Screenshot 20260630 141353

Já vai embora de novo! — disse minha mãe ao deixar a casa dela naquele dezembro de 1984. Ela se referia ao “de novo”: possivelmente à estada de dois anos no Rio Grande do Sul, quando fazia pós-graduação, e à temporada breve, e então mais recente, em que trabalhei em São Paulo. Mas, naquele momento, ela percebeu que minha saída era para sempre. Como de fato foi. Eu tinha 30 anos.

Diferente dos jovens da minha geração, que só deixavam a casa dos pais para se casar, no dia em que fui-me embora, saí para construir uma vida, minha vida, uma individuação com certo grau de excentricidade, é verdade, sem escoras, sem companhias. Não à toa, fui indagado pelo proprietário do apartamento que aluguei se eu havia me desentendido com minha família! Foi quando pude perceber a “chantagem” ou o totalitarismo que a estrutura familiar na sociedade exerce sobre a condição social do indivíduo. Disse ao meu locador algo como Caetano Veloso e Gilberto Gil dizem na canção No Dia Em Que Eu Vim-me Embora (1968): “no dia em que vim embora / não teve nada de mais.”

À primeira frase do romance O Aniversário, do romano Andrea Bajani — Companhia das Letras, 2026, Prêmio Strega 2025 — não escapei de mim mesmo: “Na última vez que vi minha mãe, ela me acompanhou até a porta para se despedir.” Voltei a 1984 e ao meu apartamento alugado no bairro dos Aflitos, no Recife, minha primeira moradia, ainda que, no meu caso, não tenha sido a última vez que vi minha mãe. Mas, como filho, sobre o mesmo teto, sim. 

Daí por diante a leitura de O Aniversário é um mergulho no processo de conquista de autonomia psíquica de um homem de 41 anos que deixa de visitar a casa dos pais para nunca mais vê-los durante 10 anos. Diz o narrador: “Foram os melhores dez anos da minha vida.”

Se para muitos o ato de deixar os pais — e, no caso de O Aniversário, o protagonista não fornece sequer um rastro para contato: troca o número de telefone, de endereço, muda de cidade, de país —, soa como ingratidão. No desenrolar do romance, o leitor vai percebendo, dada a clareza do narrador — ou será a frieza da abordagem? —, talvez seja correto dizer: o enfrentamento da realidade familiar desnudando peça por peça as vestimentas que encobrem o pai, a mãe, a irmã e a si mesmo, através do que ficou na memória, desde a infância. A ingratidão percebida numa visão superficial, vai se transformando pouco a pouco no esmiuçar da narrativa num convívio familiar da ordem do inviável. O narrador ou “mata” os pais, no simbolismo freudiano, ou sucumbe na busca por sua própria autonomia psíquica. 

O que mais chama a atenção em O Aniversário é a maneira nua e crua como o narrador descreve a própria mãe e a condição de subserviência, autoanulação e total ausência de reflexão diante da vida e do marido violento. O sentimento de perplexidade e de revolta fica por conta do leitor. Ao narrador cabe, digamos, dissecar os processos familiares com a precisão cirúrgica que seu próprio processo de autonomia subjetiva exige, quase como condição sine qua non. Às contradições dessa figura materna vem-me à memória a canção Essa Mulher, de Joyce Moreno e Ana Terra, na voz de Elis Regina.

O Aniversário, de Andrea Bajani, reúne-se, a meu ver, pela honestidade sem concessões, a obras como A Invenção da Solidão, de Paul Auster, e Carta ao Pai, de Franz Kafka. É um romance para quem aprecia os corredores humanos, suas contradições, suas incertezas e uma quimera de felicidade.

Praia de Boa Viagem, Recife, junho de 2026

Ficha técnica:

Ttulo: O Aniversário

Autora: Andréa Bajani

Tradução: Iara Machado

Editora: Companhia das Letras, 137pgs, R$55,00

Angelo Brás Fernandes Callou

Foto em destaque de Andrea Bajani: Google.

Imagem da capa do livro: Angelo Brás Fernandes Callou.

Foto do autor do texto: autorretrato.

Angelo BrásAuthor posts

Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

No comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois + seis =