Uma das definições para bálsamo é o que provoca uma sensação de alívio e que acalma, conforta. A poesia, neste sentido, é o bálsamo para tempos difíceis ou então para relaxar e entrar em contato consigo mesmo. Dois lançamentos editoriais cumprem esta missão. A jornalista, escritora e professora Nanete Neves acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, Água demais mata a planta, pela Lavra Editora. Já o escritor, compositor e editor de livros Luís Perdiz lançou no início do ano, pelo ProAC SP, A selva nos seus olhos, da Primata Editora.

O lançamento do livro da paulistana Nanete Neves aconteceu no último dia 23 de maio e o público presente pôde não só adquirir a obra como participar de um bate papo com a autora e ouvir alguns dos poemas.

O livro é prefaciado pela poeta Paula Valéria Andrade e, antes das 53 poesias produzidas desde 2008 até os dias atuais, a autora faz uma pequena apresentação contando sobre sua trajetória no mundo das palavras. A obra é dividida em cinco partes — Quem sou? (com 9 poemas), Fêmea (com 6), Amores, humores e cobiças (com 20), O mundo em desencanto (com 7) e fechando com Prosa ligeira (com 11 poesias) —, que definem a produção da autora. A primeira parte revela a relação dela com a palavra.


minha poesia
é manifesto
do que me vai na mente
no ventre
nos entres


palavras podem ser armas
o horizonte é logo ali
e no fim do arco-íris
repousam latas de tinta
Se eu quiser poesia,
eu que poemas componha

Como o próprio nome diz, na segunda parte há uma produção que mostra um lado erótico e feminino, como “entro em cena, me dou tua/ livre, rouca e nua/ e da boca dizendo/ tudo que você quer ouvir.” Ou ainda mais explícita:
 
Não vejo a hora
de te ofertar
a vulva rosa
gulosa
que feito esponja
de teu sêmen
se apropria
se alimenta
e se faz forte

Na terceira parte há o amor, o desamor, o encanto e o desencanto, tudo pode ser sintetizado com esses versos: “Por todos os nossos dias/, por tudo em que nos transformamos/ esquecer não faz parte/ é desumano!” A quarta parte a autora revela seu lado político, reivindicatório e certa desilusão, quando exclama: “Será que mudamos mesmo de século?”. Há ainda o poema/título do livro, em que Nanete filosofa: “Pense bem, tudo o que é demais faz mal”. Na última parte, há poemas bem curtos, haicais e textos de prosa poética, como este que provoca profunda reflexão:

 “Velhice é ir se despedindo das coisas, aos poucos. Ser velho é todos os dias, um de cada vez, aproveitando o máximo cada minuto emprestado do infinito.”

Poeta da natureza

Luís Perdiz é natural de Campinas/SP e antes de A selva nos seus olhos já publicou dois livros de poesias, Desejo de terra/2019 e Você me enche de areia/2023. Além de escritor, é compositor, editor de livros e coordena a Editora Primata. Seu primeiro livro foi prefaciado pelo poeta Claudio Willer, que o alinhou aos poetas da natureza.

Nesta terceira obra, o autor reúne 46 poemas, na maioria curtos, e curiosamente todos sem títulos (no sumário, cada poema é identificado pelo primeiro verso). O prefácio é assinado pelo mestre em literatura brasileira, o professor Diogo Cardoso, que define bem o poeta: ele não hierarquiza as relações entre seres, seja homem/animal, natureza/cultura, homem/natureza. Perdiz opera uma ampliação de fronteiras em que a linguagem se converte em instrumento de criação e de consciência. Exemplos desta falta de hierarquia entre humanos, animais, vegetais e natureza são inúmeros:

Eu vi a selva nos seus olhos e vivi
tanto tempo que me aqueço ao lembrar

Nos seus galhos
eu me perco
e me refaço
.

O mico-leão-dourado
vibra nas bromélias
E nós despertamos
mas com olhos de edifício
prisioneiros da nostalgia

A produção do autor também retrata passeios com a amada na natureza, em que sobressaem as imagens poéticas. Mas a cidade também é palco de sua obra:

Goles de Heineken assistindo Almodóvar.
Nossos lábios são a madrugada
e as luzes da praça não apagam
no inverno paulista das janelas.

As nuvens noturnas
são pedaços da eternidade
onde a espuma do corpo
se mistura com a do mar.

O professor Cardoso enfatiza o poder de síntese do autor, que “não deixa de evocar as parábolas, sem, no entanto, se esquivar de transmitir um universo suntuoso e múltiplo.” Finalizando, outros dois poemas, dentre tantos, merecem ser destacados pela profundidade que ecoam:

Adormeço
nesta solidão
que colho sem plantar
.

O fogo é paciente em sua urgência
eu sou inquieto em minha calma.
A areia é a pele da terra
e seus grãos amortecem o amor.

Ficha técnica:

Ttulo: Água demais mata a planta

Autora: Nanete Neves

Editora: Lavra Editora, 90 pgs, R$50,00.

Ficha técnica:

Título: A selva nos seus olhos

Autora: Luís Perdiz

Editora: Editora Primata, 120 pgs, R$40,00

O autor da resenha.

Maurício Mellone é jornalista com mais de 40 anos de estrada; fez e faz a carreira, majoritariamente, a partir da imprensa de São Paulo – rádio, TV, impresso e assessoria de comunicação.

Foto em destaque de Nanete Neves e Luís Perdiz: divulgação.

Imagem das capas do livros: divulgação.

Foto de Maurício Mellone: divulgação.






Edgard HomemAuthor posts

Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × 5 =