Mulheres repensam relações afetivas como forma de autocuidado e sobrevivência

Alguns textos não nascem da urgência, mas do acúmulo de experiências, observação e atenção aos comportamentos sociais e esse é um deles. No último artigo aqui da coluna, eu disse que o próximo falaria sobre a Geração Z, mas o tema vai ter que aguardar.

Escrevo a partir de um lugar mais atento para refletir sobre o tema Celibato Voluntário Feminino ou como ficou mais conhecido: o movimento ‘Boy Sober’ (na tradução literal seria sóbria de garotos / homens). Uma escolha que fala menos de ausência e mais de autonomia, consciência e escuta de si.

Não é falta de desejo, não é rejeição ao amor, não é fuga. É decisão consciente, temporária ou permanente. É pausa nos relacionamentos para direcionar a energia sexual, emocional e afetiva para outros setores da vida.

Mulheres têm optado por um período de celibato voluntário – eu, inclusive.

A abstinência, aliás, já foi assumida por figuras públicas como a atriz Luana Piovani, 49 anos, e a cantora e compositora espanhola Rosalía, 33 anos; o momento é de ‘detox’ dos efeitos negativos das relações abusivas ou frustrantes.

Vou usar aqui um termo que virou modinha, mas que uso desde 2011: mimimi. Tem muito homem de mimimi. No entanto, não adianta espernear. Avisamos aos navegantes que nós não temos mais paciência para discursos e ações machistas.

Psicólogos e terapeutas de casal dizem que a pausa pode ser saudável quando feita em benefício da relação emocional ou para interromper ciclos tóxicos. Recentemente, em dezembro de 2025, o Jornal O Globo tratou o tema. A psicanalista Regina Navarro, entrevistada na reportagem, entende esse movimento como reflexo da transição de valores. “As mulheres estão se libertando de uma falsa obrigação de ter um parceiro para se sentirem completas”, comentou.

Outro ponto crucial, que tem a ver com esse movimento e que não pode e nem deve ser ignorado, é o atual quadro de violência contra a mulher no Brasil. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, referentes ao ano de 2024 e divulgados em julho de 2025, apontam um aumento recorde nos casos de feminicídios. Cerca de quatro mulheres foram assassinadas por dia, por razões de gênero. Em relação aos casos de estupro, os números também são alarmantes: o Brasil registrou mais de 87 mil em 2024.

E se até agora, os dados não impactaram você porque são ‘apenas’ estatísticas, em algum momento vão impactar. Temos filhas, amigas, irmãs, mães, primas, que podem sofrer alguma ocorrência… Saiba que as denúncias ao 180 (número para registro de violência sexual, psicológica e patrimonial contra a mulher) subiram 33% em 2025.

A correlação entre decidir-se pelo celibato voluntário e a violência estrutural não é causal, é consequência, sim, do contexto de medo, resposta à insegurança e reavaliação de modelos tradicionais afetivos. Em muitos casos, a opção por não ter relacionamentos íntimos é compreendida como estratégia de proteção e empoderamento diante de uma cultura que expõe mulheres a riscos diários e concretos de agressão e morte, em contextos domésticos e públicos.

Em um Brasil, onde duas, em cada 10 medidas protetivas são descumpridas e a violência sexual só cresce, o debate sobre o celibato voluntário feminino se insere tanto numa discussão sobre liberdade individual, quanto na urgência de políticas públicas e culturais que enfrentem a raiz das violências de gênero.

Agora, dirigindo-me especialmente às Mulheres 50+, grupo emocionalmente mais experimentado, de trajetória mais longa e do qual faço parte: relações afetuosas não são apenas sexuais. Não podem e não devem ser sinônimo de desgaste, medo ou exposição. Ficar sozinha é escolha consciente, não é solidão.

Até no reino animal.

E que tal deixar esse artigo um pouco mais leve, embora não menos reflexivo?

Em matéria de 2023, o Jornal britânico The Guardian relatou que fêmeas da espécie European Common Frog desenvolveram uma estratégia diante de machos insistentes durante a época de reprodução. Elas simulam a própria morte, ficando rígidas e imóveis até que os machos desistam. Os cientistas ressaltam que esse ‘fingimento’ é uma resposta INVOLUNTÁRIA ao estresse extremo e a tentativa de acasalamento forçado. Ainda de acordo com o estudo científico, o comportamento das rãs dessa espécie mostra que elas criaram procedimentos próprios de recusa e seleção sexual.

E você, o que achou do mecanismo das rãs?

Deixando o mundo animal de lado e voltando para a humana realidade: o ‘Boy Sober’ não é sobre ódio, revanche ou desistência do amor. É sobre diagnóstico. Quando as mulheres escolhem a pausa, o afastamento ou o celibato, não estão rejeitando os homens – estamos reagindo a padrões. O movimento pede reflexão, especialmente dos homens. O convite é simples, mas desconfortável. Nenhuma ação nasce do nada – ela surge da repetição.

Onde nasceu o ‘Boy Sober’

Surgiu com a comediante americana Hope Woodard, de 28 anos, no Tik Tok, no início de 2024, quando ela propôs um ano de abstinência de relacionamentos masculinos como forma de autocuidado.

Até breve, queridas leitoras e queridos leitores!!

Simone Magalhães é metade Pernambuco, onde nasceu, e metade Santa Catarina. É graduada em Comunicação Social pela UFPE e tem especialização em MKT digital, pelo Impact Hub / Sebrae-SC.

Foto em destaque de Hope Woodard: reprodução Instagram.

Foto das rãs: divulgação.

Foto de Simone Magalhães: divulgação.

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Simone Magalhães

Metade Pernambuco, onde nasceu, e metade Santa Catarina. É graduada em Comunicação Social pela UFPE e tem especialização em MKT digital, pelo Impact Hub / Sebrae-SC.

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