Vencedor do prêmio Oceanos/2025 e finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura, Ressuscitar mamutes, romance da escritora paulistana Silvana Tavano, lançado pela Autêntica Contemporânea, é uma reflexão íntima e profunda sobre o tempo, o luto e a reconstrução das lembranças de uma filha da mãe que faleceu recentemente. Com uma linguagem fragmentária e não linear, a obra mescla ciência, ensaio, memória e literatura.

A partir de uma premissa inusitada, ou seja, a possibilidade científica de trazer mamutes — animais pré-históricos, da família dos elefantes atuais, extintos há 5.600 anos — de volta à vida, a autora acompanha uma mulher em busca da própria história familiar, em especial o resgate de sua relação com a mãe já falecida.

Nascida na capital paulista em 1957, Silvana Tavano formou-se em jornalismo pela ECA/USP e fez pós-graduação em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz. Trabalhou em revistas femininas — fez parte da equipe que lançou no país a revista Marie Claire/Editora Globo — e iniciou sua carreira na literatura escrevendo vários livros para o público infanto-juvenil. Seu primeiro romance, O último sábado de julho amanhece quieto/2022, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Já Ressuscitar mamutes, seu segundo romance lançado em 2024, teve grande repercussão junto à crítica e ao público graças ao prêmio Oceanos e às demais indicações.

O estilo não linear de narrar a saga de uma mulher no resgate da própria história fica marcado desde a maneira que divide a obra: não são capítulos formais; são intertítulos, sendo que o principal e mais longo é Descongelar o tempo Mãe, com mais de 50 páginas em que a relação mãe filha é esmiuçada, revivida. No entanto, as primeiras páginas são dedicadas aos experimentos científicos de ressurreição de mamutes, numa associação à reconstrução afetiva entre a narradora e a mãe falecida.

A cara do pai era o que todos viam na menina, na adolescente e na mulher que fui até alguns anos atrás. O rosto da mãe foi aparecendo aos poucos. É como se ela emergisse de dentro, da camada mais profunda da pele, modificando os traços herdados do pai. Reconheço minha mãe envelhecendo em mim.

Outra marca do estilo da autora é a forma criativa com que constrói diálogos: não há a divisão formal entre os personagens, as frases são contínuas e o leitor logo descobre quem fala com quem:

O que você acha que tem pra contar? Não sei, mas pelo visto você já contou de mim pra ele, daí fiquei curiosa. Caí na risada e ela se irritou, larga mão de ser boba, trocamos duas palavras na reunião de condomínio, é um senhor muito distinto, qual o problema? Problema nenhum, mãe, tô vendo é solução! Ela achou graça, mas disfarçou e foi emendando, nem penso nisso, deus me livre, homem nunca mais, já passei da idade. Ela faria quarenta e um anos dali a um mês.

A notícia mais triste chega para a narradora de forma inusitada, o leitor precisa de atenção para entender:

Um médico abriu a porta e sentou-se ao nosso lado, minha irmã e eu, ouvindo que infelizmenteelanãotinharesistidoapressãoarterialuminfartesintomuito,
a notícia que chegou sem vírgula, sem sentido.

No final da obra, com o intertítulo Amor, a escritora narra a história daquela família destacando os anos e os fatos ocorridos no período. O diferencial é que o tempo verbal utilizado é o pretérito do futuro: fariatrabalhariacomeçariateriadaria à luz uma avó que não tinha ideia do quanto ainda poderia amar.

Silvana Tavano cria uma obra sensível, com uma linguagem poética e introspectiva. No entanto, a fragmentação e a construção não linear pode desagradar parte dos leitores. Particularmente a introdução, com o detalhamento científico sobe mamutes, me cansou. Porém, quando a história da filha e sua relação afetiva com a mãe ganha força, a autora prende profundamente a atenção de quem lê.

Ficha técnica:

Título: Ressuscitar mamutes

Autora: Silvana Tavano

Editora: Autêntica Contemporânea,120 pgs

Preço: R$64,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Silvana Tavano: divulgação.

Imagem da capa do livro: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

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Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

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