Você já deve ter percebido que existem alguns homens que transferem para a parceira uma função que, em sua origem, pertenceu à figura materna. Corremos o risco de justificar ou julgar essa conduta anacrônica. Ao mesmo tempo, não queremos invalidar o fato de a mulher desejar cuidar do seu amado, enchendo-o de mimos, se isso também faz parte da sexualidade e é do seu agrado. Talvez, partindo do ponto de vista estrutural, o fenômeno seja muito mais profundo e involuntário.
1. O que podemos chamar de “imaturidade” é, na verdade, uma posição subjetiva
A psicanálise não opera com o conceito de maturidade como algo linear ou cronológico. Prefere falar em posicionamento psíquico. Muitos homens permanecem ancorados no que Freud descreveu como uma relação de objeto anaclítica — ou seja, uma relação em que o outro (a mulher) é desejada primariamente como suporte, como base, como aquele que sustenta e provê. Isso não é, em si, uma falha moral; é uma herança da estrutura edípica não plenamente atravessada.
Quando um bebê nasce, sua relação com a mãe é de dependência absoluta (Winnicott). Ele não distingue entre si e o outro; a mãe é uma extensão de seu ser, uma “mãe ambiente” que regula suas necessidades fisiológicas e afetivas. Para se tornar um sujeito autônomo, é necessário que esse vínculo primário seja gradativamente simbolizado — ou seja, que a mãe seja reconhecida como um outro separado, com desejos próprios, e que o filho ou filha aceite a castração de não ser o centro absoluto do mundo materno.
O que observamos em muitos homens é a fixação parcial nessa fase. A mulher adulta é inconscientemente investida como a “mãe primitiva” que regula o afeto e o desconforto emocional; organiza o ambiente doméstico e relacional; oferece reconhecimento e validação constante; e absorve e administra a ansiedade do parceiro.
Isso não ocorre porque ele “não quis aprender”, mas porque sua estrutura psíquica ainda opera com uma economia libidinal voltada para a recepção, não para a doação. A saída do lugar de filho para o lugar de parceiro exige um luto — o luto da onipotência infantil, o luto de ser o centro dos cuidados.
2. A cumplicidade inconsciente da cultura e da família
Essa dinâmica não é apenas individual, ela é endossada culturalmente. Em muitas sociedades, o homem é criado com a permissão tácita para não desenvolver certas competências emocionais e domésticas. Ele pode ser bem-sucedido profissionalmente, contudo permanece, no âmbito do afeto e do cuidado cotidiano, numa posição de beneficiário passivo. A própria mãe, muitas vezes, ao superproteger o filho homem, o mantém nesse lugar de “eterno menino” — e, ironicamente, entrega-o a outra mulher para que complete a tarefa.
Há também uma dimensão que chamamos de delegação inconsciente: o homem transfere para a parceira a função de continente emocional que sua mãe exercia, mas agora com a exigência adicional de que ela também seja desejável sexualmente. É um nó complexo: exige-se que a mulher seja mãe e amante, cuidadora e objeto de desejo, muitas vezes sem que ele mesmo ocupe o lugar de provedor afetivo equivalente.
3. O preço dessa posição para o homem e para a relação
Aqui cabe um esclarecimento: esse arranjo não é isento de sofrimento para o homem. Ele pode vivenciar uma dependência silenciosa, que gera ressentimento, impotência ou mesmo explosões de agressividade quando a parceira falha em corresponder à expectativa materna. Ele pode se sentir perseguido pela própria necessidade, sem compreender porque “precisa tanto” da aprovação ou do cuidado dela. Há, nessa dinâmica, uma servidão involuntária: ele não é livre, porque sua estabilidade emocional depende do outro.
Para a mulher, o ônus é evidente: ela pode se ver sobrecarregada, duplamente responsável por si e por ele, e muitas vezes ressente-se de ter que ocupar um lugar que não escolheu. A relação se torna assimétrica, e o desejo sexual, muitas vezes, definha — porque o desejo genuíno floresce entre iguais, não entre quem cuida e quem é cuidado como uma criança.
4. A saída não está no “amadurecimento forçado”, mas no atravessamento da falta
O caminho não é dizer ao homem “cresça”, como se isso fosse uma ordem. O que a Psicanálise propõe é outra coisa: ajudá-lo a suportar a falta. Ele busca na mulher a mãe, justamente porque não elaborou a experiência fundamental de que a mãe não é onipresente, de que há um vazio entre suas necessidades e sua satisfação. Esse vazio é a condição do desejo.
Mas como isso acontece?
Quando ele começa a perceber que a parceira tem desejos próprios que não incluem cuidar dele o tempo todo. Ele pode sobreviver à frustração sem desmoronar. Cuidar de si mesmo não é uma perda, mas uma conquista de autonomia.
É a partir daí que ele começa a se deslocar da posição de filho para a de parceiro. Não porque aprendeu uma lição, mas porque elaborou o luto da onipotência infantil e pôde encontrar prazer em ser sujeito de sua própria vida, e não objeto dos cuidados do outro.
5. Por que isso parece mais frequente em homens?
Não é que as mulheres não façam o mesmo. Muitas mulheres também buscam no parceiro uma figura paterna provedora e protetora. Contudo, a socialização feminina tradicionalmente convoca a mulher a ocupar o lugar de cuidadora desde cedo, o que a força ao amadurecimento funcional precoce — mesmo que, internamente, ela também carregue suas próprias fixações infantis. O homem, em contrapartida, muitas vezes é isentado desse lugar de cuidado, o que permite que a fixação na posição de recebedor permaneça mais visível, mais “grosseira”, por assim dizer.
O homem que busca na mulher a mãe, não é alguém que se recusa a crescer; é alguém que ainda não encontrou um caminho simbólico para se separar, porque essa separação exige lidar com a solidão, com o desamparo e com a responsabilidade sobre si mesmo — tarefas que nossa cultura frequentemente não lhe ensina a nomear.
A análise, quando bem conduzida, não o converte em um “homem maduro” no sentido moral do termo. Ela o ajuda a habitar sua própria falta sem precisar que o outro a preencha. E quando isso acontece, ele pode, enfim, encontrar a mulher não como mãe, mas como outra — alguém com quem compartilhar a travessia, e não alguém que o carregue nas costas.

Imagem em destaque: gerada por IA.
Foto do autor: divulgação.


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