Em razão da profissão que escolheu, designer de animação, o paulistano Renato Klieger vive entre a Alemanha e o Brasil (São Paulo). No entanto no ano passado resolveu investir em uma de suas paixões, a literatura, e lançou duas obras: uma voltada ao público infantil e a outra, seu primeiro livro de contos. Lançado pela Opera Editorial, Amargo chegou ao mercado no final de 2025 e reúne 25 contos curtos.
Com uma variedade de temas, todos com ironia, ambiguidades e humor ácido, as pequenas histórias traçam um retrato da existência humana, da vida da sociedade contemporânea. Antes dos contos, o livro abre com um poema, que revela o tom que o autor imprime às tramas:
“Se o amargo fosse uma cor, seria ocre
se o amargo fosse uma dor, seria a de estômago.
…
O amargo é o sinal de exagero,
é o desatino,
a doença
a morte.
É todo esse desconforto,
mas também é café preto”
Aos 44 anos, paulistano, formado em Comunicação em Multimeios pela PUC/SP, Renato Klieger começou sua carreira como designer e especializou-se em animação para TV. Atuou em estúdios no Brasil e na Europa, tendo morado oito anos na Alemanha. Como diretor e animador, participou de diversos festivais pelo mundo, colecionando prêmios importantes. A literatura sempre esteve em seu radar e em 2025 lançou primeiramente o infantil Ovocêntrico/Ipê das Letras e no final do ano Amargo/Opera Editorial, uma coletânea de contos.
Intercalando narrador em terceira e em primeira pessoa, o autor apresenta em muitos dos contos um tom corrosivo, que faz com que o leitor reflita sobre o nosso cotidiano. O primeiro conto, Dona Selma, é o perfil de uma empregada doméstica, que sofre todas as agruras de viver numa comunidade e ter de percorrer toda a cidade para trabalhar num apartamento de uma família de posses. E ao voltar para casa é surpreendida com uma manifestação: o ônibus onde estava é incendiado:
“No jogo do ‘salve-se quem puder’, muitos foram pisoteados, inclusive dona Selma. Juntou forças e se levantou — estava sozinha no ônibus. O coletivo se inflamou rapidamente. O filho, orgulhoso de seu feito heroico, só caiu em si quando os outros passageiros gritaram que ainda havia uma senhora dentro do veículo.”
Outro conto que incita à reflexão é Cabeça de Coco, sobre uma senhora que saía de casa todo dia para bebericar com uma única companheira de bar, a ausência.
“Tudo aquilo que havia sido misturado na bebida mais cedo estava voltando em seu esôfago e forçando uma saída de emergência. O que seria se ela vomitasse aquele desatino, aquelas mágoas, solidões, tristezas, desilusões… tantos sentimentos juntos.”
Em Na coleira, a crítica é mordaz do início ao fim do conto. O autor inicia assim: “Ela arrastava a criança no shopping por uma ‘coleira mochila’, como se fosse um cachorro. O filho, que não era dos mais calmos, se esparramava no chão e berrava por um motivo qualquer.” A história se resume à descrição das compras daquela mãe com o ‘filho cão’. Impossível o leitor não identificar esta personagem e enxergá-la em nossa realidade.
O humor está muito presente na escrita de Klieger. Em Arca de Noé, o enredo bíblico é transposto para o Rio de Janeiro, num dia de 49º, com sensação de quase 50º! Noé recebe um telefonema de Deus pedindo que ele faça uma nova arca, pois “os humanos ansiosos acabaram acelerando a merda toda a favor do progresso.” A descrição da construção da arca e a seleção dos participantes desta nova viagem, tudo é hilário e o desfecho, mais engraçado ainda!
Nos contos que fecham a obra, o autor volta com sua ironia e seu humor ácido, que provoca reflexões sobre a vida e a morte. Em Futuro, a humanidade vive um estágio em que o avanço das inteligências artificiais fez com que se eliminasse qualquer sentimento de dor. Mas aí o tédio passa a dominar as relações e a sociedade redescobre o valor do sofrimento:
“Sofrer é, definitivamente, uma das maneiras de se perceber vivo.”
No último conto do livro, Silêncio, narrado em primeira pessoa, o personagem está num hospital depois de ter sido praticamente ressuscitado. Só, ele revê sua existência e profetiza:
“Não foi desta vez que virei defunto.
Não foi desta vez que consegui aquietar as vozes e ouvir o silêncio que só eu sou capaz de produzir, porque, para que eu possa fazer isso, eu preciso não renunciar à vida, mas, talvez, renunciar à morte.”

Ficha técnica:
Título: Amargo
Autor: Renato Klieger
Editora: Opera Editorial, 100 pgs
Preço:R$ 44,80

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.
Foto em destaque de Renato Klieger: divulgação.
Imagem da capa do livro: divulgação.
Foto de Maurício Mellone: divulgação.


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