Sente-se. Respire. O que vou lhe dizer não é uma adivinhação. É uma leitura de estrutura – da estrutura da alma quando prefere o cerco conhecido ao campo aberto.

Observe com atenção o arcano menor Oito de Espadas. Uma mulher vendada, os braços imobilizados por faixas que não são grossas. Bastaria um movimento seco para rompê-las. 

Ao redor, oito lâminas fincadas no chão, formando um cerco incompleto porque há passagens entre elas. 

Ao fundo, um castelo numa colina, água calma, uma ponte simbólica. A saída está ali, visível. Mas ela não anda. Não tira a venda. Não se desvia das espadas.

Por quê?

A resposta que o esoterismo superficial dá é “medo”. Mas eu, como tarólogo e psicanalista que há décadas escuta sonhos e interpreta arcanos, digo: não é só medo. É gozo.

Numa perspectiva psicanalítica lacaniana, o gozo não é prazer. É o que prende.

O prazer, como ensinou Freud, obedece ao princípio da homeostase. Ele busca apaziguar a tensão. O gozo, como Lacan refinou, é justamente o avesso, é a tensão que se mantém, o excesso que dói, mas que a pessoa não larga. O gozo é o prazer do desprazer. É o alívio estranho de saber exatamente onde dói. É a segurança da cela que, depois de tanto tempo nela, o corredor já cheira a seu.

O Oito de Espadas é o retrato do gozo encarnado numa postura. Observe:

A venda não é colocada por um carrasco externo. Ela repousa sobre os olhos dela. Ela se recusa a ver que pode escolher. Porque ver a liberdade obrigaria a agir – e agir exige abrir mão do gozo da queixa.

As espadas são pensamentos intrusivos, crenças limitantes, frases internalizadas: “Não posso!” “Não sou digno!” “Não sou digna!” “É tarde demais”! “Fazer o quê?! Se eu mudar, quem serei?”. Cada lâmina é um sintoma. E o sintoma, veja bem, é o maior operário do gozo.

A imobilidade não é física. É libidinal. Há prazer inconsciente em permanecer ali. Porque a paralisia dá direito a uma identidade: a de vítima. E ser vítima dispensa responsabilidade, dispensa escolha, dispensa o risco de errar.

A pessoa do Oito de Espadas chega à análise (ou ao jogo de Tarot) e diz: “Estou presa, doutor. Veja essas cordas. Veja essas espadas.” E quando se aponta que as cordas são frouxas, que há espaço entre as lâminas, ela responde com um sorriso amargo: “Mas você não entende… eu já tentei.”

Esse “já tentei” é a assinatura do gozo. Ele sustenta a repetição. A pessoa repete o mesmo relacionamento falido, o mesmo trabalho que adoece, a mesma paralisia diante de cada mudança. Porque mudar seria perder o gozo do sofrimento familiar.

O preço de tirar a venda

Para sair do Oito de Espadas, seria necessário tirar a venda e ver que as espadas não estão pregadas no chão – elas podem ser arrancadas, uma a uma. 

Mover os braços, romper as faixas – isso dói. Romper uma faixa simbólica dói no corpo psíquico. 

Andar, escolher um vão entre as espadas. Isso significa, talvez, errar e se machucar nas lâminas. Mas, é o preço de sair do castelo mental.

E aqui está a virada psicanalítica: a pessoa não sai do Oito de Espadas, enquanto o gozo da imobilidade for maior que o desejo de movimento.

O gozo não é inimigo do sofrimento. Ele se alimenta do sofrimento. O gozo é aquela voz interna que sussurra: “Fique aí. É perigoso lá fora. Aqui você conhece cada sombra, cada espada.”

Como psicanalista e tarólogo, eu sei que não posso arrancar a venda da pessoa à força. Isso seria violência simbólica. Ao contrário, posso perguntar com a paciência de quem conhece a astúcia do gozo:

“De que forma ser essa pessoa vendada e amarrada lhe traz alguma paz?”

“O que você ganha ao não tirar a venda?”

“Se você pudesse escolher uma única espada para arrancar hoje, qual seria?”

E então, talvez, muito lentamente, a pessoa comece a nomear o seu gozo. Ela diz: “Ganho a certeza de que não sou responsável pelo que não acontece.” Ou: “Ganho o direito de reclamar sem agir.”

Nomear o gozo já é começar a destituí-lo. Porque o gozo funciona no escuro. Ele precisa da venda. Quando a análise ou o Tarot bem conduzido acende uma luz sobre ele, o gozo encolhe. Ele não some, mas perde o caráter de destino. Vira escolha inconsciente e toda escolha inconsciente pode, um dia, ser reapropriada.

O Oito de Espadas não é uma carta de prisão eterna – é um retrato do instante em que o gozo venceu o desejo. E o instante pode ser desfeito. No entanto, exige o que há de mais difícil: abrir mão da própria miséria como território seguro.

Se você reconhece a mulher vendada em alguma área da sua vida – amor, trabalho, saúde mental, relações familiares – saiba que as faixas são frouxas. As espadas não estão coladas no chão. O castelo ao fundo não é uma miragem.

O problema não é a falta de saída. O problema é que, às vezes, a gente goza da masmorra que de tão íntima, decoramos as suas texturas e atmosferas.

Tire a venda. Não amanhã. Hoje. Nem que seja por um segundo, para ver a cor da espada mais próxima. Depois, você decide se volta a vendá-la. Porém, uma vez visto, o castelo não sai mais da sua retina. E o gozo já não será mais o mesmo.

— Texto inspirado na fusão entre a escuta psicanalítica lacaniana e a linguagem arquetípica do Tarot. Nenhuma simbologia substitui o divã, mas ambas podem iluminar becos que a razão insiste em chamar de rua.

O autor é psicanalista, com mestrado em Psicanálise, tarólogo e terapeuta.

Imagem em destaque da carta do Tarot, Oito de Espadas: Google.

Foto de Ronaldo Patrício: divulgação.

Edgard HomemAuthor posts

Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

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