A mais recente obra do escritor português Valter Hugo Mãe, Educação da tristeza, um lançamento da Biblioteca Azul, foi motivada por duas grandes perdas em sua vida: a morte precoce do sobrinho adolescente Eduardo Lemos, que já havia sido a inspiração para o livro O filho de mil homens/2011, e o falecimento de uma grande amiga, Isabel Lhamo.

Em 27 textos de não ficção, a maioria bem curtos, o autor traz reflexões íntimas e profundas sobre morte, luto, a passagem do tempo, como lidar com a presença e ausência das pessoas queridas que partem, além de filosofar sobre o sentido do amor e da vida. Numa edição muito bem cuidada, em que os textos são ilustrados pelo próprio autor, na orelha do livro, os editores afirmam que “com rara autoconsciência, Educação da tristeza é o cantinho escuro do quarto onde Valter se sente livre para rir de si mesmo, brincar, chorar, sentir saudades e, acima de tudo, se abrir para mostrar seu lado mais humano, falível e belo justamente por ser assim”.

Nascido em Angola em 1971, Valter Hugo Mãe é formado em Direito e fez pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Universidade do Porto. Considerado um dos mais importantes autores de língua portuguesa da atualidade, Valter já publicou romances, poesias, contos e livros para o público infantojuvenil. Além de literatura, ele também se dedica às artes plásticas e à música. Dentre os prêmios recebidos, destaque para o Prêmio José Saramago para o romance O remorso de Baltazar Serapião/2007 e o Prêmio Oceanos para A máquina de fazer espanhóis/2010; e em 2020 o livro Contra mim venceu o Grande Prêmio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores.

Impossível não se comover com a profundidade das reflexões do escritor português. A morte motivou a criação deste livro, mas Valter Hugo procura refletir sobre como continuar a viver apesar da dor. E vê na perda da amiga e do sobrinho este ensinamento.

Estás na morte. Digo que estás na morte porque sinto que é um lugar onde ainda vou chegar, quando descobrir o caminho, entender o mapa.
Eu penso que a morte é um lugar por dentro de nós, um território mapeado no caminho interior que todos temos e tememos
.”

O Eduardo passou mais de dois anos a ensinar a mais limpa e generosa arte de morrer. Os génios, como ele se tornou, educam até a morte, educam até Deus.
O Eduardo alcançou a sapiência. Viu a grandeza da vida, entendeu o sentido. No tabuleiro da vida, onde se busca o sentido, ele não perdeu. Ele entendeu.
”.

Poderia ficar aqui ressaltando trechos importantes da obra, como geralmente faço nas resenhas literárias. Mas se o fizesse, teria que enumerar os 27 textos, pois todos são comoventes, profundos, de extrema sensibilidade. No entanto, a  visão do autor sobre o tempo é peculiar e é urgente salientar:

A memória é a única possibilidade de regresso. Quem perde a memória está expulso.
Eu sei que amo os livros porque eles são a demora do tempo. Mas queria que este não fosse uma contagem passando. Preferia que fossem as pessoas juntas. Também paisagens, água limpa, o sol, muitos livros, muitos quadros, muitos discos. Que o tempo fosse o odor das maçãs verdes e o Leonard Cohen, a Elza Soares, o Johann Sebastian Bach e o Ney Matogrosso.


Para encerrar, destaco o derradeiro texto, Voltar ao livro, em que Valter Hugo reflete sobre o seu ofício, o de escrever, e sobre a dificuldade da criação.

Envelheço estupefacto, nada satisfeito com os vieses do corpo e com o resto de paciência que me morre.

“O problema é que esta folia, pelo que me altera, inventa tiques e manias para o ritual da escrita, o que faz com que a cada livro me dificulte mais e mais o exercício.

“Penso que existo numa ideia antiga que pessoas calmíssimas terão deixado ao mundo. Sou essa ideia dessas pessoas mortas e generosas. Só tenho de esperar entender essa ideia. Deixá-la intensa, não para saber que livro escrevo. Mas para saber quem sou. E, então, escrevo.”

Ficha técnica:

Título: Educação da tristeza

Autor: Valter Hugo Mãe

Editora: Biblioteca Azul, 208 pgs

Preço: R$74,90

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Valter Hugo Mãe: colhida no site da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino.

Foto da capa de Educação da tristeza: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.

Maurício MelloneAuthor posts

Maurício Mellone

Jornalista com mais de 40 anos de estrada, fez carreira na imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de imprensa.

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

13 − 7 =