Vencedor na categoria romance literário do Prêmio Jabuti/2025, o livro Vento em Setembro, do músico e escritor paulista Tony Bellotto, é um misto de crônica social e thriller psicológico, recheado de muito suspense. Um lançamento da Companhia das Letras, a obra se passa entre a década de 1970 e os dias atuais.
O mote inicial é uma festa, em Assis/SP nos anos 1970, promovida pelo rico fazendeiro de soja, Máximo Leonel, para que seu filho caçula, Alexandre, perca a virgindade. Para isto, o ricaço contratou “a nata das prostitutas do Oeste paulista” e mandou vir da capital, da boate La Licorne, a moça mais cobiçada da casa, Laura, de 22 anos. Ela foi a escolhida para oferecer “um defloramento especializado” para o jovem herdeiro. No entanto, na hora prevista, Alexandre desaparece misteriosamente, deixando todos atônitos. A partir daí a trama toma novos rumos, com histórias paralelas vividas nos dias de hoje, mescladas ao drama da família Leonel.
Mais conhecido como guitarrista e compositor da banda de rock Titãs, Antonio Carlos Liberalli Bellotto, ou apenas Tony Bellotto, divide sua carreira entre a música e a literatura. Bellini e a Esfinge, seu primeiro romance de 1995, deu início à série de tramas policiais, protagonizadas pelo detetive Remo Bellini. Escreveu ainda BR163: duas histórias na estrada/2001, No buraco/2010, Dom/2020 e o livro infantil Família/2015, em parceria com o compositor e amigo Arnaldo Antunes. Vento em Setembro é seu décimo terceiro romance.
A obra é composta de dez partes, cada uma delas com capítulos curtos (às vezes de uma única página), e histórias que se entrelaçam, desde a festa e o desaparecimento, sem deixar rastro, do jovem Alex, o histórico de Máximo e Cassandra e o destino dos outros filhos do casal (Winston e César), a vida da garota da La Licorne, Laura Yerevan, e seu irmão gêmeo Laércio, até o mistério das pichações nos dias atuais, que começam a aparecer nas igrejas de Ouro Preto e principalmente nas esculturas de Aleijadinho.
O narrador da trama, Davi Zimmerman, só se apresenta no quarto capítulo da primeira parte. Ele é um escritor, autor do livro A abertura do quinto selo, dedicado às obras de Aleijadinho, e fica intrigado com o noticiário da TV que mostrava as pichações criminosas às esculturas barrocas em cidades históricas de Minas Gerais. Ele vai até Belo Horizonte conversar com a delegada responsável pelas investigações para contar que seu pré nome foi grafado nas pichações e que as esculturas e igrejas se referem aos capítulos de seu livro.
Por meio do narrador, o leitor é conduzido por um labirinto de histórias e personagens, desde as drásticas consequências da festa de Máximo (seu filho mais velho é vítima de um acidente, que acaba por matar o amigo e ele próprio) ao desenlace da vida dos gêmeos Yerevan, passando pela biografia de Davi. A trama perpassa por seminário religioso, bordéis, aventuras em vagões de trem, mistérios envolvendo o marchand Jacques Zimmerman (pai do narrador), numa verdadeira epopeia, que nos conduz de Santos à Grécia, de Assis à Cidade do México, como relatam os editores na orelha do livro, além de passagens por São Paulo, Londres e Nova York.
Como os capítulos são curtos, ágeis e com ganchos entre uma parte e outra, o leitor é facilmente enredado na trama, por mais que haja uma infinidade de personagens e localidades. Confesso que tive um certo cansaço devido a tantas intrigas e a demora para desvendar os principais mistérios (quem é o pai do filho de Laura, qual a relação entre Davi e a família Leonel, como os fatos ocorridos nos anos 1970 se entrelaçam com a atualidade). No entanto, Bellotto, especialista em romances policiais, consegue segurar a atenção do leitor e surpreendê-lo com um desfecho inesperado.

Ficha técnica:
Título: Vento em Setembro
Autor: Tony Bellotto
Editora: Companhia das Letras, 296 pgs
Preço: R$94,90

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.
Foto em destaque Tony Bellotto: divulgação.
Foto da capa de Vento em Setembro: divulgação.
Foto de Maurício Mellone: divulgação.


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