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Eu devia ter uns 17 anos quando meu irmão Múcio me apresentou Abelardo da Hora. Os dois eram colegas no mesmo estabelecimento noturno de ensino médio. Duas de suas filhas apareciam de vez em quando na nossa casa na Rua do Bosco, no Recife. Uma delas foi minha colega de turma também no ensino médio. Lembro-me de sua pele branco-porcelana, lábios vermelho-carmim e cabelos loiros. Uma figura simpática e cheia de vitalidade, simplesmente “da hora”, como dizem os paulistanos.

Muitas décadas depois, em 2005, quando Abelardo da Hora lançou o álbum Danças Brasileiras Populares de Carnaval no Centro Cultural Mercado Eufrásio Barbosa, em Olinda, fui adquirir meu exemplar autografado. Guardo até hoje essa lembrança do grande artista plástico brasileiro. Eu já conhecia sua importância como escultor, desenhista, gravador e ceramista desde a adolescência, época em que minha colega da Hora mencionava que seu pai realizava exposições ao redor do mundo.

Logo após o falecimento do artista, tive a oportunidade de ver a sua primeira retrospectiva, Abelardo da Hora 90 Anos, Vida e Arte, na Caixa Cultural São Paulo, em 2015, sob a curadoria de Renato Magalhães Gouveia. Inesquecível foi observar os desenhos da série É Hora de Brincar, tão próxima do que eu fora um dia: pular corda, cabra-cega, empinar papagaio… Registrei esse momento na crônica Abelardo é da Hora.

Essa viagem no tempo me faz pensar em como me surpreendo comigo mesmo, sobretudo a esta altura da vida — embora na juventude isso também fosse muito comum. Arrisco dizer, aliás, que isso ocorre com quase todo mundo: o fato de que as coisas do cotidiano nos remetem, aqui e acolá, a momentos distantes e, muitas vezes, surpreendentes, prazerosos ou incômodos, de tão hermeticamente guardados ou recalcados na memória. Elas saltam de repente do fundo do baú como atos falhos, em uma espécie de “memória involuntária”. É o que acontece quando somos tocados pelo cheiro de determinados alimentos, por músicas, biotipos de pessoas, gestos diversos, termos linguísticos, um certo tom de azul do céu no meio da tarde, o aroma de terra molhada, o cheiro de mato, da maresia ou do peixe fresco — tão nevralgicamente percebido por Clarice Lispector. Todos esses estímulos vão sendo acionados sem seguir qualquer ordem cronológica.

Toda essa avalanche de lembranças veio com força, como uma espécie de ventania inesperada, ao visitar a exposição Telas Roubam Infâncias, em cartaz na Galeria de Arte Raiz, no bairro do Recife Antigo (conforme expediente abaixo).

O que vemos nas telas e também nas fotografias de Telas Roubam Infâncias são temas ligados a brinquedos e brincadeiras infantis tradicionais, evocados em um tempo verbal conjugado quase no pretérito perfeito. Isto é, tratam dessas práticas como algo na iminência de se tornar um fato inteiramente concluído no passado, em decorrência do acesso cada vez mais precoce e exacerbado das crianças às telas dos smartphones, com todas as suas consequências cognitivas, psicológicas e sociais. É sobre isso que os 28 artistas do Coletivo Raiz nos interpelam nesta nova mostra da galeria. Cumprem, dessa forma, a função essencial do fazer artístico, alinhando-se, por assim dizer, ao pensamento do grande cineasta da nouvelle vague francesa, Éric Rohmer, para quem a arte se nutre de constrangimentos.

É nesse sentido que, ao me deparar com uma tela, não me preocupo com o zelo do artista com técnicas, composição, perspectiva ou o uso das cores — embora tudo isso tenha grande importância no ofício da pintura. Acho que essa busca mecânica muitas vezes acaba por transformar um quadro num mero produto prêt-à-porter para vestir as paredes privadas dos que podem consumir arte visual. Em Telas Roubam Infâncias, a preocupação dos artistas parece-me outra ao assumirem os brinquedos e as brincadeiras infantis populares como temática principal, explicitando em seu próprio manifesto: “Não como nostalgia, mas como urgência. Não para demonizar a tecnologia, mas para questionar o que estamos deixando morrer enquanto não prestamos atenção.”

