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Concriz, pintassilgo, galo-de-campina, rolinha, azulão, canário-da-terra eram os principais passarinhos criados pelo meu pai em gaiolas, na minha infância, no interior.

Às vezes eu tinha como tarefa limpar todas aquelas gaiolas em que os pássaros viviam — digo, sobreviviam —, e repor o alimento e renovar a água. De início, fazia-o de malgrado. Por alguma razão, talvez por não encontrar sentido naquelas aves tão lindas, tão ágeis, tão cantantes, tão diversas em coloração e formas estarem presas.

Se, de um lado, meu pai mandava soltar os presos encarcerados que já tinham cumprido suas penas, mas continuavam presos, por outro, por capricho do promotor público, fazia o papel de carcereiro doméstico com suas aves de estimação engaioladas.

Mas, na execução da minha tarefa infantil, sabia fazê-la direitinho, mesmo de malgrado, de tanto vê-la sendo realizada: com um cabo longo trazendo na extremidade um gancho, retirava cada gaiola do alto da parede e a dispunha em um prego mais baixo; abria a habitação engenhosamente construída pelos artesãos — até hoje admiro essas construções de prender passarinhos —, sob o espalhafato do medo daquele pequeno ser vivo diante de uma pequena mão infantil. Com leveza, alcançava o recipiente de água para repor com água limpa e o devolvia ao lugar original. Em seguida, puxava a gaveta que fazia de piso à gaiola e raspava as fezes da ave; trazia o outro compartimento móvel para o lado de fora da gaiola e soprava as pequenas cascas dos alpistes e painços; e, por fim, enganchava metade de um maxixe nas varetas da gaiola, feitas de bambu nativo ou carnaúba. Essa era a base da alimentação dos engaiolados da rua Barão de Vila Bela, onde morávamos.

Coincidentemente, essa era a mesma rua em que existia a Cadeia Pública de Pesqueira, hoje transformada numa espécie de casa de cultura, de onde, criança, vi inúmeras vezes homens encarcerados junto às grades de uma janela no alto do edifício. Assim, eram as aves da minha casa e de tantas outras residências interioranas que, infelizmente, nunca viraram casas de cultura até hoje!

Todas essas lembranças vieram com a clareza desta manhã inacreditavelmente ensolarada e fria de São Paulo. De minha poltrona, vejo, pela janela, dois bem-te-vis em cima do paredão cinza e preto que um dia fora a lateral do Cine Comodoro — onde assisti ao meu primeiro filme em Cinerama. Cantavam insistentemente com sua vocalização inconfundível. Pense numa alegria em meio à selva. De pedra. E de muros. E de grades.

Como não lembrar da canção Canta Coração, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, em momentos singelos como os dos bem-te-vis no alto da parede do passado?

Canta, canta, passarinho
Canta, canta, miudinho
Na palma da minha mão
Quero ver você voando
Quero ouvir você cantando
Quero paz no coração

Avoa, avoa, passarinho, os alçapões das grandes cidades são outros. E muitos. Só não são piores porque vocês existem.

Bairro de Campos Elísios, São Paulo, julho, 2026.

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque do muro do Cine Comodoro: Angelo Brás Fernandes Callou

Foto dos pássaros : Angelo Brás Fernandes Callou

Foto do autor : autorretrato.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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