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Ele se reconhece como heterossexual. Às vezes, é casado, tem filhos, deseja mulheres. Mas também tem — ou já teve — experiências com outros homens. Relações que aconteceram, repetiram-se, talvez até lhe tenham dado prazer. No entanto, ao sair do ato, o desejo não é integrado. A identidade permanece intacta: “sou hétero”. Como isso é possível?

Longe de ser um fenômeno raro ou bizarro, essa cisão entre o que se vive e o que se assume é relativamente comum entre homens. E levanta uma questão psicanalítica e cultural importante: por que é tão difícil para o homem bancar seus próprios desejos — especialmente aqueles que fogem do roteiro esperado?

A cisão entre o ato e a identidade

Na clínica psicanalítica, observa-se um mecanismo que podemos chamar de cisão ego-sintônica: o homem vive o ato homossexual, mas não integra esse ato ao seu eu. Ele pensa, de forma mais ou menos consciente: “Eu fiz isso, mas isso não sou eu.”

Como isso é possível? Por meio de defesas psíquicas como:

Isolamento: o ato é vivido como um fragmento separado, sem ligação com os afetos ou com a história pessoal.

Racionalização: “foi só tesão”, “foi curiosidade”, “foi uma fase”, “não significa nada”.

Negação: o sujeito literalmente não se reconhece como alguém que deseja homens — mesmo desejando.

Essa cisão só se sustenta enquanto o desejo não exigir reconhecimento simbólico: nome, afeto, vínculo, integração.

O imperativo da masculinidade heteronormativa

A sociedade tradicional constrói o homem ideal como: ativo, dominante, provedor, não-passivo, não-afeminado, desejante de mulheres. Qualquer desvio desse roteiro ameaça o status de “homem legítimo”.

Para muitos homens, sentir atração por outros homens — ou mesmo ter uma experiência homossexual — é vivido como uma falha na masculinidade. Mais precisamente, como uma perda de acesso ao falo simbólico: poder, virilidade, posição de sujeito desejante (e não objetificado).

O medo não é apenas da rejeição social. É o medo de perder o lugar no mundo dos homens — o que, psiquicamente, equivale a uma espécie de aniquilação simbólica.

A homofobia internalizada

A homofobia internalizada é um conceito central aqui. Ele designa a incorporação, pelo próprio sujeito que sente desejo homo ou bissexual, dos preconceitos sociais contra a homossexualidade.

Na prática, o homem sente atração por outro homem. Imediatamente, aciona-se um superego homofóbico que condena esse desejo. Para evitar a culpa intolerável, ele recruta defesas: nega, isola, age sem se sentir autor, mantém o desejo na clandestinidade psíquica.

Resultado: ele pode desejar e até agir, mas não pode assumir. Assumir seria confrontar o juiz interno que diz: “Isso é errado, vergonhoso, feminino e degradante.”

A bissexualidade masculina e o “entre-lugar” que não existe

A bissexualidade masculina é particularmente difícil de integrar, porque desafia a lógica binária: ou se é hétero, ou se é gay. Habitar um entre-lugar — desejar homens e mulheres — exige uma flexibilidade psíquica que a cultura masculina tradicional não oferece.

O homem bissexual, quando não encontra reconhecimento simbólico para sua experiência, tende a recusar um dos polos e recalcar o desejo correspondente; ou viver o desejo proibido de forma fragmentada, sem integração, como compulsão ou descarga.

Raramente consegue dizer, com tranquilidade: “Sou bissexual. Desejo homens e mulheres. Isso é inteiramente meu.”

O que Freud dizia: homossexualidade como destino pulsional

Freud não via a homossexualidade como patologia, mas como uma possível configuração da pulsão — uma inversão do objeto, não uma doença. No entanto, ele observou que muitos homens desenvolvem uma homossexualidade latente recalcada, que pode emergir em atos sem jamais se tornar consciente.

Nesses casos, o homem age homossexualmente, mas mantém o recalque primário sobre a natureza do seu desejo. O ato acontece como compulsão, não como escolha integrada. Falta ali um trabalho psíquico de elaboração: “Isso é meu. Eu desejo isso. Isso sou eu.”

Em síntese: não é covardia, é sofrimento psíquico

A dificuldade masculina em bancar o desejo por outros homens — mesmo quando ele já se manifestou em atos — não é mera hipocrisia ou medo da opinião alheia. Ela é um sintoma cultural e psíquico:

Cultural, porque a masculinidade hegemônica pune qualquer fuga do roteiro heterossexual ativo.

Psíquica, porque muitos homens internalizaram esse julgamento como verdade sobre si mesmos, formando um superego que impede a integração do desejo.

Esses homens não estão, necessariamente, “mentindo” quando dizem que são héteros. Eles estão se dizendo a verdade que conseguem suportar. O desejo que vive no corpo e no ato ainda não ganhou cidadania na sua identidade.

O que pode ajudar?

A elaboração desse conflito exige fortalecimento do ego para tolerar a vergonha e o medo da perda de status. Ambientes culturais e relacionais que ofereçam ao homem a possibilidade de ser bissexual — não como uma ponte entre dois polos, mas como um lugar inteiro e legítimo. Acolhimento psicanalítico ou terapêutico que não force rótulos, mas ajude o sujeito a integrar o que já viveu com o que ele pode ser.

Enquanto essa oferta simbólica não existir amplamente, muitos homens continuarão vivendo na cisão: agindo um desejo que não podem chamar de seu, e chamando de “hétero” um desejo que já os visitou por outras vias.

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Texto inspirado em reflexões psicanalíticas — não substitui acompanhamento clínico.

O autor é psicanalista, com mestrado em Psicanálise, tarólogo e terapeuta.

Imagem em destaque: gerada por IA.

Foto de Ronaldo Patrício: divulgação.

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Ronaldo Silva

Psicanalista, tarólogo e terapeuta energético. É graduado em Jornalismo e Relações Públicas pela UNICAP.

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