De cima dos seus 81 anos, a consagrada bailarina, coreógrafa e diretora beninense, radicada no Senegal, Germaine Acogny, emocionou domingo a plateia do Teatro de Santa Isabel, no Recife. Foi ovacionada.
Com uma presença marcante no palco, qual uma entidade mitológica, com a grandeza e a dignidade de nossa Lia de Itamaracá, Acogny dançou ora em silêncio sepulcral, sob a luz do refletor, ora ao som de músicas africanas e americanas, no espetáculo À un Endroit du Début (Em um Ponto de Partida, tradução livre).
Num movimento de difícil cadência, o audiovisual, a dramaturgia e a dança se entrelaçam num balé contemporâneo esteticamente belo e impactante para denunciar e relatar a condição da mulher negra na África – diria em todos os continentes -, a partir da autobiografia da bailarina como fio condutor do espetáculo.
Trata-se de um mergulho na busca por raízes, identidade e autoconhecimento, em uma sociedade marcada pela invasão cultural e sua repercussão na invisibilidade e/ou apagamento dos traços ancestrais das comunidades étnicas ao redor do mundo.
Vi, na cadência dos gestos dessa bela, alta e emblemática bailarina, o tamanho da nossa ignorância – da minha em particular – sobre os povos originários e suas contradições internas, sobretudo quando o assunto é a condição da mulher. Por mais que leia e estude sobre a cultura africana, como fiz por meio do cinema nigeriano e senegalês, onde as questões de gênero são recorrentes (vide, particularmente, Touki Bouki, de Djibril Diop Mambéty, e Hienas, de Ousmane Sembène), o universo cultural afro parece inesgotável.
Germaine Acogny assume, nesse mergulho ancestral, uma Medeia africana, que sacrifica seus filhos para se vingar do marido, num contexto de abandono e violência contra as mulheres negras, tal como ocorreu há 2500 anos, quando Eurípedes escreveu a tragédia.
Assistir a Germaine Acogny em À un Endroit du Début foi um privilégio que guardarei para sempre na memória, ao lado das igualmente extraordinárias coreógrafas e bailarinas, a alemã Pina Bausch e a francesa Maguy Marin, que as vi dançar no saudoso Carlton Dance Festival de São Paulo. Dizem os músicos Milton Nascimento e Fernando Brant que “A arma é o que a memória guarda”. Em outras palavras, é a memória nossa força mais poderosa no enfrentamento da vida.
Enquanto caminho da plateia à Praça da República ao término do espetáculo, amarro a certeza de que, sem perscrutar a nós mesmos, escavar o que somos, nos perguntar o que queremos da nossa existência e para onde ir, é passar pela vida como um ser-quase-nada.
Germaine Acogny nos ensina o tamanho da dor e da imensa liberdade que esse percurso pode proporcionar em cada um de nós.
Expediente:
À un Endroit du Début
Interpretação e dança, Germaine Acogny; Direção Cênica, Mikaël Serre. O espetáculo fez parte da 34ª edição do Festival de Teatro do Agreste, 2025. No Recife, teve uma única apresentação, domingo passado, no Teatro de Santa Isabel.

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.
Imagem em destaque de Germaine Acogny: Angelo Brás Frernades Callou.
Foto do autor: divulgação.


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