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A dor como território conhecido

Quando alguém está triste ou frustrado, a dor já está instalada. Sair dela exige energia psíquica que, muitas vezes, a pessoa não tem naquele momento. Então, em vez de lutar contra o mal-estar, ela se rende a ele. Há um alívio paradoxal nisso: parar de resistir cansa menos do que tentar se reerguer.

A dor como identidade

Em alguns casos, a pessoa não sabe quem é sem aquela dor. Ela se tornou uma âncora de identidade: “eu sou aquele que foi traído”, “eu sou aquele que fracassou”, “eu sou aquele que ninguém entende”. Elaborar a dor significaria abrir mão dessa identidade — e isso gera angústia, porque o vazio que sobra pode ser mais assustador do que a dor conhecida.

O isolamento como proteção

Isolar-se não é só fugir dos outros; é fugir da possibilidade de novas feridas. Se ninguém se aproxima, ninguém me decepciona, ninguém me vê frágil, ninguém me rejeita. A solidão vira uma armadura: dói, mas é uma dor controlada, previsível, sob meu domínio.

O circuito de recompensa da ruminação

Neurobiologicamente, a ruminação (ficar revivendo a mesma cena, a mesma mágoa, o mesmo fracasso) ativa circuitos ligados à autoavaliação e à memória autobiográfica. Há um componente compulsivo: quanto mais se pensa, mais se quer pensar. É como coçar uma ferida — alivia por um instante e piora depois. A pessoa não está “curtindo” no sentido de prazer, mas está presa num loop que dá uma sensação falsa de estar “lidando” com o problema, quando na verdade só o aprofunda.

A recusa da elaboração

Elaborar exige nomear o que se sente, reconhecer perdas, tolerar a ambivalência (amar e odiar a mesma pessoa, por exemplo); e, no fim, renunciar a algo.

Isso é doloroso de um jeito diferente: não é a dor passiva da tristeza, é a dor ativa do luto. Muita gente prefere a primeira porque a segunda exige trabalho psíquico e coragem.

Por que “curtir a dor” em vez de elaborar?

Freud chamava isso de resistência: o psiquismo se defende do que seria insuportável de saber. A dor repetida é uma forma de não saber. Enquanto eu sofro, não preciso entender. Enquanto me isolo, não preciso me confrontar.

Há também o que Winnicott descreveu como medo do colapso — não do colapso que já aconteceu, mas do colapso que ainda não foi experienciado. A pessoa se isola para não entrar em contato com algo mais fundo que a tristeza atual.

E há ainda um aspecto social: vivemos numa cultura que romantiza a dor (a música triste, o herói trágico, o “eu sou assim, sofrido”, a própria sofrência expressada no nosso cancioneiro estimula essa conduta). Para algumas pessoas, a dor é a única forma de sentir que têm profundidade, que são especiais, que não são superficiais.

O que isso pode revelar?

Que todo sofrimento tem uma função. Mesmo a dor que parece autossabotagem está tentando proteger algo: uma memória, uma identidade, uma esperança, um vínculo. O isolamento não é só fuga — é também um pedido mudo de que alguém veja a dor sem exigir que ela vá embora rápido demais.

A saída não é “parar de sentir”, mas transformar a dor em narrativa. Quando a pessoa consegue contar o que aconteceu — para um terapeuta, um amigo, um diário, expressar numa arte —, a dor deixa de ser um buraco e vira uma história. E história, por definição, tem começo, meio e fim. A dor sem história não tem fim; a dor narrada pode ter.

Se você está passando por isso ou acompanhando alguém nesse lugar, o primeiro passo não é tirar a pessoa da dor, mas estar com ela sem exigir que saia. Às vezes, é justamente essa presença que torna possível, depois, elaborar. Também me disponho a acompanhar essa pessoa profissionalmente, para uma escuta acolhedora e sem julgamentos.

O autor do texto.

Ronaldo Patrício é psicanalista, tarólogo e terapeuta energético. É graduado em Jornalismo e Relações Públicas pela UNICAP.

Imagem em destaque: produzida por IA.

Foto do autor: divulgação.

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Edgard Homem

Por aqui transitam a arte e a cultura, o social – porque é imprescindível dar uma pinta de vez em quando, as viagens, a gastronomia e etc. e tal.

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