Escola de Arte Saraiva foto 2

“Eu amo o centro do Recife.” A frase é repetida duas vezes durante o premiado filme Retratos Fantasmas, dirigido, roteirizado e narrado por Kleber Mendonça Filho.

Essa declaração amorosa ficou reverberando na minha cabeça durante e depois da sessão. Afinal, esse era um sentimento compartilhado — senão por toda a audiência, sobretudo por pessoas da minha geração ou de realidades próximas —, que viveram intensamente os bairros de Santo Antônio e da Boa Vista, centro dos acontecimentos culturais, políticos e do comércio da capital pernambucana.

Tal como em Retratos Fantasmas, conheço e me reconheço em todo o esquadrinhamento realizado pelo cineasta, inclusive no que a muitas pessoas é imperceptível: o piso das galerias, a vista do rio Capibaribe desde o mezanino do Cinema São Luiz, as “livrarias” sobre as calçadas, o vento fresco do final da tarde na esquina da Av. Conde da Boa Vista com a rua da Aurora. Mas é pelo bairro da Boa Vista, à margem esquerda do Rio Capibaribe — a nossa Rive Gauche recifense —, que mais morro de amores.

Parte da minha infância e toda a minha adolescência vivi nessa Rive Gauche. É como se o Poema de Sete Faces caísse sobre mim como uma carapuça. Pretensamente, parafraseio Drummond:

Quando eu nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Angelo! ser gauche na vida.

A Boa Vista se transformou no tempo. Leia-se: muitos casarões vieram ao rés do chão para dar lugar a edifícios muito altos em ruas muito estreitas — seria essa uma forma inteligente de fazer urbanismo na terra escolhida por Acácio Borsoi, Delfim Amorim, Luiz Nunes, Saturnino de Brito e tantos outros que amaram o Recife? O bairro resiste. A casa de Clarice Lispector resiste. O Hotel Central resiste. A Pousada Paris resiste. O Hotel do Parque resiste. A sorveteria Frisabor resiste. O Colégio Pinto Júnior resiste. A antiga Escola Manuel Borba resiste. A Padaria Santa Cruz resiste. O Mercado da Boa Vista resiste. As igrejas católicas resistem. A Livraria Imperatriz resiste. Os oitizeiros resistem. Sou íntimo das ruas da Rive Gauche. Conheço até as árvores da Rua Dom Bosco, debaixo das quais me socializei na adolescência, nos grupos de esquina.

A Boa Vista e nós todos que amamos o centro do Recife resistimos, com os artistas e seus ateliês, com as exposições de arte, com os cinemas e teatros, com os bares tão peculiares, os restaurantes, os camelôs, as pessoas que olham nos olhos e se cumprimentam sem se conhecerem; com os rios vermelhos que desaguaram no Capibaribe nas últimas eleições. É ali onde mais gosto de estar, depois dos arrecifes à beira-mar.

Não tenho culpa se essas memórias foram acionadas como uma espécie de veloz busca por palavras nos arquivos diversos de um computador, ao ver a mostra Um Olhar Sobre a Boa Vista, em cartaz na Escola de Arte Saraiva, do arquiteto e artista plástico Yuri Saraiva. Por isso defendo, por intuição e algum estudo, claro, que a arte só se completa no outro. A arte por si só não é nada. Talvez seja por razões dessa natureza que o filósofo Antônio Cícero escreveu o poema Guardar. Eis aqui um trecho:

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema…

É na relação com o outro que o artista se constitui. E não importa, penso eu, se ele é estreante ou consolidado artisticamente, vendedor ou não de suas obras, ou mesmo daqueles chamados fuleiros, por má-fé ou ignorância. Se a arte aciona sentimentos, memórias, reflexões, negação, incômodos, asco e mesmo dor, pouco importa, pois a arte é o último refúgio, dirá Ailton Krenak, do humano. Sem ela, somos quase nada.

São 19 artistas que expõem seus desenhos e pinturas em Um Olhar Sobre a Boa Vista. Vemos as torres das igrejas, os bancos públicos na calçada à beira do Capibaribe e as majestosas árvores de mangue fincadas no leito do rio; o sobrado de Clarice Lispector, totalmente restaurado na arte de sonhar (um sonho resistente); os telhados das casas do bairro, agradáveis de ver pelo convite que fazem à memória do que restou de uma cidade que perde sua identidade arquitetônica; o Mercado da Boa Vista, fincado no bairro como uma marca de nascença no corpo; as esquinas desenhadas, que guardam história e mistério; os azulejos das casas e suas platibandas, quase despercebidos na paisagem. Todas as obras estão emolduradas — um luxo raro nas exposições contemporâneas —, o que dá unidade, acabamento e relevância à mostra.

Yuri Saraiva, jovem e talentoso, demonstra generosidade ao abrir as portas de seu ateliê para expor os trabalhos dos artistas que ali desenvolvem oficinas na arte da pintura e do desenho. Sem que nenhuma palavra tenha sido dita, Um Olhar Sobre a Boa Vista configura-se como um ato político sobre o belo que sobrevive em meio às ruínas e à má gestão pública.

Que Saint Germain, protetor dos intelectuais e das artes, guarde a Boa Vista e os olhos daqueles que a recriam.

Praia de Boa Viagem, Recife, outubro de 2026.

Isadora Raposo, São Gonçalo em Carvão. Técnica mista sobre papel, 21x30cm, 2026.
Silvia Leitão, Entre folhas e séculos. Óleo sobre tela, 40x50cm, 2026.
Mauro de Melo Júnior, Vista da Boa Vista. Lápis de cor sobre papel, 21x30cm, 2026.
Stephany Mesquita, Onde a palavra era menina. Óleo sobre tela, 40x50cm, 2026.
Edgard Homem, Do quarto 108 do Hotel Central. Óleo sobre papel, 30x40cm, 2026.
Kairo Alencar, Mercado da Boa Vista. Óleo sobre tela, 50x60cm, 2026.
Patrícia Dias, Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar. Óleo sobre tela, 30x40cm, 2026.
Thalita Gico, Janelas e Memórias. Óleo sobre tela, 30x40cm, 2026.
Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque dos alunos da Escola de Arte Saraiva: Eliza Albuquerque.

Imagens das obras: Eliza Albuquerque.

Foto de Angelo Brás Fernandes Callou: divulgação.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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