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(Para Puranci Araújo, in memoriam)

Abrem-se as portas de ferro em vermelho-MASP do Teatro Oficina, em São Paulo. Ali não há cortinas. Nem palco. Sou um dos primeiros a adentrar.

A pista concebida por Lina Bo Bardi é o próprio teatro. Seus andaimes, projetados pela arquiteta homenageada, configuram uma rua-palco — como é a arte, como é a rua, a própria vida. Estruturas que emolduram a construção do consumo, das guerras, do amor e da criação.

Zé Celso Martinez Corrêa forjou a ferro esses andaimes que compõem o eixo palco-plateia-rua. Construiu um a um com seus operários no ofício da representação, num combate irredutível entre a Arte e seus algozes: as ditaduras, a censura, as igrejas, o Centrão que se reproduz feito doença maligna, o coisismo e a ganância — ou seria ignorância também? — do empresário Silvio Santos para abocanhar com dentes de tubarão o entorno do Oficina, agora salvo pelo tombamento federal.

Minha vontade era subir com a audiência jovem as escadas que levam às galerias superiores para assistir à Rasga Coração, cujo cerne do espetáculo é o compositor, maestro e instrumentista Heitor Villa-Lobos; mas me contive, pois já tomei minha dosagem de simancol etário. Confesso, contudo, que ainda não desisti totalmente.

Nos andaimes externos que dão para a passarela, os atores também se locomovem dependurados, sem qualquer proteção, a nos dizer: a arte é uma construção perigosa, pois ela nos espelha sob a luz estourada dos refletores. Estamos todos por um triz, no templo das incertezas, do imponderável e das emoções mais humanas.

Rasga Coração foge ao didatismo, aos musicais estereotipados, bem ensaiados, bem redondinhos, ao gosto da classe média “culta”, ávida por entretenimento comezinho — como foi o Tom Jobim Musical, dirigido por João Fonseca em 2024. O espetáculo do Oficina vai no sentido contrário: ele nos interpela, exige reflexão e nos apresenta à nossa brasilidade desconhecida, negada ou ignorada pelo deslumbramento com o que vem de fora, num viralatismo à la Nelson Rodrigues. Europa, França e Bahia (1930), de Carlos Drummond de Andrade, e Oropa, França e Bahia (1951), de Ascenso Ferreira, não me deixam mentir. O espelho que a peça nos apresenta é polido pela emoção e pela grandiosidade de ser brasileiro.

A música de Villa-Lobos trazida à cena — é bom dizer — não funciona como uma biografia musical ou pessoal do artista. O foco está no que ela representa: o ato de triturar, ou melhor, antropofagizar à la Oswald de Andrade, traduzindo a nossa cultura em uma obra genuinamente brasileira e, ao mesmo tempo, universal. Essa é, arrisco dizer, a genialidade de Villa-Lobos. Não à toa o maestro fez parte da Semana de 22, em São Paulo; foi ali que o ápice da nossa modernidade musical revelou a riqueza e a pluralidade dos ritmos e vozes da nossa cultura afro, indígena, branca, de nossos mares, florestas, rios, a fauna, a flora e da nossa ecologia humana.

Cheguei a Villa-Lobos por caminhos muito particulares. Foi por meio da música de Egberto Gismonti, mais especificamente pelo disco Trem Caipira, de 1985, apresentado pelo amigo Puranci Araújo. Villa-Lobos-Gismonti me levou à grande cantora lírica brasileira Bidu Sayão. Sua interpretação das Bachianas Brasileiras n.º 5, de Villa-Lobos, é inesquecível.

Como inesquecível foi a interpretação dessa mesma Bachiana, pela cantora lírica Evenilde Veras acompanhada ao piano por Sarita Kauffman, numa missa comemorativa dos 80 anos de minha mãe, na Igreja das Graças, no Recife.

Na rua-passarela de Lina Bo Bardi, movimentam-se pelo asfalto e pelos andaimes — refletidos nas grandes telas de vídeo do teatro — mais de 30 artistas. Atores, músicos, cantores e bailarinos se revezam na atuação ao longo do espetáculo, de maneira versátil e surpreendente. Eu, na calçada da pista, a dois metros do elenco, vejo desfilar a força do Brasil afro em nossa cultura: sua dança, sua música, seu lamento, suas cores e suas evocações religiosas, fortemente ligadas aos orixás e entidades da Umbanda e do Candomblé. Do lado dos indígenas, igualmente testemunhamos falas em línguas originárias, ritmos e danças ancestrais que ecoam em coro; manifestações que desconhecemos por pura ignorância sobre nós mesmos. Na tela, aqui e acolá, surgem retratos do messianismo rural que evocam o livro Messianismo no Brasil e no Mundo, de Maria Isaura Pereira de Queiroz. Em projeções em preto e branco, vemos os Alcolumbres e Hugos Mottas da vida, destituídos de qualquer cor e expressão cultural diante daquele terreiro dionisíaco, tal como definiu Zé Celso.

No meio da rua-palco, surge uma transeunte e interpreta a Bachiana n.º 5 de Villa-Lobos sob os acordes de um violoncelo. Naquele instante, tive a certeza de que Zé Celso, Villa-Lobos, minha mãe e Puranci, as entidades afro-brasileiras, as divindades criadoras, os espíritos da floresta e os guardiões da natureza da nossa cultura indígena estavam todos dependurados, qual anjos soltos, pelos andaimes do Oficina. Vai-se às lágrimas. Rasga coração!

De coração rasgado, saio da rua-passarela-palco-plateia da alegria polifônica brasileira e esbarro na noite fria de São Paulo. Trago a certeza de Oscar Wilde de que a vida imita a arte. Sem ela, somos quase nada.

Bairro de Campos Elísios, São Paulo, julho 2026.

Expediente:

Rasga Coração

Direção: Felipe Botelho e Roderick Himeros.

Concepção: Felipe Botelho e Marcelo Drummond.

Em cartaz no Teatro Oficina, Rua Jaceguai, 520, no bairro do Bixiga (Bela Vista), em São Paulo, SP.

Ingressos de R$40,00 a R$150,00.

Angelo Brás Fernandes Callou

Ele é Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com pós-doutorado em História e Cinema pela Universidade Nova Lisboa.

Foto em destaque do cartaz da peça: Angelo Brás Fernandes Callou.

Imagem interna do Teatro Oficina: Angelo Brás Fernandes Callou.

Foto do autor do texto: autorretrato.

Edgard HomemAuthor posts

Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

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