Um velho amigo uma vez falou: quando brotar um sintoma que possa lhe deixar desconfortável olhe para ele, observe e reserve um tempo para que você possa nomear, reconhecer, compreender e acolhê-lo.

Em “Luto e Melancolia” (1917), Freud nos brinda com um insight preciosíssimo: o de que os sintomas de melancolia, como, aliás, os de todas as formas de adoecimento emocional são, na verdade, tentativas fracassadas de cura!

Durante o processo de Análise, os problemas emocionais e as queixas apresentadas pelas pessoas que nos chegam, constituem o melhor que elas podem fazer. O problema não está ali. O foco não é a autocondenação, o desejo de sumir, a autoestima baixa, o pensamento obsessivo, a tristeza insistente ou o relacionamento disfuncional. Tudo isso já é seu esforço para tentar resolver o verdadeiro problema. São tentativas frustradas do psiquismo de reorganizar-se.

No paradoxo freudiano “a doença como tentativa de cura”, ele propõe que o sintoma é um compromisso entre o desejo inconsciente (hostilidade reprimida, dor não elaborada) e a defesa do Ego (evitar o desprazer da consciência).

Na Neurociência, estudos mostram que traumas não elaborados ficam “presos” no corpo (como memórias implícitas), corroborando a noção de “fracasso na cura”.

Imagine um osso quebrado que calcifica mal: a dor persistente é um sinal de que o corpo tentou, mas não conseguiu, se regenerar adequadamente. Na melancolia, a psique “calcifica” a dor em vez de metabolizá-la.

Freud nos ensina que o pior sofrimento é sempre um gesto desesperado de autopreservação. A melancolia, com sua dor paralisante, é um monumento a uma perda que não pôde ser nomeada.

Sendo assim, o tratamento na Psicanálise envolve decifrar o sentido oculto do sintoma como: “Qual dor essa melancolia está tentando mascarar?”. Durante o processo de elaboração analítica, Freud sugere que é possível transformar a melancolia em luto, permitindo que a perda seja, enfim, simbolizada.

Importante entendermos que, na clínica psicanalítica, o sintoma é um aliado, não um inimigo. Interpretá-lo como sinal de uma luta interna (e não como falha moral) é o primeiro passo para desarmar a melancolia. Como escreveu Freud: “O Eu não é mais senhor em sua própria casa” — mas a análise pode ajudá-lo a reconquistar, peça por peça, os territórios perdidos do inconsciente.

Ronaldo Patrício é psicanalista, terapeuta, tarólogo e mestrando em psicanálise.

Foto do autor: divulgação.

Imagem em destaque gerada através de IA.

Ronaldo SilvaAuthor posts

Ronaldo Silva

Psicanalista, tarólogo e terapeuta energético. É graduado em Jornalismo e Relações Públicas pela UNICAP.

2 Comentários

  • Livrar-se desse mecanismo, sofrimento, luto para então libertação pela psicanalise é algo inatingivel pelos “reles mortais” da população mais vulnerável. Então, ficamos com os traumas, debilitando nossas vidas se não for por esse recurso? Acho importante a psicanálise, mas as terapias de apoio para o enfrentamento do cotidiano e superação da vida, é como podemos… $

Deixe um comentário para Hebe Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 − cinco =