Ontem foi uma noite memorável no Hotel Central do Recife, com o show da fadista carioca Ananda Botelho.

É sempre inacreditável perceber como o fado está em nós, brasileiros. Sobretudo nas pessoas da minha geração ou abeiradas a ela. O público de ontem praticamente conhecia a maioria das canções portuguesas interpretadas por Ananda: É uma casa portuguesa, com certezaOlhos castanhosNem às paredes confessoFoi DeusCanção do mar

Criei-me, por assim dizer, ouvindo fados na Rádio Difusora de Pesqueira, ou na vitrola da minha avó galega, que tinha discos desde os mariachis mexicanos, passando pelos fados, na voz de cantores e cantoras brasileiros e, claro, na de Amália Rodrigues, além de músicas do cancioneiro espanhol. 

Mais inacreditável ainda é reconhecer como a música, queiramos ou não, ritmou nossas vidas, sobretudo com o surgimento do rádio no Brasil em 1922 e do próprio desenvolvimento da indústria cultural no país a partir de 1960. A música nos remete a tantos estados felizes, tristes ou melancólicos – nossos fados -, quase como uma condição do humano no mundo contemporâneo. Somos capazes de revisitar, pela música, lugares distantes onde um dia estivemos, de lembrar de pessoas, pensamentos e até mesmo dos aromas do passado, como um perfume elaborado com bons fixadores.

A simpática e leve Ananda nos levou, pelas mãos de sua belíssima voz, a esses recônditos antigos. Apaixonada pelo fado, faz dessa paixão um trabalho de divulgação desse gênero musical pelo país, que já teve forte penetração por aqui, sobretudo nos anos 1940 a 1960, relata ela. Seu canto não tem a mesma dramaticidade dos fadistas portugueses, por razões óbvias, mas seu repertório e sua amplitude vocal emocionaram a todos no primeiro arranha-céu do Recife. 

De Pesqueira, onde nasci, a Lisboa, onde morei, a voz de Ananda, acompanhada pela guitarra portuguesa de Fernando do Bandolim e pelo violão de 7 cordas do jovem Gabriel dos Anjos, ambos do Recife, me levou de volta à Madragoa, às ladeiras do Alfama, ao Mercado da Ribeira, à Mouraria, onde viveu Maria Severa, considerada a primeira fadista de Portugal. Não à toa, cortava meu cabelo mensalmente com um indiano na Mouraria, pelo simples fato de seu salão-cubículo ficar colado à casa de Severa.

A pioneira fadista teve uma vida trágica, revelada no primeiro filme sonoro português – A Severa (1931) -, dirigido pelo grande cineasta alfacinha Leitão de Barros. Aliás, os filmes rodados em Portugal por portugueses estão marcados pelo fado. Ao visionar mais de 100 filmes lusos na minha pesquisa acadêmica, fiquei impressionado com a presença do fado nas trilhas sonoras e temas, mesmo no cinema novo português, como o emblemático Verdes anos (1963), de Paulo Rocha, com músicas belíssimas de Carlos Paredes. O nacionalismo do ditador António Salazar obrigou Portugal a se encapsular nas suas próprias tradições. A cinematografia lusitana é um testemunho histórico desse período, encerrado pela Revolução dos Cravos, em 1974. 

Saio do Hotel Central, hoje reduto das artes no centro do Recife, e ligo o Spotify para ouvir o fado Estrela da tarde, de Fernando Tordo e José Carlos Ary dos Santos, na voz do português António Zambujo. Belo fado. Bela a noite. 

Praia do Pina, Recife, 29 de novembro de 2025.

Estrela da Tarde:

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Imagem em destaque de Ananda Botelho Mendes com Gabriel dos Anjos: Angelo Brás Fernandes Callou.

Foto do autor: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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