Com a infinidade de lançamentos literários que convivemos, é natural que escapem da nossa visão diversas obras, muitas delas de grande valor. É o caso de Canção para ninar menino grande da escritora mineira Conceição Evaristo. O livro foi lançado em 2018 e, por diversos motivos mas principalmente por desconforto da própria escritora, ganhou esta nova versão, da Pallas Editora, com histórias de outras mulheres que na primeira versão só foram citadas. Esta segunda edição, a quarta reimpressão de 2025, não escapou do meu olhar e do meu encantamento.
O romance trata de uma história de amor, mas que Conceição Evaristo insiste em dizer que são “de amores, e muitas são as pessoas amantes”. Na contracapa, o escritor Jeferson Tenório diz que o livro é um mosaico afetuoso de experiências negras:
“Trata-se de um canto amoroso e dolorido. Na figura do personagem Fio Jasmim, Conceição Evaristo discute com maestria as contradições e complexidades em torno da masculinidade de homens negros e os efeitos nas relações com as mulheres negras. Um tributo ao amor sob uma ótica poucas vezes vista na literatura brasileira”, diz Jeferson Tenório.
“Este livro é oferecido a todas as pessoas que se enveredam pelos caminhos da paixão e que, mesmo se resfolegando em meio a muitas pedras, não se esquecem do gozo que as águas permitem.
É uma celebração ao amor e às suas demências.
É ainda um júbilo à vida, que me permite embaralhar tudo: vivência e criação, vivência e escrita. Escrevivência.”
Na primeira página da obra, Conceição Evaristo diz que o livro é dedicado aos apaixonados. E logo fala sobre seu método de escrita, a escrevivência, só escreve sobre o que se vive, o que se sente, sobre o que ouve das pessoas. Em Canção para ninar menino grande são histórias de amor de mulheres que passaram pela vida de Fio Jasmim, um ajudante de maquinista de trem que viaja pelo país e encanta as mulheres.
Este é o sétimo livro publicado (alguns deles com edições em várias línguas), de uma obra de contos, crônicas, poesias, ensaios e romances. Mineira de Belo Horizonte, Conceição Evaristo é formada em letras pela UFRJ, mestre em Literatura Brasileira pela PUC/Rio e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Premiada no Brasil e no exterior — Olhos d’água venceu o prêmio Jabuti/2015 —, a escritora foi condecorada pelo governo de Minas Gerais pelo conjunto da obra e em 2022 tomou posse na Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência na USP.
Com 136 páginas, o livro é composto de uma pequena introdução, 16 capítulos (a maioria deles com títulos dos nomes das mulheres da vida de Fio Jasmim) e um posfácio. Sempre com frases curtas, numa narrativa fluente, a autora traça o perfil de cada mulher de uma maneira concisa. Cada capítulo com a história de uma mulher funciona como um conto, que se junta aos demais, tendo Fio Jasmim como condutor do romance.
“Fio Jasmim estava com quarenta e quatro anos e, desde os vinte, elegera Pérola Maria como sua esposa em cerimônia religiosa e civil. Viviam bem, segundo as palavras dele. A fala de Pérola, nem eu nem Tina alcançamos. Uma vez, ouvimos alguém dizer que o prazer de Pérola era ter filhos. Com Pérola, Fio Jasmim tinha oito filhos e estavam em vésperas do nono.”
Além das histórias das mulheres da vida de Fio Jasmim, chama a atenção as localidades onde elas vivem, são nomes curiosos que guardam em si o modo de vida local e o da própria personagem. É o caso de Chegada Feliz onde Pérola e Jasmim vivem, além de Vale dos Laranjais, onde mora Neide Paranhos da Silva.
“O filho de Fio Jasmim feito em Neide Paranhos da Silva, segundo um desejo dela, foi concebido em época da colheita do fruto temporão. Neide estava apaziguada com ela mesma e guardava a certeza de que iria engravidar. ”
Há ainda a Vila Azul e o Rio Naipã, onde Aurora Correa Liberato se banha. A cidade Alma das Flores da enfermeira Angelina Devaneia da Cruz, banhada pelo Rio das Mortes e Remanso Velho, onde vive Antonieta Véritas da Silva:
“E foi tão ardorosa a entrega dos dois, que Fio Jasmim, ao narrar o recente encontro com Antonieta, provocou conhecidos desejos nos maquinistas. ”
Na introdução do livro, a autora explica como é a relação deste jovem negro e sedutor com as diversas mulheres que conhece. “As particularidades da relação de cada uma no conjunto ajudam compor a imagem caleidoscópica de Fio Jasmim e os sentidos e os dessentidos dos fios amorosos ou enganosos das deambulações de Jasmim, na vida das mulheres. Ou, quem sabe, o contrário, entender o sentido das mulheres no movediço terreno da vida sentimental de Fio Jasmim.”
De tantas histórias, uma merece destaque. É a de Juventina Maria Perpétua/Tina. Eles se conheceram quando ela acabara de completar dezessete anos e ele gozava de seus trinta e três anos.
“Tina bendizia prazerosa a virgindade que ela carregava em si e agradecia aos gestos comedidos de Fio que inventava formas de lhe fazer prazer.
Nunca experimentou a ressonância desses sentimentos, nunca viveu o retorno de uma paixão de Fio Jasmim para ela. Fez da vida só um tempo de amor só. Amou sozinha. Amou só.”
Juventina formou-se professora de música, compositora, e criou para o amado a “Canção para ninar menino grande’. Foram mais de 35 anos juntos, ele com as duas, Pérola e ela. A autora ressalta que Tina nunca pediu nada e “depois de tantos anos, Fio Jasmim havia descoberto que Tina era uma mulher que se fez livre. Tão livre que tinha ido. Mais livre do que ele, homem viageiro até por profissão, e que, porém, tinha ficado para trás.”
Encantamento. Acho que este é o sentimento ao terminar a leitura de Canção para ninar menino grande. Encantado com a fluidez da narrativa de Conceição Evaristo, encantado com aquelas mulheres e suas histórias de amor. Na orelha do livro, o escritor português Valter Hugo Mãe também expressa este encantamento e, como grande escritor dos nossos tempos, vai além:
“Por todos os motivos, Conceição Evaristo é assim. A História faz dela sagrada. Uma escritora sagrada, porque erguida em suas palavras vai toda a humanidade, e digo toda porque a inscrição que faz dos povos negros é a única maneira de se poder, de verdade, falar numa ideia universal de Literatura, de Cultura, de Arte, de Pessoa, de Amor, de Sofrimento, de Futuro. Só de joelhos se lê Conceição Evaristo. Em prece.”

Ficha técnica:
Título: Canção para ninar menino grande
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas, 136pgs
Preço: R$42,00

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.
Foto em destaque de Conceição Evaristo: divulgação.
Imagem da capa do livro : divulgação.
Foto de Maurício Mellone: divulgação.


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