Novamente um clarão explode como o flash de antigas máquinas fotográficas, derramando sobre o quintal uma imensa palidez, levando-me, rapidamente, a buscar abrigo debaixo de um ralo e frio lençol, aguardando o rugido potente de outra trovoada.
Desde a madrugada a chuva intensa e contínua, à maneira do sol nos dias de calor, invade as frestas das telhas quebradas, enchendo panelas e bacias improvisadas que se multiplicam sobre camas e outros móveis.
Minha mãe, expedindo providências, movimenta-se de um lado para o outro, tendo os pés submersos na água turva que já alcançava os cômodos daquela pequenina casa.
Fugindo ao vozerio apreensivo dos adultos detenho-me a observar palitos de fósforos, tampas de garrafa, tocos de lápis e algumas sandálias que boiam aleatoriamente pela sala, lembrando-me dos barquinhos de papel que eu costumava dispor sobre as poças que os dias de chuva formava. Abraço as pernas, sentado sobreo colchão fino e úmido, pensando numa solução para afugentar novos temporais: arranjar um caco de telha e desenhar um sol gigante na terra enlameada do quintal.

Foto em destaque: divulgação.


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