O que começa como escassez demográfica revela uma mudança silenciosa nas relações
Existe um movimento silencioso acontecendo nas relações, mas ele já não pode mais
ser explicado apenas pelo comportamento. Em alguns contextos, ele já virou modelo de
negócios. E, na minha leitura, esse talvez seja um dos sinais mais claros de que não
estamos apenas modificando a forma de nos relacionar — estamos mudando o valor que
atribuímos ao outro.
Nos últimos tempos, ganhou força o chamado “boy sober”, meu artigo anterior aqui na
coluna. Criado por uma mulher, o conceito não fala sobre homens em si, mas sobre uma
decisão feminina: pausar vínculos emocionais diante do desgaste, da inconsistência e,
muitas vezes, de relações abusivas. É escolha consciente. Menos envolvimento.
Mais critério.
Mas, enquanto esse movimento reorganiza o campo emocional, outro fenômeno —
em um cenário completamente diferente — mostra o que acontece quando essa
mudança avança para a prática do cotidiano.
Quando a escassez vira modelo de negócios
Na Letônia, país no norte da Europa, o desequilíbrio entre homens e mulheres não é
percepção, é dado.
O país tem cerca de 15% mais mulheres do que homens. Entre idosos, essa diferença
pode chegar a quase o dobro e o problema se intensifica entre os homens com mais de
65 anos. A explicação está em fatores conhecidos: homens vivem menos, se expõem mais a riscos e historicamente cuidam menos da própria saúde.
Mas, o que me chama atenção não é apenas o número. É o que esse dado produz. Com
menos homens disponíveis na população, tarefas que antes estavam inseridas dentro de uma lógica de parceria passam a ser resolvidas de forma objetiva: por contratação.
E aqui, entra um ponto interessante. Uma das empresas que atuam neste mercado, a
Komanda24 (komanda24.com) anuncia profissionais descritos como “homens com
mãos de ouro”, habilitados para consertar encanamentos, instalar televisores, cortinas e
pintar paredes. Ou seja, aquilo que antes era, muitas vezes, esperado dentro de uma
relação, agora é apresentado como competência técnica — e vendido como serviço.
Sem vínculo. Sem expectativa. Sem envolvimento.
E mais, este mercado não é apenas funcional. Ele é lucrativo. Profissionais do
segmento podem faturar até 300 dólares por dia, o que equivale a aproximadamente
R$ 1.500 por dia, considerando a média de câmbio atual. Na prática, estamos
falando de uma transformação clara: a ausência masculina deixou de ser apenas uma
questão social e passou a sustentar um modelo de negócios.
Relato da nova realidade
Uma moradora letã contou ao jornal britânico The Sun, que trabalha em festivais onde 98% dos colegas
são mulheres. E completou, de forma simples, mas bastante reveladora: “Não há
problema nisso, mas é por essa razão que todas as minhas amigas foram para o exterior
e encontraram namorados lá.” Esse tipo de fala, para mim, diz muito, porque não é uma
reclamação. É uma constatação. E talvez, esse seja o ponto mais interessante: quando a
falta deixa de ser discutida e passa a ser contornada.
Brasil: não é falta, é decisão
No Brasil, o cenário é diferente, embora não menos significativo. O país também tem
mais mulheres do que homens. Segundo o censo demográfico de 2022, do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE), somos cerca de 6 milhões a mais, com uma
proporção entre 92 e 94 homens para cada 100 mulheres. Assim como na Letônia, os
homens também vivem menos e morrem mais cedo. No entanto, aqui está o ponto que, na
minha visão, muda tudo: no Brasil não há escassez suficiente para justificar esse
movimento por si só. E ainda assim, o “marido de aluguel” existe — e cresce. Só que
no nosso país, ele não nasce da falta. Nasce da escolha. Não é porque não há homens. É
porque, muitas vezes, eles não ocupam mais o lugar que se esperava dentro da dinâmica
cotidiana. E isso não é sobre habilidade técnica, apenas. É sobre presença.
Quando colocamos os dois cenários lado a lado, a diferença é clara, mas o resultado
começa a se aproximar. Na Letônia, escassez real, e no Brasil, expectativa não atendida.
Na Letônia, a ausência criou o modelo de negócios. No Brasil, a experiência começa a
levar ao mesmo caminho. E aqui entra uma leitura que considero importante: o serviço
não está substituindo apenas tarefas. O serviço começa, aos poucos, a suprir a necessidade de
depender do outro.
Talvez não estejamos diante de uma crise de conexão e, sim, de uma redefinição de valor. O outro deixa de ser necessidade implícita e passa a ser escolha consciente. E quando é escolha, ela precisa fazer sentido. Caso contrário, não há esforço para ajustar. Há substituição. Aos meus olhos, não fala sobre frieza. É sobre um novo tipo de lucidez. Não é que as pessoas não queiram mais se relacionar. Elas só não estão mais dispostas a sustentar o que não funciona. E quando o vínculo deixa de cumprir seu papel, ele deixa de ser mantido.
Enquanto o governo da Letônia busca enfrentar o problema com políticas de saúde e
incentivo ao crescimento populacional, a vida segue encontrando seus próprios caminhos — mais
rápidos, mais diretos e, muitas vezes, mais práticos do que qualquer planejamento
institucional consegue prever.
E no meio disso tudo, fica uma inquietação que vou dividir com vocês. Se aprendemos a
viver sem depender (falo como parceiros), será que ainda sabemos viver juntos?
Até breve queridas leitoras e leitores!

Foto em destaque: reprodução da Internet / divulgação.
Foto de Simone Magalhães: divulgação.


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