz: Tomaz Silva / Agência Brasil.

Imagem da capa do livro: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.



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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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