Ao dar os primeiros passos em Telas Roubam Infâncias, lembro-me imediatamente de Abelardo da Hora na série É Hora de Brincar e de tudo o que minha memória reteve sobre o artista, conforme descrito acima. No momento seguinte, diante do quadro Criança Analógica, de Elielse Soares, reporto-me, pela singeleza da obra, às pinturas de Candido Portinari sobre brincadeiras populares. E, numa espécie de movimento da memória em zigue-zague, a partir dessa mesma obra vejo-me criança nas ruas sem asfalto de Pesqueira e, a partir daí, sinto-me inserido em praticamente todas as telas da mostra.

No Criança Analógica aparecem seis brincadeiras infantis: corrida de aro (com pneu de bicicleta), academia (amarelinha), pião, pula-corda, futebol e bambolê. Ri comigo mesmo ao lembrar de quando tentei, pela primeira vez, rodar o bambolê na cintura — brincadeira tradicionalmente vinculada às meninas, que a realizavam com desenvoltura. Depois de várias tentativas em vão, consegui, enfim, rodar o bambolê em torno de mim mesmo. Se tivesse levado a sério essa brincadeira, não teria sofrido um “tilte” na coluna ao realizar um exercício similar, sem o bambolê, no Pilates na semana passada.

À medida que se avança na exposição, cada artista traz sua versão sobre os brinquedos e as brincadeiras infantis pertencentes à minha geração ou ao entorno dela — ou daquelas pessoas que ainda tiveram a chance de vivenciar os brinquedos populares tradicionais. Lá estão, entre outros: o rodar do pião e as bolas de gude (Cleriston Andrade, entre outros), as pipas (Diego Alves, Ana Maria Veras e Dirce Camargo), a brincadeira de roda e o jogo das pedrinhas (Virgínia Lucas), o esconde-esconde ou trinta e um alerta (Nunes de Figueiredo), além de tantas outras práticas infantis retratadas pelos artistas do Coletivo Raiz que compõem a mostra. Muitas delas mal são lembradas ou talvez já tenham sido esquecidas pelas gerações mais novas: o jogo de fincar o ferro na terra úmida, também chamado de triângulo; o queimado (com suas variações de doente, mau, morreu); o jogo do barbante, o escravos de Jó, a corrida de saco e o pular sela, entre outras atividades guardadas na memória.

Se por um lado há uma alegria em reviver, através das telas, as brincadeiras infantis mais conhecidas, por outro, o cenário não provoca nostalgia, porque a infância ali representada foi plenamente vivida pelo observador, como uma espécie de ciclo fechado. No entanto, o conjunto das obras nos interpela sobre o esmaecimento dessas práticas criativas e socializadoras que pouco vemos hoje em dia, sobretudo nas grandes cidades. O esmaecimento dessas brincadeiras parece-me proporcional ao avanço e à disseminação das tecnologias dos smartphones e ao consequente esvaziamento dos espaços públicos de convivência. Não à toa, os artistas de Telas Roubam Infâncias nos convidam à reflexão sobre esse chão vazio:

“Hoje, o chão está vazio.

Chão Vazio nasce do desconforto diante de um silêncio que não deveria existir. O silêncio de crianças que não brincam, não correm, não inventam.”

Praia de Boa Viagem, Recife, agosto de 2026.

Infância Analógica
Óleo sobre tela painel, 50cm x 80cm.
Elielce Soares
Trinta e Um Alerta no Parque
Série e-CORDEL PINTADO
Pastel seco sobre papel Canson, 42cm x 29,7cm.
Nunes de Figueiredo
As pipas de Portinari (releitura)
Acrílica sobre tela, 40cm x 40 cm.
Diogo Alves
Piripinpando
Acrílico pincel x espátula, 80cm x 50cm.
Ana Maria Veras
Carinho de vó – o paraíso do mundo analógico
Aquarela e nanquim sobre papel, 94cm x 61cm.
Dirce Camargo
Cartaz da Exposição
Boladegude
Acrílica sobre painel, 24cm x 26cm.
Clériston
Minha Infância
Acrílica sobre tela, 96cm x 105cm.
Virgínia Lucas

Expediente:

Exposição Telas Roubam Infâncias

Visitação de quarta-feira a domingo, das 13h às 17h.

A mostra está em cartaz até o dia 20 de setembro de 2026.

Galeria de Arte Raiz – Rua da Moeda,71, Bairro do Recife, Recife

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque: Argonauta, imagem impressa 4/0 cor em adesivo vinílico fosco, aplicado sobre placa PVC 3mm. 71cm x 96cm, Leniée Campos.

Demais fotos: Angelo Brás Fernandes Callou.

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Angelo Brás

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

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