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Há quem diga que o amor se prova em grandes gestos. Viagens surpresa, pedidos de casamento elaborados, declarações de cinema. Mas, quem já viveu um amor maduro, sabe que a verdadeira qualidade de um vínculo não se mede em picos de êxtase e, sim, na textura do cotidiano.

No calendário brasileiro, o dia 6 de setembro (6/9) é lembrado como o “Dia do Sexo”.

É uma data curiosa, que nos convida a pensar sobre o assunto. Porém, como bem observamos, essa data pode ser um trampolim para uma reflexão muito maior: se o sexo, em sua urgência fisiológica, é a satisfação de um desejo que nos habita, a sexualidade é o fio invisível que costura os dias de um relacionamento.

Sexo & Sexualidade: Uma Distinção que Cabe no Dia a Dia

O ato sexual é um instante. Pode ser rápido, intenso, avassalador. É a chama que sobe alta numa fogueira. A sexualidade, poderia dizer, é o cenário inteiro. É a paisagem onde a fogueira está acesa. Envolve o autoconhecimento, as fantasias, as histórias que carregamos no corpo e a forma como nos apresentamos ao outro.

No entanto, reduzir o sexo a mera “satisfação de desejos urgentes” seria empobrecedor por demais. Da mesma forma, atribuir à sexualidade a tarefa exclusiva de “manter o vínculo”, pode soar como obrigação. A verdade, que pode ser a mais bonita, é que o sexo e a sexualidade não competem entre si. Eles se alimentam. Um bom vínculo seguro — tecido pela sexualidade — é justamente o que nos dá liberdade para, às vezes, fazer amor de forma selvagem e rápida, e outras vezes, de forma lenta e contemplativa.

O Cuidado como Linguagem do Afeto

Falamos sobre o cuidado como a chave de tudo. Quando falamos de sexualidade num relacionamento, não nos referimos apenas ao quarto. Falamos dos gestos minúsculos e poderosos que anunciam o desejo muito antes de qualquer toque mais íntimo.

Cuidar é verbo que se conjuga no plural e no singular:

Cuidar de si – A sexualidade é, antes de tudo, uma relação consigo mesmo. Cuidar do próprio corpo, da própria mente e dos próprios limites não é egoísmo. É a base para que a outra pessoa, de fato, possa te amar. Você só pode ser um bom ou uma boa amante (no sentido amplo da palavra) se não estiver esvaziado.

Cuidar do outro – É a mão que segura a porta, o silêncio confortável enquanto o outro descansa, o copo d’água oferecido sem ser pedido. São esses “microafetos” que sinalizam: “Eu te vejo, você é seguro ou segura comigo”.

Cuidar do entorno – A sexualidade não acontece no vácuo. Ela é afetada pela rotina, pelo estresse do trabalho, pela casa arrumada ou bagunçada. Quando o casal está atento ao entorno, ele cria rituais de separação e acolhimento, sabendo quando o outro precisa de espaço e quando precisa de colo.

A Magia da Rotina: Quando a Repetição Vira Ritual

É comum ouvirmos que a rotina é a “morte do desejo”. Mas, nós dois concordamos que ela pode ser profundamente mágica — desde que ambas as partes estejam atentas na manutenção da qualidade do dia a dia.

Quando duas pessoas estão atentas, a rotina deixa de ser um piloto automático e se transforma em um repertório de gestos conhecidos que confortam. A xícara de café no mesmo horário, o beijo de despedida que tem a mesma duração, a pergunta “Como foi seu dia?” feita com os olhos nos olhos. Isso se torna dança ensaiada que, justamente por ser conhecida, gera segurança.

E é na segurança que a magia acontece.

A manutenção da qualidade é um estado de presença ativa. É perceber quando o outro está mais cansado, quando o silêncio está pesado, quando um gesto que antes fazia sorrir, agora passa despercebido. É a habilidade de recalibrar a rota diariamente, sem que isso vire cobrança. É quase uma jardinagem relacional: regar, podar e admirar o crescimento sem pressa, para usufruir dos frutos ou das flores.

Há uma beleza imensa em fazer as mesmas coisas, mas com intensidade renovada. É o mesmo prato preparado com um tempero novo. É a mesma caminhada de fim de tarde, mas com uma mão que aperta a outra de um jeito diferente. A rotina não aprisiona quando ambos decidem que cada novo dia é uma nova oportunidade de escolher estar com o ser amado novamente.

Uma visão revolucionária no relacionamento a dois

Ao final dessa troca, fica a lição inspiradora: a felicidade não está num futuro distante (“quando as coisas melhorarem”), nem num êxtase passageiro. Ela está no agora construído com cuidado.

Nesta época de descartabilidade afetiva, onde tudo se troca quando “o fogo apaga”, essa visão é um ato político e revolucionário. O fogo não precisa ser labareda eterna — ele pode ser brasa bem cuidada, que aquece devagar e dura a vida inteira.

O sexo é o instante. A sexualidade é o caminho. E o cuidado repetido, dia após dia, é o que transforma dois seres estranhos em um lar.

O autor é psicanalista, com mestrado em Psicanálise, tarólogo e terapeuta.

Imagens de casal: geradas por IA.

Foto de Ronaldo Patrício: divulgação.

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Ronaldo Silva

Psicanalista, tarólogo e terapeuta energético. É graduado em Jornalismo e Relações Públicas pela UNICAP.

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