Coletivo Caminhos da Arte foto grupo

Sempre que possível, bato à porta e entro nas casas de pessoas importantes que viveram para a arte, a literatura e a ciência.

Espalhadas pelo mundo, essas residências se tornaram museus que preservam a memória de homens e mulheres que trouxeram contribuições significativas à humanidade ou, mais especificamente, a cada um de nós.

Como não entrar na casa em que viveu Pablo Neruda em Valparaíso, depois de ter lido Cem Sonetos de Amor? Ou na de Fernando Pessoa, em Lisboa, pelo seu poema Tabacaria? Como também na casa onde viveu Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, por seus filmes e fados? Ainda em Portugal, como não visitar o Castelo de Belmonte, onde nasceu Pedro Álvares Cabral? Como não visitar as casas onde Freud construiu a psicanálise, em Viena e em Londres, quando se tem na memória a leitura de O Mal-estar na Cultura e Psicologia das Massas e Análise do Eu?

Acrescentem-se a casa-museu de Frida Kahlo e Diego Rivera, na Cidade do México; o Museu Rodin, onde o escultor morou e manteve seu ateliê em Paris; a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, em São Paulo; e até as portas do edifício onde Clarice Lispector morou no Leme, no Rio de Janeiro.

Quem sabe, um dia, possamos entrar na casa onde ela passou a infância, no Recife. O sobrado está quase ao rés do chão pelo descaso recorrente das autoridades (des)governantes. Macabéa, G.H., Lóri, Joana, Ana, Ângela Pralini, Sofia e tantas outras personagens de Clarice Lispector reclamam por uma moradia decente na casa onde tudo começou!

Mas há um apartamento em que não consegui entrar, pois estava fechado à visitação pública, e que acabou por me fazer recordar todos esses lugares visitados: o de Jorge Luis Borges, na rua Maipú, em Buenos Aires. Tais caminhos bifurcados da memória foram acionados ao aceitar o convite para escrever a apresentação da mostra Ocupação Caminhos, aonde meus pés me levam, em cartaz no próximo dia 9, na Galeria Raiz, no Recife. Mais especialmente, recordo-me do extraordinário conto de Borges, O Jardim de Veredas que se Bifurcam, quando observo as trajetórias múltiplas dos artistas e a diversidade de temas, formas e cores das telas que serão expostas. Explico.

Clélia Barqueta, Cleriston Andrade, Jéssica Martins, Joka Cordeiro e Kátia Angelim são os artistas visuais da mostra Ocupação Caminhos. Vindos de itinerários diversos, suas trajetórias se cruzaram em 2023 com a fundação do Coletivo Caminhos da Arte.

Caminho 1: Clélia vem das letras (Alemão, Inglês e Linguística) e enveredou pela pintura. Iniciou com o interesse voltado para as cores e dedicou-se às formas figurativas, criando um colorido vibrante que se tornou a marca de seu trabalho.

Clélia Barqueta. Título: Divino Ócio. Ano: 2026. Tamanho: 60cm x 60cm. Técnica: acrílica sobre tela.
Foto: Clélia Barqueta.

Caminho 2: Cleriston tem uma trajetória consolidada como cartunista, músico e professor universitário que se bifurcou em uma pintura politicamente densa, colorida e questionadora, sem abandonar as marcas do passado nas telas do presente. Pinta o que imagina e provoca no observador a incerteza do que vê.

Cleriston Andrade. Ano: 2026. Tamanho: 50cm x 50cm. Ténica: acrílica sobre tela.
Foto: Cleriston Andrade.

Caminho 3: Jéssica tem um percurso integralmente trilhado nas artes plásticas há quarenta anos. Caminha por curvas, retas, dobras e esquinas, refletidas em uma pintura de jardins, janelas, flores, felinos, rostos e paisagens, com um traço próprio e inconfundível na diversidade de sua obra.

Jéssica Martins. Título: O Sonho de Clarice. Ano: 2026. Tamanho: 60cm x 180cm. Técnica: acrílica sobre tela.
Foto: Jéssica Martins.

Caminho 4: Joka nasceu em uma família de artistas e entrelaça o passado e o presente da memória pessoal em suas telas multicoloridas. Um trabalho pulsante que espelha sua visão vibrante do mundo.

Joka Cordeiro. Título: Caminhos do Coração. Ano: 2026. Tamanho: 60cm x 60cm. Técnica: acrílica sobre tela (espátula).
Foto: Joka Cordeiro.

Caminho 5: Kátia parte da arte e da técnica — a Arquitetura e sua dimensão humana e social — para transitar com desenvoltura pelo desenho a carvão, pela aquarela, pelo pastel seco e pelas pinturas a óleo e acrílica, veredas técnicas de sua arte.

Kátia Angelim. Título: Ladrilhos. Ano: 2026. Tamanho: 70cm x 90cm. Técnica: acrílica sobre tela.
Foto: Kátia Angelim.

A Ocupação Caminhos, aonde meus pés me levam, reúne conjuntos de telas desses artistas. Longe de ser um itinerário rígido — construído a partir de temáticas, técnicas ou composições específicas, ainda que muitas obras se associem —, a exposição convida o visitante a criar seus próprios percursos visuais. Espera-se que o público explore livremente a diversidade de rotas, temas, formas e cores que marcam tanto as trajetórias individuais dos criadores quanto a própria arte que realizam.

Essa multiplicidade de itinerários evoca, como um ato falho ou ao menos como metáfora, o conto de Jorge Luis Borges, O Jardim de Veredas que se Bifurcam. Uma narrativa no âmbito da literatura fantástica cujo tema é o tempo não cronológico ou linear (de passado, presente e futuro), mas de trajetórias com temporalidades concomitantes — uma espécie de labirinto no qual as linhas temporais se dividem em infinitas alternativas. Como sugere esta passagem da obra: Não existimos na maioria desses tempos; em alguns existe o senhor e não eu; noutros, eu, não o senhor; noutros, os dois. (p. 92).

Na Ocupação Caminhos, as possibilidades geradas por essas escolhas e de suas bifurcações, se não são infinitas como no conto de Borges, são quase impossíveis de serem totalmente realizadas. A partir dos quadros da mostra, um cálculo combinatório simples revela que um único visitante poderá escolher mais de 650.000 combinações de 5 quadros diferentes para compor sua parede subjetiva.

Assim, por trajetos em linha reta, para frente e para trás, em dobras de paredes, em zigue-zague, em círculos ou em diagonais — qual um labirinto borgiano —, o visitante poderá construir seus próprios caminhos visuais, abertos pelos artistas nessa exposição.

As portas da Galeria Raiz estão de par em par. Caminhem com seus pés. Bifurquem-se. Como a própria arte. Como a própria vida.

Praia de Boa Viagem, Recife, outubro de 2026.

Referências

Borges, Jorge Luis. O jardim de veredas que se bifurcam. In: Ficções. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.

Para uma análise acadêmica desse conto de Borges vide: Schwartz, Adriano. Tempo circular, pululação e fracasso em “O jardim de veredas que se bifurcam”, de Jorge Luis Borges: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/download/8668413/29533

Expediente

Exposição: Ocupação Caminhos, aonde meu pés me levam.

Local: Galeria Raiz. Rua da Moeda, 71, Recife Antigo. Recife (PE).

Abertura da exposição: 9 de outubro de 2026.

Hora: 18h

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque do Coletivo Caminhos da Arte (Cleriston Andrade, Jéssica Martins, Clélia Barqueta, Kátia Angelim e Joka Cordeiro): divulgação.

Imagem do cartaz: divulgação.

Foto de Angelo Brás Fernandes Callou: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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