A esteira se movimenta e, em segundos, inicio minha corrida tentando ativar alguma reserva de entusiasmo. É enfadonho correr sem sair do lugar. Gosto dessa atividade ao ar livre, na rua!
Tento abstrair o som alto, de bate-estaca, que se ouve aqui ininterruptamente, e dou uma espiada num televisor à minha esquerda, voltando-me rapidamente à direita para observar a entrada de uma moça cujas curvas acentuadas pela lycra aderente demonstram estar em dia com seus exercícios.
Mas, pela vidraça à minha frente, o que vejo em ampla perspectiva é um desses conjuntos habitacionais populares. Percebo o quanto do projeto arquitetônico inicial já foi adulterado pela ação dos próprios condôminos que vão desconfigurando fachadas, áreas comuns e outros espaços com pequenas construções irregulares, além da deterioração que se vê por toda parte.
À entrada do habitacional, um grupo de homens está ao redor de uma enorme panela que fumega sobre uma fogueira improvisada. Dois deles se esforçam para desmembrar os restos de uma cama de madeira e que servirá para alimentar o fogo. Um deles, com uma colher de pau de cabo comprido, mexe o caldo fervente e em seguida prova, satisfeito, na palma da mão. Deu-me água na boca, francamente, só de pensar que poderia ser uma sopa. Àquela hora da tarde, hum… cairia muito bem!
Uma criança, acocorada junto a muito lixo, revira uns materiais de escritório que foram descartados ali, num espaço que já foi um parquinho infantil, pois é possível ver entre muitas tábuas e pneus velhos, um escorregador de concreto e a estrutura enferrujada de balanços, mas já sem os assentos. Uma bola cruza o espaço indo parar na rua, seguida por um menino ofegante e sem camisa, que a chuta de volta à quadra onde outros a esperam.
E a tarde está linda! A luz amarelada do sol, indiferente, se derrama sobre tudo, deixando tão bonita uma imensa árvore na calçada. Vê-se o quanto ela saboreia aquela luz quente que a banha e lhe ressalta as cores e suas vagens dependuradas.
Volto os olhos ao cronômetro da esteira e vou diminuindo a velocidade até que eu caminhe um pouco, antes de parar. Suei bastante e o ar condicionado já me incomoda. Treino “pago”, como se diz por aqui, cruzo a porta de saída afetado pelo choque térmico, mas sentindo um alívio nos ouvidos, e me detenho, por instantes, sob o sol daquele restinho de tarde. Olho mais uma vez as labaredas na panela preta, a criança e a árvore, e sigo em direção à minha casa.

Foto: Diego Cruz Cavalcanti.
Foto em destaque: Alex Sobreira.


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