J MUNIZ DE BRITTO 2

Acabo de ser informado do falecimento, hoje, de Jomard Muniz de Britto: cineasta, professor universitário, poeta, escritor, filósofo, agitador cultural e um enfant terrible na cena cultural e política da cidade do Recife.

Passei parte da minha adolescência e da vida universitária vendo Jomard Muniz circular pelas ruas do bairro da Boa Vista. A Livraria Livro 7 era o lugar onde eu mais o encontrava, nas tardes recifenses.

Eu já tinha conhecimento de Jomard Muniz de Britto por suas peripécias culturais, sempre adiante de seu tempo. Foi a partir dessa memória que o convidei — muitos anos depois de observá-lo vivendo as ruas do Recife — para uma aula dentro da disciplina Teoria da Comunicação, que eu ministrava no mestrado de Comunicação Rural da UFRPE, em meados dos anos 1990. Tenho até hoje, gravado em fita cassete, o registro desse momento.

Enfronhado na temática da pós-modernidade àquela altura, percebi que só Jomard poderia trazer novos contornos aos debates que eu desenvolvia com meus alunos, pois se tratava de uma abordagem ainda muito recente no campo da Comunicação.

Lembro-me muito bem de que, entre outros temas abordados, Jomard trouxe o pioneirismo do pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981) ao cunhar o termo pós-moderno na arte e na arquitetura. Tomei um susto.

De um lado, porque eu considerava que essa invenção conceitual havia surgido fora das fronteiras brasileiras; jamais ouvira falar de Mário Pedrosa nos cursos que frequentava com o professor Ciro Marcondes Filho na Universidade de São Paulo, este pioneiro nas questões pós-modernas nos estudos de comunicação no Brasil. Autores franceses, ingleses e um egípcio-americano (entre eles Baudrillard, Virilio, Lyotard, Harvey e Ihab Hassan) contribuíram, em boa medida, para a base teórica do projeto Nova Teoria da Comunicação, que Marcondes Filho desenvolveu até seu falecimento, em 2020.

De outro lado, também me recordo muito bem da sensação de que, ao desconhecer o papel de Mário Pedrosa nesse campo das discussões pós-modernas, coloquei-me na condição de aluno junto aos meus próprios discentes. Devo a Jomard Muniz de Britto aquela tarde de aprendizados, na qual o professor virou estudante diante de um grande mestre! Algum tempo depois, li o artigo de Mário Pedrosa, Arte ambiental, arte pós-moderna, Hélio Oiticica, publicado no Correio da Manhã em 1966.

Quando a Cinemateca Pernambucana foi fundada, em 2018, tive a oportunidade de assistir aos filmes de Jomard Muniz de Britto e a produções que abordam a importância intelectual do “famigerado”, como o intitula a cineasta Luci Alcântara no seu documentário JMB, o Famigerado (2011). Ali confirmei a grandeza intelectual de Jomard, que viveu como ninguém a antropologia das ruas do Recife.

Nos dias atuais, marcados por uma ignorância política que parece circular em 50% de tudo, Jomard Muniz de Britto fará falta. Muita falta!

Praia de Boa Viagem, Recife, 12 de outubro de 2026. 

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque de Jomard Muniz de Brito: colhida no site da Revista Acrobata – literatura, artes visuais e outros desequilíbrios.

Foto de Angelo Brás Fernandes Callou: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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