Há coisas que fazemos na vida de que não nos arrependemos, jamais. Embora a maioria das pessoas afirme que isso é extensivo a tudo o que realizaram – de bom e de ruim – nas suas vivências cotidianas.
Não à toa, a canção francesa Non, Je Ne Regrette Rien, de Michel Vaucaire e Charles Dumont, faz sucesso desde 1960, quando foi gravada pela extraordinária Édith Piaf. Mas, daí ao heroísmo de “não me arrependo de nada”, penso cá comigo, não se sustenta uma sessão de análise.
Fui atravessado por esses pensamentos – nossos fados – enquanto assistia ao concerto do violonista brasileiro Yamandu Costa e do compositor e cantor português António Zambujo.
Eram dois sotaques sob os refletores do Teatro Guararapes, em Olinda, no domingo último: um gaúcho e um português alentejano. Sotaques linguísticos e linguísticos musicais, com os quais tive certa familiaridade, ao morar em dois momentos da vida – e aqui não me arrependo de nada -, no Rio Grande do Sul e em Lisboa.
Arrebatado pelo virtuosismo de Yamandu Costa ao violão, vamos conhecendo as influências musicais do artista, com raízes recifenses, pois seu pai estudou violão no Conservatório Pernambucano de Música, na sua estada com a família na cidade anfíbia; bem como as de António Zambujo, que nasceu em Beja, no Alentejo, região do Cante Alentejano. Volto a esse ponto.

À medida que o concerto avança, vamos ampliando nossa emoção, com a voz masculinamente rara de Zambujo, em delicadeza e sensibilidade, ancorada na escolha do repertório e nos acordes de Yamandu Costa, cheios de performance e improvisos.
São músicas de Chico Buarque e Vinicius de Moraes (Valsinha), Antônio Carlos Jobim (Falando de Amor), Lupicínio Rodrigues (Nervos de Aço), Demetrio Ortiz e Z. de Mirkin (Recuerdos de Ypacaraí), entre tantas outras canções da MPB e do cancioneiro latino-americano, tão presentes na memória musical brasileira e, pelo visto, n’além-mar; os fados portugueses, entre eles Estrela da Tarde, de Fernando Tordo e Ary dos Santos, e o belíssimo Eu Já Nem Sei, do próprio Zambujo, encontram uma unidade nas diferenças musicais desses dois grandes artistas.
Yamandu vem dos pampas gaúchos, de Passo Fundo, com influências também, dizem, da música nativa do Rio Grande do Sul, tão rica em elementos da cultura folk, originalmente de protesto (daí talvez se expliquem os arroubos no violão), que, infelizmente, não ultrapassa a fronteira paulistana.
Beja, a capital do Baixo Alentejo, foi a palavra mágica pronunciada no concerto, para compreender, a meu modo, o trabalho musical de António Zambujo.
Metido num trem precário para Beja, em pleno verão português, viajo na vertigem do calor, por paisagens indizíveis do campo alentejano, com seus sobreiros descamados pela indústria da cortiça. Tão imenso e particular é esse universo que só os pampas gaúchos, que um dia atravessei até o Uruguai, podem se comparar em beleza e imensidão. Miguel Torga (1907-1995), um dos grandes escritores portugueses, pois são tantos, assim se refere ao Alentejo, no primoroso Portugal, de 1940:
A percorrer o Alentejo, nem me fatigo, nem cabeceio de sono, nem me torno hipocondríaco. Cruzo a região de lés a lés, num deslumbramento de revelação. Tenho sempre onde consolar os sentidos, mesmo sem recorrer aos lugares selectos dos guias.
Foi no Alentejo que ouvi falar pela primeira vez no Cante Alentejano. Como explicar a emoção que se sente diante desse canto polifônico? Arrisquei dizer, em algum lugar, que o Cante Alentejano foi criado para emocionar as pessoas; ou para lhes dizer que são humanas.
Temos a sensação de que aquelas vozes em coro à capela vêm de algum lugar inexplicável, misterioso e profundo. É como se elas se insurgissem das entranhas do Alentejo, das raízes dos sobreiros ou das suas sombras. Quem sabe das lutas históricas dessa região in saecula saeculorum.
Mas é no premiado Alentejo, Alentejo (2013, 100’), do cineasta luso-franco-brasileiro Sérgio Tréfaut, que o Cante Alentejano se configura por inteiro. Ali se tem uma dimensão estética do que representa um canto que se torna impossível de ouvi-lo separado da aridez local, da beleza e das gentes do Alentejo.
António Zambujo traz tudo isso no seu canto. Quase um lamento ensimesmado, quase um choro contido, disfarçado, sem lágrimas, mas traído, digamos, na interpretação musical. Essa espécie de dramaticidade vocal, simples e delicada na voz masculina, parece vir de dentro, no seu sentido mais humano, qual um Cante Alentejano. Não importa se interpreta fados, MPB (sobretudo Chico Buarque), guarânias, chorinhos, Zambujo dá seu tom muito particular, contemporâneo, a partir das suas raízes portuguesas d´Alentejo. O público percebe, se emociona e aplaude de pé essa união incomum de imensidões, os pampas gaúchos e os campos alentejanos.
Praia do Pina, Recife, 2 de março de 2025.
Em tempo: Não me arrependo nem um pouco de ter aceito do jornalista Edgard Homem o bilhete-convite do concerto, fornecido por Lula Portela, da assessoria de imprensa do espetáculo.
Referências
CALLOU, A.B.F. O Cante. In: CALLOU, A.B.F. Alvalade: crônicas e aquarelas. Recife: FASA, 2017.
FOGAÇA, José. Semeadura. Spotify https://open.spotify.com/track/35mMjLoxS9ABTmXntg0HRN?si=r4ftxZZwRcqKm-a-d1LJwg&context=spotify%3Asearch
TORGA, Miguel. Portugal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.
TRÉFAUT, Sérgio. Alentejo, Alentejo. Trailer do filme: https://youtu.be/r8ksK23HbB0?si=1t6jKjdEHYBmQoXb
VAUCAIRE, Michel; DUMONT, Charles. Nom, je ne regrette rien. Spotify, Édith Piaf. https://open.spotify.com/track/3dkIE8P7hvl3tHl9KSb6dA?si=wahKyAawRrSePi4zd4nI5w&context=spotify%3Asearch%3Anon%2Bje%2Bno%2Bregrette
ZAMBUJO, António; COSTA, Yamandu. Prenda minha. Álbum. Spotify, 2024. https://open.spotify.com/album/62mnYqhW2d3vOYwiWOOomA?si=6QBHwbM3TSSL1vwsWF-NRg

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Foto em destaque de António Zambujo e Yamandu Costa: Kenton Thatcher.
Demais imagens: divulgação.
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